ClimaInfo, 8 de novembro de 2018

ClimaInfo mudanças climáticas

TEREZA CRISTINA ASSUMIRÁ O MINISTÉRIO DA AGRICULTURA

A deputada Tereza Cristina, presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária, aka bancada ruralista, foi anunciada como a futura ministra da agricultura pela equipe de transição. Assim, Bolsonaro deixa Nabhan Garcia e sua ala pecuarista em segundo plano. Garcia, aliás, atacou o futuro chefe da casa civil, Lorenzoni, dizendo que ele é “alguém que está simplesmente avançando em terreno alheio e nem tampouco de sua competência e compromisso com nossa classe produtora rural”. Pelo jeito, o pessoal da soja ganhou do pessoal do boi.

Em função da atuação da deputada no congresso, a indicação não é bom sinal, nem para a ala mais moderna do agro, nem para o meio ambiente. Pela defesa que fez da liberação de agrotóxicos, Tereza Cristina ganhou o apelido de “musa do veneno” em certos círculos.

Na Piauí, Consuelo Dieguez descreve as alas do agronegócio e as disputas pela atenção do futuro presidente.

https://g1.globo.com/politica/noticia/2018/11/07/tereza-cristina-assumira-ministerio-da-agricultura-no-governo-bolsonaro-informa-gabinete-de-transicao.ghtml

https://piaui.folha.uol.com.br/rede-de-intrigas-agrotoxicas

 

PARAR DE DESMATAR É IMPRESCINDÍVEL PARA NÃO PERDERMOS A AMAZÔNIA

A Amazônia brasileira já perdeu 20% da sua floresta. Há menos de 10 anos, a perda era estimada em 17%. Também há cerca de 10 anos, cientistas achavam que a situação passaria a ser irreversível se esta perda chegasse a 40%. Hoje, com mais dados sobre os ciclos hidrológicos das sub-regiões do bioma, este limite baixou para 25%. As secas nos sul e sudeste da Amazônia já são sinais de que o ponto crítico está logo ali na esquina. “Para ficarmos no lado seguro, políticas de desenvolvimento para a Amazônia deveriam rapidamente nos levar a taxas de desmatamento líquido zero. Na verdade, há inúmeras áreas degradadas que podem ser utilizadas para a restauração florestal. O Brasil, nos seus compromissos com o Acordo de Paris pelas mudanças climáticas, se comprometeu a restaurar 12 milhões de hectares de florestas e outros ecossistemas naturais até 2030. A Amazônia é candidata a ter uma grande área de floresta restaurada, digamos de 5 a 6 mil km², o que já seria uma excelente sinalização na direção de redução do risco de ultrapassagem de um ponto de inflexão nas próximas décadas”, defende Carlos Nobre, climatólogo do INPE.

Essa também foi a tese defendida por Paulo Artaxo, da USP, num evento sobre o Relatório do IPCC. O Relatório preconiza uma redução drástica das emissões e “isso vale tanto para não queimar combustíveis fósseis (…) quanto para reduzir o desmatamento da região amazônica. Esta tarefa é extremamente urgente porque não temos muito tempo para reduzir estas emissões antes de ocorrer uma catástrofe climática global”, ressaltou o físico.

Na linha contrária, Evaristo Miranda, mais uma vez, puxa sua fileira de números duvidosos em artigo publicado no Estadão para dizer que o Código Florestal brasileiro é o mais rigoroso do mundo e que, para não cortar o que seria legalmente permitido, o mundo todo deveria pagar para que os proprietários preservem a floresta. Como o mundo não tem certeza da preservação florestal, dificilmente pagará, o que faz do argumento de Evaristo uma faca sobre o pescoço da floresta. O problema da eventual continuidade do corte raso da floresta é claramente enunciado no aviso dado por Fábio Pacheco, da Articulação Nacional de Agroecologia na Amazônia: “O agronegócio deveria estar muito mais preocupado com a preservação da floresta do que nós, porque o próprio clima é regulado por essa frágil relação entre vegetação e manutenção do clima. Se passamos do patamar de 20% [de perda da floresta], teremos toda uma reversão climática de alteração de regime de chuvas, aumento de temperatura, e será terrível até para o negócio deles”.

“Aquele que tem ouvidos para ouvir, que ouça!”, Mateus 11:15.
https://www.brasildefato.com.br/2018/11/06/amazonia-esta-proxima-de-atingir-nivel-irreversivel-de-desmatamento
https://nacoesunidas.org/especialista-defende-desmatamento-zero-na-amazonia-para-combater-mudancas-climaticas

https://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,o-presidente-e-a-amazonia,70002590843

 

“BOLSONARO QUER ENTREGAR A AMAZÔNIA”

Para a jornalista Eliane Brum, “no governo Temer, o agrobanditismo está no poder”, enquanto “no governo Bolsonaro, eles serão o poder”. A jornalista decifra uma série de declarações dadas durante a campanha de Bolsonaro para afirmar que é na Amazônia que se dará a disputa do governo: “tudo indica que a principal meta do governo de Bolsonaro (…) é transformar a floresta amazônica em mercadoria”. E ela segue: “este é o trabalho prioritário de Bolsonaro para uma parcela poderosa dos articuladores de sua candidatura. Por uma razão bastante objetiva: é na Amazônia que está o estoque de terras supostamente ainda disponíveis no Brasil, para o avanço da pecuária e da soja, e é também na floresta que estão as grandes jazidas minerais”.

