ClimaInfo, 19 de outubro de 2018

ClimaInfo mudanças climáticas

O IMPACTO DO AQUECIMENTO GLOBAL NO BRASIL SERÁ MAIOR PARA OS MAIS POBRES

O Relatório 1,5oC do IPCC contou com a colaboração de um grupo de cientistas brasileiros que conversaram com a imprensa ontem. Alguns destaques: Thelma Krug, vice-presidente do IPCC e uma das principais articuladoras do Relatório, disse que qualquer centímetro a mais no nível do mar tem uma repercussão enorme, principalmente “nas pequenas ilhas e todas as cidades em áreas baixas. E o nível do mar é o mais complicado de tudo, porque vai aumentar por décadas e centenas de anos, mesmo que parem todas as emissões”. Patrícia Pinho, do Centro de Resiliência de Estocolmo mencionou as 30 milhões de pessoas que vivem na Amazônia e que podem vir a ser afetadas pelos impactos que o aumento da temperatura trará para a região. Patrícia manifestou especial preocupação com estas pessoas que “são das populações mais pobres do Brasil”. Marcos Buckeridge falou da situação social no Nordeste: “é um ponto focal importante em termos de extremos de seca – mais ainda do que já temos. As populações que vivem ali estarão em grande risco se o aquecimento passar de 1,5oC. Vão ter que sair, não vão ter mais condição de ficar”. A conversa ainda teve a participação de José Marengo, do Cemaden. Roberto Schaeffer, da COPPE/UFRJ, também fez parte da elaboração do Relatório, mas não pode participar.

https://g1.globo.com/ciencia-e-saude/noticia/2018/10/18/alta-de-15oc-na-temperatura-vai-aumentar-desigualdades-e-afetar-mais-pobres-dizem-cientistas-brasileiros.ghtml

 

MP DISPENSA LICENCIAMENTO DE OBRAS EM ESTRADAS NA AMAZÔNIA

No apagar de suas luzes, o governo Temer deu mais uma amostra da intenção de entrar para a história como um dos piores para o meio ambiente. Temer prepara uma medida provisória que dispensa o licenciamento ambiental para asfaltamento de estradas já abertas. Já na justificativa da dispensa, aparece a BR-319, a estrada que  liga Manaus a Porto Velho. Esta é uma das regiões mais ameaçadas da Amazônia e a falta de asfalto é uma das últimas defesas contra uma ocupação sem controle, como a que aconteceu ao longo de outras estradas, como a BR-364, nos anos 80 e 90, e, mais recentemente, na BR-163, a Cuiabá-Santarém. O senador Eduardo Braga, do Amazonas, disse que era um pedido antigo dele, apesar de frequentemente posar como defensor da floresta.

Em tempo: o desmatamento se dá, neste e em outros casos, em áreas públicas.

http://www.observatoriodoclima.eco.br/projeto-permite-asfaltar-estrada-na-amazonia-sem-licenca/

 

DO PORQUE O PAÍS NÃO DEVE SAIR DO ACORDO DE PARIS

A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura divulgou uma nota sobre a importância para o país de sua permanência no Acordo de Paris e de dar seguimento ao combate ao desmatamento ilegal, ressaltando o “compromisso que o país tem com o mundo para assegurar a segurança alimentar, hídrica e climática da humanidade”. A Coalizão aborda três lados da questão: a produção agropecuária depende do clima que, por sua vez, depende da floresta em pé; a inserção dos produtos brasileiros nos mercados mais exigentes, como os da Europa e Japão; e a importância de manter as pastas do Meio Ambiente e da Agricultura separadas. A Coalizão surgiu nas discussões que levaram à formulação da NDC apresentada em Paris e reúne empresas e associações ligadas ao agronegócio e ao uso da terra – Amaggi, Cargill, Fibria e entidades como Unica (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) e a Sociedade Rural Brasileira, além de ONGs como Ipam, Imazon e WWF.

