ClimaInfo, 10 de dezembro de 2018

ClimaInfo mudanças climáticas

Novo no ClimaInfo

Mulheres são sobrecarregadas pela mudança do clima

O website do ClimaInfo resume uma importante entrevista com a Dra. Cecilia Sorensen, da Universidade do Colorado. A principal mensagem: a luta pela estabilização do clima será incompleta sem uma perspectiva baseada em gênero.

 

Ricardo Salles é indicado por Bolsonaro para o meio ambiente

Bolsonaro indicou, neste domingo, pelo Twitter, o advogado Ricardo Salles para o Ministério do Meio Ambiente. A indicação deve muito aos setores mais retrógrados do agronegócio e, também, à Fiesp. Salles foi secretário do meio ambiente do estado de São Paulo, entre 2016 e 2017, e diretor jurídico da Sociedade Rural Brasileira. Ele é, também, fundador do movimento Endireita Brasil, uma organização político-ideológica criada em 2011 para “corrigir” o que ele e seus camaradas chamam de “demonização da direita”. A curta passagem de Salles pela gestão de meio ambiente de São Paulo foi tortuosa e controversa, e acabou com sua renúncia, forçado pelo então governador Alckmin, depois de muitos confrontos públicos com técnicos do setor de celulose e da própria secretaria, com ambientalistas, pesquisadores e promotores públicos. No início de 2017, Salles tornou-se réu em mais de uma ação civil pública interposta pelo Ministério Público.

Sobre o novo cargo, ele disse à Folha que pretende ajudar o Brasil a se desenvolver: “Vamos preservar o meio ambiente sem ideologia e com muita razoabilidade”. Em outra matéria, a Folha entrevistou o futuro ministro e perguntou a opinião dele sobre o aquecimento global, mencionando setores preocupados que defendem medidas imediatas, e setores mais céticos. Salles disse que “não é nem para um lado nem para o outro. Temos um dever de casa para fazer muito tangível relativo à preservação do solo, da água, ar e vegetação. A discussão sobre se há ou não há aquecimento global é secundária. Não vou entrar, nesse momento, nessa discussão. Porque as questões tangíveis de preservação do meio ambiente, havendo ou não havendo aquecimento global, têm que ser feitas. Portanto, essa discussão, neste momento é inócua”. Sobre o Acordo de Paris, ele disse que vai “olhar, item por item, os pontos mais sensíveis (…) lembrando que a soberania nacional sobre o território é inegociável.”

Na rádio CBN, André Trigueiro disse não se lembrar “de outra situação em que um pré-candidato a ministro tenha sido tão fortemente apoiado pelo setor que ele mesmo vai regular. Será que ele vai ter autonomia para fiscalizar?”

Em nota, o Observatório do Clima lamentou a escolha, dizendo que Salles “será um ajudante de ordens da ministra da Agricultura” e que, com a nomeação, “o ruralismo ideológico (…) compromete o agronegócio moderno – que vai pagar o preço quando mercados se fecharem para nossas commodities.”

 

O Brasil e o Acordo de Paris na COP24

Em Katowice, na Polônia, gente ligada à Convenção Clima da ONU (UNFCCC) disse à Folha que o comunicado brasileiro sobre a desistência de sediar a COP25 foi recebido com lamento e decepção. Por outro lado, em uma reunião de mais de 300 pessoas, ocorrida na COP24, pesquisadores e ONGs apostaram que o Brasil fica no Acordo de Paris, apesar da equipe de Bolsonaro e das falas do próprio. O impacto econômico seria um dos fatores que levariam o país a permanecer.

Permanecendo ou não, o Brasil deve perder seu status de liderança nas negociações multilaterais sobre meio ambiente e clima. Segundo o jornal inglês The Independent, esta liderança está sendo corroída mesmo antes da posse do “direitista populista Jair Bolsonaro”. O jornal ouviu diversas fontes na COP24 que disseram que a nova administração já está dificultando o progresso de muitas questões, o que embaraça a equipe brasileira de negociação.

Mais de uma vez o presidente eleito mencionou o Triplo A como motivo para eventualmente afastar o país do Acordo de Paris. Christiana Figueres, que até 2016 foi secretária geral da UNFCCC e uma das principais arquitetas do Acordo, disse que “a ideia de que isso [o Triplo A] foi levantado no contexto das discussões sobre o Acordo de Paris é uma surpresa para mim. O Triplo A não é, e nunca foi, parte do Acordo de Paris”. Ela também disse que “ficaria feliz em ajudar a explicar ao presidente eleito Bolsonaro ou a seu novo ministro das Relações Exteriores os benefícios do Acordo de Paris para o Brasil”. Além de Christiana, o próprio dono da ideia, Martín von Hidelbrand, disse que a ligação feita por Bolsonaro entre a negociação climática e sua proposta para manter a conectividade de ecossistemas na Amazônia é uma “fake news”.