Eliane diz que “eleger Bolsonaro foi a pior ação para o Brasil e para o planeta. Mas está feito. A pergunta agora é: o que faremos para resistir ao que está por vir e proteger a floresta e com ela a nossa vida?”

Como muitos dos artigos de Eliane Brum, este é de leitura imprescindível para a compreensão do momento e para a projeção das necessárias ações futuras.

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/11/07/politica/1541597534_734796.html

 

O ROTA 2030 É AMEAÇADO NO CONGRESSO PELA EQUIPE DE TRANSIÇÃO E POR LOBBIES

Com a missão primeira de acertar as contas da economia, a equipe de transição deixou transparecer que o Rota 2030 não é bem visto. O programa prevê isenções de bilhões de reais para a indústria automotiva produzir carros mais eficientes. Nesse momento, a medida provisória do Rota 2030 precisa passar pelo congresso e virar lei até a semana que vem, caso contrário, tudo recomeçará. Só que alguns deputados acrescentaram dispositivos que beneficiam as montadoras com fábricas no Nordeste. As que não as têm estão bloqueando o andamento por enxergar concorrência desleal.

Colocando um pouco mais de gasolina nessa fogueira, talvez o próximo governo se safe de pagar por esse abacaxi.

https://www.valor.com.br/brasil/5971803/equipe-de-bolsonaro-desaprova-rota-2030

 

ALEMANHA CONSEGUE REDUZIR SIGNIFICATIVAMENTE AS EMISSÕES

A combinação do forte verão alemão com mais geração renovável fará com que as emissões do país tenham a maior queda desde o começo da recessão de 2009. Nos últimos 4 anos, as emissões ficaram estáveis, mas, de janeiro a setembro, já caíram 7%. Analistas apontam que isto não pode ser considerado uma tendência porque o calor do verão reduziu a demanda por eletricidade e, portanto, a geração fóssil. Mesmo assim, apesar do aumento da demanda devido ao crescimento da economia e ao aumento da população, mais eficiência energética, tarifas elétricas mais caras e o calor do verão fizeram a demanda resultante cair. Nos primeiros nove meses deste ano, o consumo de óleo e gás caiu cerca de 7%, e o de carvão caiu quase 13%. Por outro lado, a geração nuclear aumentou quase 5%, a eólica cresceu 13% e a fotovoltaica 14%. A geração a biomassa ficou constante, enquanto a das hidrelétricas caiu 10%. Mesmo assim, o principal emissor de  CO2 continua sendo a geração térmica a carvão.

https://www.cleanenergywire.org/news/german-co2-emissions-set-fall-strongly-2018

 

CHINA ESTUDA CAPTURA E ARMAZENAMENTO DE CARBONO

O Relatório 1,5oC do IPCC mostra que dificilmente o aquecimento global será limitado na meta mais ambiciosa do Acordo de Paris sem a contribuição de ações de remoção de CO2 da atmosfera. Estas ações são agrupadas em quatro grandes categorias: reflorestamento, restauração florestal, restauração do carbono nos solos – todos estes processos naturais – e captura e armazenamento de carbono (CCS). Pesquisadores chineses modelaram estas opções e observaram que há pouca possibilidade de sucesso se captura e armazenagem não forem desenvolvidas. Os chineses acrescentaram mais uma letra à sigla CCS, para representar a utilização do carbono capturado: captura, utilização e armazenamento de carbono (CCUS, em inglês). O aproveitamento do CO2 em processos que o fixem ou o transformem reduz a necessidade de complexos e caros esquemas de armazenamento. O uso mais imediato é a injeção do gás em poços de petróleo, para aumentar a extração. O problema deste uso é que os produtos finais – petróleo e gás natural – deveriam ficar enterrados para não piorarem a situação. No final da contas, “não será possível chegar a um futuro neutro em carbono sem uma mudança enorme nos nossos estilos de vida”, diz Hu Min, da ONG chinesa Innovative Green Development Program (iGDP).

https://www.chinadialogue.net/article/show/single/en/10879-Costs-risks-and-benefits-can-carbon-sequestration-take-off-

 

