ClimaInfo, 4 de dezembro de 2018

ClimaInfo mudanças climáticas

As declarações feitas na COP24

A COP24 começou no domingo e várias personalidades falaram sobre suas expectativas e visões sobre a Conferência.

Laurence Tubiana, uma das principais arquitetas do Acordo de Paris, disse em entrevista para o El País que está ficando difícil ser otimista, pensando nos EUA contra, no que farão os brasileiros e com dúvidas sobre o México. “É vital que a Europa resista agora na luta contra a mudança do clima. A importância política da Europa é maior até do que quando da assinatura do Acordo de Paris, pois, então, havia um equilíbrio maior com os EUA ainda na briga”.

Um dos mais destacados climatólogos americanos, Michael Mann, escreveu no Politico que, apesar da mudança do clima estar batendo à porta, o recado parece ainda não ter chegado à maioria da população. Mann sugere que, ao invés de alardear as catástrofes que virão, os políticos e formadores de opinião deveriam focar nos benefícios e oportunidades trazidos por um mundo de baixo carbono.

A jornalista Daniela Chiaretti conversou com diplomatas e negociadores e faz um apanhado das dificuldades: uma China que não assumiu a posição de liderança após Trump ter anunciado que os EUA se retiravam do Acordo; a chanceler alemã Angela Merkel, agora em seus últimos dias à frente do governo; e o presidente francês, Emmanuel Macron, enfrentando dificuldades sérias em casa por conta do movimento dos “coletes amarelos”. Um dos diplomatas entrevistados resumiu o drama: “A conferência ocorre em um momento complicado. Tem o efeito Trump, o Brexit, o hipernacionalismo de alguns países, o Brasil não querendo hospedar a COP25, a Alemanha sem cumprir suas metas. Tem quem pense: se os grandões estão fazendo isso, eu também vou me desinteressar. É o multilateralismo que está em jogo. Tem que ser fortalecido.”

Já o presidente do país anfitrião, Andrzej Duda, cometeu a primeira pérola da Conferência: “Não existem planos para descontinuar o carvão na Polônia. O carvão é nosso recurso estratégico e temos depósitos de carvão para 200 anos. Seria muito estranho desistir completamente dele”.

 

Banco Mundial alocará US$ 200 bilhões para o clima nos próximos 5 anos

Logo na abertura dos trabalhos da COP24, o Banco Mundial anunciou que disponibilizará financiamentos climáticos da ordem de US$ 200 bilhões nos próximos 5 anos para o enfrentamento da mudança do clima. O foco principal será o aumento do apoio a programas de   adaptação. A diretora geral do Banco, Kristalina Georgieva, explicou que as “pessoas estão perdendo suas vidas e seus meios de sobrevivência por causa dos efeitos desastrosos da mudança do clima. Devemos combater as causas, mas também nos adaptar às consequências que são, frequentemente, muito mais dramáticas para as pessoas mais pobres”.

Os eixos-chave desses esforços incluem:

– Energia: apoiar a geração e a integração, habilitar a infraestrutura para 36 GW de energia renovável e apoiar a economia de 1,5 TWh (terawatts-hora, ou bilhões de kWh) por meio do aumento da eficiência energética.

– Cidades: apoiar as 100 cidades para o desenvolvimento de um planejamento urbano resiliente e de baixo carbono, e um trânsito orientado ao desenvolvimento.

– Alimentos e Uso da Terra: aumentar o gerenciamento integrado de paisagens em até 50 países, cobrindo 120 milhões de hectares de florestas.

O Globo comentou a iniciativa do Banco.

 

O lema do governo parece ser “esquartejar para governar”

A equipe de transição parece estar empenhada em analisar o funcionamento de cada ministério e cada autarquia do poder federal para mudar várias funções de lugar além de esvaziar os Conselhos Federais. O tema foi matéria do jornal inglês Independent e d’O Globo neste final de semana. Uma das preocupações é, naturalmente, com o meio ambiente. As ameaças citadas vão da abertura de muitas estradas através da Amazônia e a repetida promessa de “acabar com a indústria da multa”. Ontem, foi notícia a vontade da equipe de transição de juntar o Ibama e o ICMBio porque haveria muita superposição de funções. E, nesse clima de bala perdida e balão de ensaio, o futuro chefe da casa civil, Ônix Lorenzoni, disse que eles estão pensando em colocar a Funai sob o ministério da agricultura. Ele não explicou o raciocínio.