 

Entre as paredes da COP24

A advogada Caroline Dihl Prolo, líder da área ambiental do escritório Stocche Forbes Advogados, fez um bom resumo no seu LinkedIn do que aconteceu na 1a semana de negociações na Polônia: “A primeira semana da COP24 se encerrou com algumas emoções. Primeiro, os países não conseguiram chegar a um acordo sobre o texto-base para as negociações na próxima semana. Além disso, EUA, Arábia Saudita, Rússia e Kuwait [o que será que estes países têm em comum?] não concordaram em recepcionar o relatório do IPCC sobre o cenário de 1.5oC de aumento de temperatura dentro do texto de negociação. A falta de reconhecimento do relatório do IPCC é um contrassenso com as premissas acordadas por estes países dentro do Acordo de Paris, que são fortemente baseadas nos inputs da ciência. As negociações técnicas para fechar o texto-base vão continuar até terça-feira e, em paralelo, já vão se iniciar as negociações políticas entre os ministros de Estado.”

 

Enquanto, isso, fora da COP24…

– A Jamaica anunciou que submeterá um novo plano climático, que provavelmente ampliará até 2020 o corte nas emissões do setor energético, dos 30% atualmente previstos para 50%. O país compete com Barbados, Chile, Costa Rica e Guatemala para sediar a COP25 de 2019.

– A estatal elétrica da Croácia (HEP) anunciou que investirá US$ 1,85 bilhão em energia renovável até 2030, com o objetivo de elevar a participação destas fontes para 50% da capacidade total.

– Os ministros estaduais do meio ambiente da Austrália estão se recusando a fazer uma declaração conjunta sobre a mudança do clima com o governo federal daquele país, exigindo que o governo proponha primeiro medidas internas de ação climática.

– Um grupo de mais de 100 investidores, que administra um total de US$ 5 trilhões, e inclui o BNP Paribas, o HSBC e o Hermes, se comprometeu a integrar considerações sobre a ‘transição justa’ nas suas práticas de investimento em baixo carbono e clima.

– Os países da OPEP e outros produtores de petróleo não-membros do clube, como a Rússia, chegaram a um acordo para cortar a produção de petróleo em 1,2 milhão de barris por dia.

– Um novo relatório da OCDE mostrou que o Sistema de Comércio de Emissões da União Europeia não prejudicou a rentabilidade das empresas ou o número de empregos na Europa, ao mesmo tempo em que reduziu entre 10% e 14% as emissões das indústrias reguladas.

– Está ficando cada vez mais provável que os Democratas dos EUA, depois de terem recuperado o controle da Câmara, passem a dar ênfase à ação climática. O líder da minoria no Senado, Chuck Shumer, afirmou que o partido insistirá na inclusão de medidas climáticas em qualquer possível negociação com o Partido Republicano que envolva infraestrutura.

– Um novo relatório conjunto da UNEP e da Agência Internacional de Energia sobre edifícios de emissão zero alertou que será necessária uma “ação dramática” para alinhar o setor de edificações aos objetivos de Paris; as edificações de todo o mundo são responsáveis por cerca de 40% das emissões globais.

– Um novo estudo que compara os eventos de seca extrema em cenários de aquecimento global de 1,5°C e de 2°C previu que estes seriam significativamente mais severos sob 2°C; a frequência destes eventos aumentaria em 62%, sob 2°C, enquanto aumentaria em 36%, sob um aquecimento de 1,5°C.

 

Greta, 15 anos, puxa a orelha do mundo político: “as pessoas vão enfrentar o desafio climático, quer os líderes mundiais gostem ou não”

A adolescente sueca, Greta Thunberg, de 15 anos, ficou famosa por fazer uma “greve de escola” em defesa do clima. Na COP24, Greta fez um discurso comovente: “Durante 25 anosClimaInfo, inúmeras pessoas ficaram em frente às conferências sobre o clima das Nações Unidas, pedindo aos líderes de nossas nações que parassem com as emissões. Mas, claramente, isso não funcionou, já que as emissões continuam aumentando. Algumas pessoas dizem que eu deveria estar na escola. Algumas pessoas dizem que eu deveria estudar para me tornar um cientista do clima para que possa “resolver a crise climática”. Mas a crise climática já foi resolvida. Já temos todos os fatos e soluções (…) Hoje usamos 100 milhões de barris de petróleo todos os dias. E não há política para mudar isso. Não há regras para manter esse óleo no subsolo. Não podemos salvar o mundo seguindo as regras do jogo. Porque as regras precisam ser mudadas. Portanto, não viemos aqui para implorar aos líderes mundiais que cuidem do nosso futuro. Eles nos ignoraram no passado e nos ignorarão novamente. Viemos aqui para que saibam que a mudança está chegando, gostem ou não. As pessoas vão enfrentar o desafio. E, como nossos líderes estão se comportando como crianças, teremos que assumir a responsabilidade que deveriam ter assumido há muito tempo.”

