ClimaInfo, 29 de outubro de 2018

ClimaInfo mudanças climáticas

BOLSONARO VENCE

Jair Bolsonaro será o presidente a partir de 2019. A eleição de ontem mostrou que a população está dividida quanto ao projeto de país. Governar só para o grupo que o elegeu será um desastre para a democracia e a economia do país. Um desastre que só tende piorar na medida que ele tentar cumprir promessas de campanha. Delfim Netto, citado por Elio Gaspari, disse: “Hoje à noite começa a lua de mel do novo presidente com o poder. No dia 1o de janeiro ele tomará posse e no dia seguinte, uma quarta-feira, terá que abrir a quitanda às 9h da manhã com berinjelas para vender a preço razoável e troco na caixa para atender a freguesia. Pelos próximos quatro anos a rotina essencial será a mesma: abrir a quitanda, com berinjelas e troco. Todos os desastres da economia brasileira deram-se quando deixou-se de prestar atenção na economia da loja”. As limitações que enfrentará talvez estejam menos nas grandes retóricas e mais no comezinho do dia-a-dia de Brasília. Mesmo assim, a chamada para movimentos de resistência às ameaças a direitos da população e do meio ambiente está lançada.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/eliogaspari/2018/10/os-recuos-de-bolsonaro-foram-um-aviso.shtml

 

“ONDE HOUVER AMEAÇA, SEREMOS RESISTÊNCIA”, DIZEM AMBIENTALISTAS PARA BOLSONARO

O Observatório do Clima, grupo que reúne 40 organizações da sociedade civil, divulgou uma nota logo após a confirmação da vitória de Bolsonaro, dizendo que será resistência onde houver ameaça.

“Presidentes recém-eleitos em geral são saudados com uma saudável cobrança para que cumpram o que prometeram em campanha. Mas não no Brasil de 2018: após esta eleição incomum, o Observatório do Clima (OC) trabalhará para que o novo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, faça o oposto do que prometeu”, escreve a coalizão.

“O retrocesso civilizatório anunciado e reafirmado por Bolsonaro e vários de seus auxiliares não pode se tornar política de Estado. O presidente eleito deve ser guardião incansável das instituições democráticas e dos direitos humanos. Deve governar para todos os brasileiros. Não vamos, em nenhuma hipótese, normalizar a erosão dos valores da nossa democracia, da nossa cidadania e dos direitos da nossa geração e das futuras. Onde houver ameaça, nós seremos a resistência”, continua o grupo.

O OC destaca especificamente a área ambiental, que foi alvo de propostas consideradas danosas pelo setor, por ambientalistas e até mesmo por parte de ruralistas, como a de fusão do Ministério do Meio Ambiente ao da Agricultura, o enfraquecimento do Ibama, a não demarcação de terras indígenas ou criação de novas unidades de conservação. Além da saída do Acordo de Paris. Na reta final da campanha, ele chegou a dizer que não mais daria esses passos.

“O Brasil percorreu um longo caminho até a consolidação de um conjunto de instituições e políticas públicas que guardam um patrimônio natural único, base sobre a qual se assenta não apenas a qualidade de vida, mas o próprio desenvolvimento econômico do país. Não nos calaremos diante do desmonte dessas instituições e políticas”, declara a organização.

O grupo também disse que perseguirá de “forma incansável o cumprimento das metas do Brasil contra as mudanças climáticas”. E continua: “Dar as costas ao acordo do clima e a medidas de adaptação a extremos climáticos seria desastroso para o país: do ponto de vista geopolítico, comercial, de desenvolvimento e, sobretudo, da segurança dos cidadãos brasileiros, que o presidente eleito jurou priorizar.”

A nota do Observatório do Clima termina com uma promessa de resistência “a qualquer investida contra os povos e comunidades tradicionais, protegidos pela Constituição, bem como a qualquer violência contra ativistas ambientais”.