A mídia tem repercutido, também, opiniões de especialistas que são unânimes em afirmar que não é bom para o país uma eventual saída do Acordo de Paris. Eles lembram que o presidente francês, Emmanuel Macron, recentemente pediu aos países não mais assinarem “acordos comerciais com as potências que não respeitam o Acordo de Paris”. Ele certamente dirigia seu recado para Trump, mas a carapuça serve perfeitamente para um certo candidato à presidência.

https://www.valor.com.br/brasil/5933605/pais-perde-com-saida-do-acordo-de-paris-dizem-especialistas

http://www.coalizaobr.com.br/home/index.php/posicionamentos/item/847-eleicoes-coalizao-brasil-reafirma-a-importancia-do-acordo-de-paris-da-economia-de-baixo-carbono-e-da-democracia

 

A DECLARAÇÃO INFELIZ DO PRESIDENTE DA UNIÃO RURALISTA

A recente declaração do presidente da União Ruralista (UDR) sobre o desmatamento zero não ter sentido repercutiu mal. Nabhan Garcia, cotado para o ministério da agricultura, justificou-se dizendo que, pelo Código Florestal, no bioma Amazônico, o proprietário pode suprimir a vegetação nativa de 20% da sua área. Garcia, por esperteza ou por desconhecimento, esqueceu que o Código também regulamenta as Áreas de Proteção Permanente, entre as quais as margens de corpos d’água têm papel de destaque. Quem conhece a região sabe a quantidade de rios, riachos, igarapés que existem para todo lado. Se fizer as contas direito, verá que o direito de desmatar é bem menor do que supõe. O Greenpeace colocou as APPs na mesa, junto com críticas a outros pontos da entrevista de Garcia. O senhor, pecuarista, se junta assim a outros da equipe de Bolsonaro que não desperdiçam uma única oportunidade de manter a boca fechada.

Em tempo: UDR é a sigla da União Democrática Ruralista. A omissão na menção anterior foi proposital.

https://politica.estadao.com.br/noticias/eleicoes,infeliz-e-ultrapassada-diz-greenpeace-sobre-declaracao-de-cotado-para-ministro-de-bolsonaro,70002552650

 

BANCADA RURALISTA PERDE LÍDERES POR TER SE DISTRAÍDO COM A ELEIÇÃO PRESIDENCIAL

O jornalista Mauro Zafalon escreve sobre o agronegócio no Valor Econômico, sempre louvando os bons feitos do setor e dando toques sobre problemas nos mercados lá fora. Ontem, sua coluna foi excepcionalmente interessante. Ele disse que os ruralistas puseram tanta atenção e esforço na campanha presidencial que acabaram esquecendo do Congresso. O resultado foi “o voto tsunami em alguns candidatos ligados ao capitão reformado Jair Bolsonaro (que) deixou várias lideranças do setor agropecuário sem cadeira no Congresso.” E lamentou a futura ausência dessas lideranças: Nilson Leitão, Adilton Sachetti, Carlos Fávaro, Victorio Galli (mesmo sendo do PSL), Luciano Vacari, Antônio Andrade, Carlos Melles, Silas Brasileiro, Valdir Colatto e Ricardo Ferraço. Zafalon diz que a bancada será reforçada pela entrada de novos membros, mas que “não tem como os novos eleitos ficarem ausentes das principais demandas dos seus estados, mas será um processo que vai demorar tempo para que haja essa interação. Faltou organização política no agronegócio, e o setor poderá ter até a mesma quantidade de deputados e senadores interessados na atividade no Congresso, mas com experiência menor.”

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/vaivem/2018/10/agro-olhou-para-eleicao-presidencial-e-esqueceu-representantes-do-setor.shtml

 