Marcelo Leite aproveitou sua coluna para explicar a origem e a história do Triplo A e, como muitos outros, afirmar que ele não tem nem nunca teve nada a ver com Acordo de Paris e a Convenção do Clima.

De rumor em rumor, o futuro governo mantém sua presença nas primeiras páginas da mídia e nos pesadelos de quem vê o país com outros olhos.

 

Bolsonaro diz que acredita no aquecimento global

Que fique registrada a declaração do futuro presidente dada neste final de semana: “Eu acredito na ciência e ponto final.” Em seguida disse que a Europa não tem moral para dar palpite no desmatamento daqui porque destruiu suas florestas. O que a Europa e o resto do mundo explicam é que desmatar a Amazônia e o Cerrado aumenta a concentração de gases de efeito estufa, aumentando o aquecimento global supracitado. Como os impactos são globais e a humanidade toda sofrerá com a mudança do clima, a Europa e o resto do mundo se veem no direito de “dar palpite aqui”.

 

A bancada do boi não é o agronegócio e não é a base parlamentar de Bolsonaro

Em sua coluna na Folha, Elio Gaspari escreveu sobre a diferença entre o agronegócio moderno, gerador de valor e divisas, e os parlamentares ligados à Frente Parlamentar da Agropecuária, a.k.a, bancada ruralista ou bancada do boi. “Nessa bancada há trogloditas que querem queimar matas, calotear dívidas e invadir terras alheias. Defendendo-os, Jair Bolsonaro chega mesmo a acreditar que os quilombolas são um problema nacional.” E, como declarou neste final de semana, índios em reservas são como animais em zoológicos. Gaspari termina com uma cacofonia: “O agronegócio carrega entre 20% e 25% da economia nacional porque é moderno. A contaminação paleolítica obriga-o a ser ouvido como um Yo-Yo Ma tocando num violoncelo rachado. Carne? Joesley Batista. Meio ambiente? Jair Bolsonaro e seus conselheiros do agronegócio durante a campanha eleitoral.”

O Valor entrevistou o deputado Alceu Moreira, que presidirá a bancada ruralista no ano que vem. O tema central era o alinhamento da bancada com o programa de Bolsonaro. Moreira repetiu várias vezes que não haverá alinhamento automático da bancada e que esta existe para tratar de temas ligados ao agro. “Só do agro. A frente não discutirá outros assuntos da Câmara (…) A frente só discute a produção de alimentos, não é nem o agro”. Em relação aos demais temas de governo, “eu diria que os deputados que compõem a frente poderão reunir-se para tratar de outros assuntos, trânsito, segurança pública, outras coisas, porque os deputados da frente não representam só o agro. Mas a representação aqui na Câmara não será em nome da Frente Parlamentar da Agricultura. A frente só dará opinião sobre o agro”. Segundo observadores da cena política, Bolsonaro pensou em criar uma base de apoio a partir de bancadas temáticas, como a do boi. A posição de Moreira ilustra a dificuldade dessa amarração.

Em tempo: Moreira, como vários parlamentares do boi, não tem, nem nunca teve propriedade rural para chamar de sua.

 

Os altos, baixos e as colisões do petróleo

A Petrobrás fez dois anúncios de sentidos opostos. Em outubro, a bacia de Santos produziu, em média, 1,3 milhão de barris por dia, um novo recorde que vem provando o potencial do pré-sal. A produção total do país subiu 5,2% em relação ao ano passado. Em compensação, o preço do barril despencou do patamar de US$ 80 em setembro para menos de US$ 60 no mês passado. Foi o maior tombo nestes preços desde outubro de 2008, quando estourou a crise financeira nos EUA que levou à quebra de vários bancos globais.

Outra nota negativa apareceu na Folha de ontem. Está virando prática comum a transferência de petróleo de um navio a outro, ao largo da costa brasileira. Embora regulamentadas, estão ocorrendo bem mais operações do que constam nos registros da Marinha. Simplesmente, não há equipes e equipamentos que permitam fiscalizar todas elas. No ano passado, houve uma colisão entre dois navios e um deles teve um prejuízo de mais de US$ 1 milhão. A ANP e a Marinha do Brasil disseram que nunca foram informados. As empresas envolvidas, incluindo a Shell, disseram que houve uma “abalroamento leve”, e que tudo está em conformidade com todas as leis e outra disse que não havia necessidade de nenhum relatório oficial para as autoridades porque não havia impacto ambiental e os danos eram pequenos. Parece que esse pessoal só leva a sério acidentes nos quais satélites detectam manchas de óleo se espalhando em mar aberto.