PARA REDUZIR AS EMISSÕES DA SIDERURGIA

A maior parte da produção de aço no mundo é feita em altos-fornos à base de carvão mineral. Uma pequena parte do carbono, menos de 2%, se junta ao minério de ferro e vira aço. Os outros 98% são queimados para a produção do calor do alto-forno e saem pelas chaminés em forma de CO2. Estas emissões fazem da siderurgia uma das indústrias mais poluentes do mundo, do ponto de vista climático. Um outro processo usa sucata (ferro e carbono já na proporção correta) e fornos a arco elétrico para obter aço puro novamente. No mês passado, na reunião anual da Associação Mundial do Aço, vários fabricantes divulgaram planos e projetos para a redução de suas emissões. A indiana Tata disse que cortará 50% das emissões nas suas operações europeias. A sul-coreana Posco está desenvolvendo sistemas de inteligência artificial para reduzir as suas. Os chineses planejam aumentar a produção a partir de sucata em fornos a arco elétrico; hoje, 90% do aço chinês é produzido em altos-fornos poluentes e o plano é fazê-los produzir menos de 60%. Um dos grandes produtores de aço, o Japão, enfrenta uma dificuldade particular: boa parte da eletricidade do país vem de fontes fósseis, o que faz os fornos a arco serem bem menos vantajosos. Os grandes fabricantes estão desenvolvendo fornos que queimam hidrogênio no lugar do carvão. Os planos são para reduzir 30% das emissões do aço até 2030.

No Brasil, onde a eletricidade é relativamente limpa, o obstáculo para um uso maior de fornos a arco é a sucata, ou melhor, a falta dela. Duas grandes fontes de sucata são veículos motorizados e eletrodomésticos grandes, como geladeiras. Pela extensão do território, muitos carros são simplesmente abandonados e não são viáveis sua coleta e transporte até a siderúrgica mais próxima. Em 2016, a siderurgia foi responsável por 2,4% das emissões nacionais, a maior emissão entre as indústrias.

https://asia.nikkei.com/Business/Business-Trends/Japanese-steelmakers-feel-the-heat-as-world-shuns-coal

 

A BIODIVERSIDADE PRECISA SER PROTEGIDA DOS EFEITOS DAS GUERRAS

Na 3a feira, 6 de novembro, comemorou-se o Dia Internacional para a Prevenção da Exploração do Meio Ambiente na Guerra e no Conflito Armado. Criada em 2001, a data serve para lembrar que o meio ambiente muitas vezes também é uma das vítimas das guerras. E aponta que a destruição de ecossistemas, além do mal em si, traz pesadas consequências para a recuperação da economia e das populações após os conflitos. A matéria da ONU Meio Ambiente lista uma série de casos dolorosos da destruição ambiental gerados por conflitos nos últimos 60 anos.

https://nacoesunidas.org/onu-meio-ambiente-biodiversidade-deve-ser-protegida-dos-efeitos-da-guerra-e-do-conflito-armado

 

PARA VIVER COM AS MUDANÇAS DO CLIMA E OS EVENTOS EXTREMOS

Patrick V. Verkooijen, do Centro Global de Adaptação, fez um apanhado interessante dos desafios que a humanidade enfrentará até mesmo nos cenários climáticos mais otimistas. Para ele, fazem parte do novo normal climático os efeitos da onda de calor no verão deste ano no hemisfério norte, dos dois furacões que alagaram o sudeste dos EUA e das tempestades e os deslizamentos no Japão. Para enfrentar o calor crescente, Verkooijen dá como exemplos Melbourne, Austrália, e Ahmedabad, Índia. Melbourne planeja dobrar a cobertura de árvores até 2040 para refrescar a cidade, e Ahmedabad planeja pintar os telhados com tinta reflexiva para reduzir a temperatura das ilhas de calor da cidade. No entanto, Verkooijen avisa que o problema existe numa escala muito maior: “Não há nenhuma organização ou órgão internacional único que tenha todas as respostas para essa enxurrada de desafios(…) Nos próximos 15 anos, o mundo terá de investir cerca de US$ 90 trilhões em melhorias de infraestrutura. A maneira pela qual esses projetos avançarão e o fato deles serem ou não criados com recursos de baixo carbono poderão conduzir o mundo rumo a um futuro mais resistente aos efeitos climáticos, ou poderão arruinar os alimentos, a água e a segurança nas próximas várias décadas.”

https://www.valor.com.br/opiniao/5971845/viver-com-mudancas-climaticas

https://www.project-syndicate.org/commentary/adaptation-to-climate-change-extreme-weather-by-patrick-v-verkooijen-2018-11

 

NÃO DÁ PARA ESTABILIZAR O CLIMA MANTENDO A DESIGUALDADE SOCIAL

A Escócia está para aprovar a Lei de Mudanças Climáticas e terá que lidar com as receitas que obtém da exploração de petróleo e gás no Mar do Norte. Um relatório produzido pelo Tyndall Center e pela Universidade de Upsala coloca mais pimenta na discussão. Um dos autores, Kevin Anderson, do Tyndall, põe o dedo numa dolorosa ferida: “Nós não vamos resolver a mudança do clima em nível global, ou mesmo em um país como a Escócia, sem enfrentarmos o problema da desigualdade. Principalmente porque demoramos tanto para agir que os mais pobres não têm emissões que possam reduzir”. Ele está dizendo que os 10% da população global que mais emitem respondem por 50% das emissões globais. Se eles fossem forçados a reduzir suas emissões para o nível do europeu médio e os 90% da população mundial não fizessem nada, as emissões globais já cairiam em ⅓.

https://www.heraldscotland.com/news/17199919.end-oil-and-gas-and-hit-the-worst-emitters-hard-how-scotland-could-fight-climate-change

 

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