Os ambientalistas lembram que o Brasil é o país que mais mata defensores do meio ambiente no mundo. Foram 57 apenas no ano passado. “O clima instaurado na campanha eleitoral, com atentados a agentes do Ibama e ao ICMBio, apenas aumentou o perigo. É tarefa do presidente eleito desarmar essa bomba.”

https://sustentabilidade.estadao.com.br/blogs/ambiente-se/onde-houver-ameaca-seremos-resistencia-dizem-ambientalistas-para-bolsonaro/

http://www.observatoriodoclima.eco.br/onde-houver-ameaca-seremos-resistencia/

 

ROTA 2030 AVANÇA PELO CONGRESSO CHEIO DOS MAIS ESTRANHOS JABUTIS

A medida provisória do programa Rota 2030 passou por mais uma comissão na Câmara. O programa prevê a troca de renúncias fiscais pela promessa de aumento da eficiência dos carros fabricados aqui. Durante todo o ano passado e parte deste ano, o ministério da fazenda, cioso do déficit fiscal, não queria abrir o cofre do Tesouro Nacional e houve um embate com as montadoras e o ministério da indústria. No meio do 1º semestre, chegaram a um acordo e Temer editou a MP. Ao passar pelas comissões da câmara, os deputados foram pendurando jabutis, aumentando vários benefícios para muito além do que havia sido acordado com a Fazenda. Curioso foi um jabuti que estendeu benefícios adicionais para fábricas no Nordeste que teve o “mérito” de colocar a Fiat contra a Ford. A Ford fabrica uma linha grande e cara na Bahia e no Ceará e ganharia um desconto maior do que a Fiat que fabrica um volume bem menor de uma única linha especial em Pernambuco. As duas ameaçaram fechar as respectivas fábricas no Nordeste se não forem atendidas. Não há, na história recente, montadoras fechando grandes operações onde quer que seja.

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/10/comissao-do-congresso-aprova-rota-2030-e-inclui-emendas-que-impactam-orcamento.shtml

https://www.valor.com.br/empresas/5944873/para-ford-rota-2030-e-mais-urgente-que-incentivo

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,comissao-mista-adia-para-esta-quarta-votacao-de-parecer-sobre-rota-2030,70002559969

 

BISPOS CATÓLICOS DIZEM QUE LUTAR CONTRA O AQUECIMENTO É OBRIGAÇÃO MORAL

O sínodo dos bispos católicos declarou que leu o Relatório 1,5oC do IPCC e que entende que os governos têm a obrigação moral de se esforçar o máximo e urgentemente para evitar o aquecimento global. Os bispos de Gênova, Mumbai, Bogotá, Suva, Luxemburgo e Lubando disseram que o mundo precisa “repensar” a agricultura e passar por uma “mudança de paradigma financeiro”. Acrescentando que “precisamos resistir à tentação de procurar por soluções tecnológicas de curto prazo sem agir sobre as causas mais profundas e as consequências no longo prazo… e reconhecer os esforços de organizações católicas em buscar a justiça climática, energética e o acesso à alimentação”. E Jean-Claude Hollerich, arcebispo de Luxemburgo, disse: “Nós não colocaremos mais dinheiro nesta poderosa indústria (de combustíveis fósseis). Espero que outros nos sigam”.

https://www.cidse.org/newsroom/church-worldwide-calls-for-ambitious-and-urgent-climate-action.html

https://www.euractiv.com/section/climate-environment/news/catholic-bishops-call-for-faith-in-1-5c-paris-target/

https://www.thetablet.co.uk/news/10927/bishops-tell-governments-they-have-moral-duty-to-pursue-warming-target#.W9L96psutuM.twitter

 