 

A COP25 pode acontecer na América Latina e Caribe

Já que o Brasil não mais hospedará a COP25 e, pelas regras, a vez é do Grupo da América Latina e Caribe (Grulac), a Costa Rica, a Guatemala e o Chile se ofereceram. E ,em seguida, Honduras também. Os dois primeiros e Honduras formalizaram sua candidatura desde que recebam ajuda para custear a Conferência. Situações como esta já aconteceram antes e os recursos para sua realização nunca foram um impeditivo. Carlos Alvarado, presidente da Costa Rica postou sua oferta em sua página no Twitter, junto com o que se considera o maior feito do país: o de ter abolido as Forças Armadas em 1948. Agora é com o Grulac decidir onde será a COP25.

 

Tecnologia apropriada em benefícios das populações africanas

O Valor Econômico de ontem trouxe três artigos sobre tecnologias novas que estão melhorando significativamente a vida das populações mais pobres na África. A eletricidade fotovoltaica está se espalhando nas pequenas vilas distantes das redes elétricas. Um dos usos interessantes é ligar um painel solar a uma bomba d’água para irrigar as hortas. E, se a tecnologia é conhecida de há muito, a novidade são os modelos de negócio que vêm sendo oferecidos. Para alavancar os negócios, as empresas buscaram doações e recursos de programas de assistência. Com o volume de negócios adquirido, agora conseguem vender e instalar os equipamentos oferecendo condições adequadas à situação no interior do Quênia. Outras empresas estão vendendo e instalando painéis fotovoltaicos fora das grandes redes e cobrando na medida do uso do sistema, num esquema que recebeu o nome de pay-as-you-go (payg).

Em outra parte das habitações ficam os antigos fogões ou fogareiros que enchiam os ambientes de fumaça e são causa de milhões de mortes prematuras. Há mais de dez anos, aconteceram várias campanhas para trocá-los por modelos ainda simples, mas que vinham com uma chaminé que lançava a fumaça para fora da habitação e com um desenho mais eficiente. Mas esses ainda usam lenha catada, o que exige tempo, trabalho e, às vezes, provoca desmatamento. Em alguns lugares, no lugar da lenha, aparece o álcool gel e um fogão apropriado. Segundo o fabricante, o gel é produzido a partir de aguapé, serragem, grama, alimentos e resíduos agrícolas e, assim, é 100% renovável. Interessante é o sistema de distribuição do gel, empregando mulheres das vilas. Hoje são 28 centros de distribuição que abriram mais de mil empregos diretos e cerca de 45 mil empregos indiretos”.

 

Painéis fotovoltaicos disparam na Austrália

As tarifas elétricas na Austrália não subiram tanto quanto as nossas, mas o suficiente para disparar o mercado de painéis residenciais. Já são mais de 2 milhões de residências equipadas e estão sendo instaladas 6 novas a cada minuto.

 

Para assistir

Retorno econômico e riscos socioambientais de projetos rodoviários na Amazônia

A Conservação Estratégica (CSF-Brasil) fará uma apresentação virtual dos resultados finais do estudo feito em parceria com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) e a Fundación para la Conservación y el Desarrollo Sostenible (FCDS). O objetivo do estudo é estabelecer, de forma sistemática e simultânea, o nível de risco econômico, ambiental, social e cultural de cada um dos projetos, visando construir um ranking que os classifique de acordo com seu nível de risco; desde aqueles com altos retornos econômicos esperados e baixo risco de impactos (ambientais, sociais e culturais), até aqueles com retornos econômicos baixos ou negativos e grandes riscos de impacto.

Dia 14 de dezembro, das 15hs às 16h30 (horário de Brasília)

Inscreva-se mandando um e-mail.

 

Para ver

Visão de futuro para as florestas e a agricultura

A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura divulga sua visão de futuro. “Sonhar com um mundo mais justo e sustentável. Sonhar com um futuro no qual o Brasil possa garantir à humanidade alimento, água e um clima propício à vida humana, com bem-estar para todos.”

Veja o vídeo e leia a publicação.

 

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