EMISSÕES DOS EUA CAEM E TRUMP ACHA QUE FOI ELE

A EPA (agência de proteção ambiental dos EUA) anunciou que as emissões das grandes indústrias norte-americanas (incluindo o setor de energia) caíram 2,7% no ano passado. Os números apresentados mostram que a queda se deve ao fechamento de várias térmicas a carvão. Com seu oportunismo habitual, Trump foi rapidamente à frente do palco dizer que ele faz a lição de casa, mesmo saindo de Paris. Igualmente rápida foi a reação pública, apontando que “isso é plágio e vandalismo político”. O fechamento das térmicas aconteceu pela combinação de regulamentos da era Obama e da queda no preço do gás de folhelho. As ações de Trump, desde sua campanha, tentaram salvar o carvão, e a redução de emissões é a medida de seu insucesso. Por coincidência, a revista Economist desta semana traz dois artigos sobre os EUA terem assumido liderança na produção de petróleo graças à imensa bacia do oeste do Texas. Um dos artigos, no entanto, lista os problemas que a indústria começa a enfrentar. A extração usa quantidades descomunais de água (65 milhões de litros por poço) numa das regiões mais secas do país. O processo provoca pequenos terremotos que, acumulados, começam a danificar propriedades. E, como os melhores poços já têm dono, a expansão da indústria se dá em poços cada vez mais caros. A revista, no entanto, não menciona a palavra clima uma única vez. A queima de todo este petróleo e gás certamente fará os EUA serem grandes de novo… em emissões.

https://www.bloomberg.com/news/articles/2018-10-17/trump-touts-lower-greenhouse-gas-levels-as-u-s-is-on-defensive

https://www.reuters.com/article/us-usa-emissions-carbon/u-s-greenhouse-emissions-fell-in-2017-as-coal-plants-shut-idUSKCN1MR2J4

https://www.economist.com/leaders/2018/10/18/americas-shale-industry-faces-constraints

https://www.economist.com/business/2018/10/20/the-shale-boom-has-made-america-the-worlds-top-oil-producer

 

A CRÍTICA AO MERCADO DE CARBONO DO PRÊMIO NOBEL DE ECONOMIA

William Nordhaus, um dos ganhadores do prêmio Nobel de economia deste ano, escreveu uma pesada crítica ao mercado de carbono, especificamente na sua forma mais conhecida – o cap and trade. Nele, governos definem um teto para as emissões e distribuem ou vendem para o setor industrial e de energia permissões para emitir. Quem precisar de mais permissões, vai ao mercado e compra de quem tem sobrando. Para funcionar, a bola de cristal dos governos tem que funcionar muito bem. O caso mais conhecido é o do mercado de carbono europeu. Enquanto a economia crescia, as permissões existentes seguravam as emissões e o preço do carbono funcionou bem. Quando veio a recessão de 2008-09, a economia esfriou e começaram a sobrar permissões no mercado. O preço da permissão foi a quase zero e, com isso, deixou de agir sobre as emissões. Quanto a alternativa de um imposto de carbono, Nordhaus também é crítico e diz, sucintamente, que o preço do carbono é independente da quantidade de emissões. Mas ele gosta do sistema adotado na Colúmbia Britânica canadense, onde parte da eletricidade é renovável e parte é fóssil. Eles subiram bastante a tarifa da eletricidade para todo mundo, por exemplo, em $100. Depois o governo devolve tudo, ou parte, dependendo de quanta energia limpa se compra. O governo ajusta tanto a tarifa quanto as devoluções de modo a atingir sua meta de redução. Para Nordhaus, outra vantagem é que o sistema “dá os sinais econômicos corretos e não é tão politicamente tóxico”.

https://www.nytimes.com/2018/10/13/climate/nordhaus-carbon-tax-interview.html

https://www.irishtimes.com/news/environment/budget-s-failure-to-increase-carbon-tax-is-shocking-1.3657392

 

O AUTOR DE “GAME OF THRONES” DIZ QUE O CLIMA DEVERIA SER A PRIORIDADE ZERO DE QUALQUER POLÍTICO

George R.R. Martin, autor do livro que originou o seriado “Game of Thrones”, nunca tinha falado tanto sobre a mudança do clima quanto numa entrevista que deu para o New York Times nesta semana. A trama se dá sob a ameaça de um inverno que pode destruir todo aquele mundo. Martin conta que “a mudança do clima é algo que pode acabar com a raça humana. Então, eu quis fazer uma analogia no trabalho, sem especificar a era moderna, mas como uma coisa geral.” Ele conta que achou irônico ter começado a série em 1991, “muito antes que essa conversa de mudança do clima tivesse começado”.