ESPANHA ESTÁ PERTO DO FECHAMENTO DE MINAS DE CARVÃO

Na Espanha, o ano novo deve começar com quase todas as minas de carvão fechadas. O governo negociou com vários sindicatos de mineiros e fechou um acordo pelo qual investirá €250 milhões nas regiões das minas. Esses recursos serão aplicados em esquemas de adiantamento de aposentadorias, em planos de restauração ecológica das minas e em treinamento e requalificação de mão de obra para indústrias verdes no estado da arte. Teresa Ribera, Ministra da Transição Ecológica, comentou que “com este acordo, resolvemos a primeira e mais urgente tarefa que encontramos quando assumimos o governo. Nosso objetivo é não deixar ninguém para trás. E queremos ir adiante, queremos inovar. É por isso que elaboramos esses contratos chamados ‘Transição Justa’, com o objetivo de ajudar as regiões a consolidar o emprego do futuro”, pois, até o final do ano, 10 minas serão fechadas, mais de mil mineiros e gente do setor perderão seus empregos. Ribera acrescenta: “a Espanha pode exportar esse acordo como um exemplo de boa prática. Mostramos que é possível seguir o Acordo de Paris sem prejuízos (à vida das pessoas). Não precisamos escolher entre emprego e proteção ambiental. É possível ter ambos.”

Uma boa ideia para ser viabilizada por aqui.

https://www.theguardian.com/environment/2018/oct/26/spain-to-close-most-coal-mines-after-striking-250m-deal

 

O ENORME DESMATAMENTO NO GRAN CHACO NO NORTE DA ARGENTINA

Nos últimos 20 anos, a região de Salta, no Gran Chaco argentino, perdeu 20% da sua vegetação nativa, uma área de mais de 12.000 km2. O Gran Chaco todo, cobre uma área 1,28 milhões km2 do norte da Argentina, oeste do Paraguai, da Bolívia e um trecho no nordeste do Chile, e só é menor em tamanho e biodiversidade do que a Amazônia. A área desmatada virou plantação de soja. Desde 1996, a Argentina converteu 25% das suas florestas nativas em soja. O grande mercado da soja argentina foi e continua sendo a Europa. Nos últimos doze meses, metade da soja consumida por lá veio da Argentina. Uma frase da matéria do Guardian resume bem: “as florestas argentinas estão sendo servidas nos cochos dos animais europeus e nos pratos do jantar”. A matéria ainda aponta que não existem movimentos que associam a soja e a carne argentinas ao desmatamento, a exemplo das moratórias da soja e da carne daqui.

https://www.theguardian.com/environment/2018/oct/26/soy-destruction-deforestation-in-argentina-leads-straight-to-our-dinner-plates

 

MUDANÇA DO CLIMA AMEAÇA CRIAR CRISE AGUDA DE ÁGUA NOS PRINCIPAIS RIOS DO OESTE DA ÁFRICA

Apesar da falta de registros históricos, pesquisadores modelaram a hidrologia das cinco grandes bacias do Sahel, no oeste subsaariano da África – Senegal, Gâmbia, Volta, Níger e Chade – usando um modelo climático mais ameno e outro mais rigoroso. Os resultados são bem ruins. A disponibilidade de água cai entre 10% e 45% até 2050. O impacto será maior ao longo do rio Níger, na Gâmbia e no Senegal, onde a situação será agravada pelo aumento populacional. Em algumas regiões, por exemplo na bacia do Volta, os modelos indicam que a precipitação deve exceder a evapotranspiração durante a estação das monções, abrindo espaço para ações de adaptação.

https://link.springer.com/article/10.1007/s10584-018-2308-x

https://www.economist.com/middle-east-and-africa/2018/10/27/famines-are-becoming-more-frequent-in-the-sahel

 

BOA NOTÍCIA PARA QUEM LÊ ARTIGOS CIENTÍFICOS

Para quem precisa ou gosta de acompanhar a literatura científica em geral, a partir de 2020, toda a produção científica financiada por agências de fomento europeias terá que ser publicada em revistas de acesso aberto. O ClimaInfo costuma passar links de revistas fechadas e caras como a Nature e a Science, mas sempre achou que o conhecimento científico deveria ser de domínio público. Especialmente os temas que impactam diretamente a sociedade humana, como a mudança do clima – seja para pensar a mitigação, seja para promover a adaptação.

https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2018/10/ciencia-europeia-tera-de-ser-publicada-em-revistas-de-acesso-livre-em-2020.shtml

 

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