Talvez o recado importante tenha sido que “a mudança do clima deveria ser a prioridade zero de qualquer político”.

https://thinkprogress.org/george-r-r-martin-confirms-that-yes-game-of-thrones-is-a-climate-change-parable-8ca53041c8d3/

 

SÍTIOS ARQUEOLÓGICOS AMEAÇADOS PELA ELEVAÇÃO DO MAR

A elevação do nível do Mediterrâneo põe em risco um número grande de sítios considerados pela UNESCO como patrimônio da humanidade. As ameaças vêm na forma de marés e tempestades e, também, da crescente erosão das costas. O Carbon Brief montou um mapa com 49 desses sítios localizados a menos de 10 metros do nível do mar e simulou os efeitos da elevação do mar sobre estes sítios para os anos 2050 e 2100. O efeito é triste. Um desses sítios é a cidade de Pompéia, destruída pelo vulcão Vesúvio no ano 79 da era cristã. Na lista, também figuram Istambul, Dubrovnik, o kasbah de Algiers, a cidade medieval de Rhodes e o sítio arqueológico de Cartago. No total, 37 sítios correm o risco de sofrer uma enchente centenária e 42, erosão costeira. Até 2100, o risco de inundação aumenta 50% e o de erosão, 13%. Claro que se nada for feito para conter o aquecimento global.

https://www.nature.com/articles/s41467-018-06645-9

https://www.telegraph.co.uk/science/2018/10/16/pompeii-among-37-world-heritage-sites-risk-flooding-erosion/

https://www.carbonbrief.org/mapped-the-mediterranean-world-heritage-sites-at-risk-from-sea-level-rise

 

Para acompanhar online

QUAIS OS REAIS CUSTOS E BENEFÍCIOS DAS FONTES DE GERAÇÃO ELÉTRICA NO BRASIL?

O Instituto Escolhas apresenta uma análise detalhada do leque de fontes de geração elétrica, explicitando fatores como sazonalização, flexibilidade, confiabilidade, reserva e os subsídios e isenções que impactam nossa conta de energia. A análise foi feita pela consultoria PSR.

Hoje, das 8h30 às 12h, no Auditório da Folha de S. Paulo, Alameda Barão de Limeira, 425 – 9º andar, São Paulo.

Acompanhe online pelo link abaixo.

https://www.facebook.com/plugins/video.php?href=https%3A%2F%2Fwww.facebook.com%2Finstitutoescolhas%2Fvideos%2F319055902241434%2F&width=400

 

Para ir

WORKSHOP PROJETO CARNE BAIXO CARBONO

O Observatório ABC, a EMBRAPA e o Grupo RONCADOR realizarão um workshop para analisar o estoque de carbono no solo na integração Lavoura-Pecuária (ILP) e na intensificação de pastagens no âmbito do projeto Carne Baixo Carbono (CBC).

Dia 22 de outubro, das 14h às 17h, na Rua Itapeva, 432 – sala 803, São Paulo.

Inscrições e programação no link.

https://eesp.fgv.br/evento/o-observatorio-abc-convida-para-o-workshop

 

Para ler

QUAIS SÃO OS LUGARES MAIS PROPENSOS A GUERRAS POR ÁGUA?

Trabalho inovador sobre a avaliação de riscos “hidro-políticos” ao redor do mundo. Pesquisadores do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia (EU-JRC) bolaram um método para sobrepor num mesmo mapa o histórico de interações entre populações em situações de crises hídricas e dados de disponibilidade de água potável, stress climático, pressão sobre a água e outros recursos naturais. Essa configuração define a linha de base que foi comparada com 4 cenários climáticos e projeções de densidade populacional. O resultado identifica zonas de tensão acirradas por crises hídricas em 2050 e 2100. As zonas vermelhas estão nas bacias dos grandes rios do sul e sudeste da Ásia formados nos Himalaias e ao longo dos Tigre e Eufrates. A bacia do rio Colorado, nos EUA, faz parte da lista de zonas críticas, mas não de conflitos.

https://ec.europa.eu/jrc/en/news/global-hotspots-potential-water-disputes

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S095937801830253X?via%3Dihub

 

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