 

Dois ciclos de investimento para nos prepararmos para um mundo de baixo carbono

Michael Liebreich escreveu para a Bloomberg NEF um artigo otimista sobre o que o mundo pode fazer para mitigar a mudança do clima. Mas, antes de expor suas razões para o otimismo, Liebreich traça um panorama sombrio criado por países saindo ou ameaçando sair do Acordo de Paris, incluindo o Brasil, pela percepção negativa dos impostos de carbono nos conflitos que acontecem na França e pela dificuldade alemã em garantir o cumprimento dos planos de descarbonização de sua matriz elétrica. Para Liebreich, a primeira razão para não se ser pessimista é não ter muita fé na diplomacia e nos grandes acordos internacionais como instrumentos práticos – para reforçar seu ponto, ele comenta o tema do comércio internacional ser tão importante quanto ausente das Convenções. Para ele, duas mudanças importantes em curso – a rápida penetração das fontes limpas e dos veículos elétricos – mostram que “a economia climática precede a diplomacia climática e não o contrário, e a economia parece cada vez melhor”. Nessa trilha, os países, estados e cidades colocam-se metas cada vez mais ousadas: até 2050, a Califórnia e a província australiana de Queensland querem zerar suas emissões líquidas e a Espanha quer uma matriz 100% renovável. As vendas de carros elétricos na China já passaram de 5% do mercado e várias empresas vão entrando no mercado de estações de recarga, incluindo as petroleiras Shell, BP, Equinor e Total. Liebrich detecta um duplo movimento crescente: o dos grandes fundos desinvestindo ou se movendo na direção de retirar de seus portfólios as atividades ligadas à indústria fóssil, e as cortes recebendo processos contra governos e empresas por comprometerem o futuro de países, consumidores e da vida sobre o planeta. Finalmente, Liebrich recorre à teoria econômica e seus ciclos e aponta para variações significativas em participações em mercados nos últimos 6 anos: “as lâmpadas LED saíram de 5% do mercado para mais de 40%; o carvão no Reino Unido caiu de 40% para menos de 5%; e, na Noruega, os carros elétricos passaram de cerca de 5% para quase 50%”. Assim, Liebrich entende que os 12 anos que nos separam de 2030 equivalem a 2 ciclos econômicos completos, nos quais muita coisa pode mudar. Sua recomendação final é bastante interessante: “Ignore o ruído, coloque o foco no sinal. Trump é ruído. Katowice é ruído. Meteorologia é ruído. Notícias são ruído. O sinal é: onde você quer estar ao final desses dois ciclos?”

 

Cerrado, emissões de carbono e soluções climáticas

O IPAM lançou na COP24 um policy brief sobre Cerrado e mudanças climáticas, trabalho importante, dado o peso crescente que a perda da vegetação natural do bioma tem nas emissões do país. O trabalho mostra claramente que desmatamento não é sinônimo de Amazônia. O bioma já perdeu quase metade da sua área para pastos e lavouras e “suas taxas de desmatamento têm variado em torno de 10 mil km2 ao ano nos últimos sete anos. Essa taxa é maior que a da Amazônia para o mesmo período – sendo que a Amazônia é duas vezes maior que o Cerrado”. Outra diferença está no Código Florestal, que mantém como Reserva Legal 80% das propriedades na Amazônia e 35% no Cerrado. O documento defende a inclusão explícita do bioma na revisão da NDC e, também, sua inclusão no compromisso de plantio de 12 milhões de hectares de florestas.

 

Aquecimento global em 7 gráficos

A BBC produziu uma série de sete gráficos mostrando onde estamos em relação a sete indicadores do aquecimento global. O pessoal do Ambiente Brasil fez a tradução. O primeiro gráfico mostra, para cada ano entre 1880 e 2018, a curva de temperatura média global relativa à temperatura média do século passado, com um reforço especial para os quatro últimos anos, que foram os mais quentes dos registros. O segundo mostra, no dia 26 de junho deste ano, onde, no mundo, a temperatura máxima bateu o recorde histórico do local. Em muitos locais, o dia foi um dos mais quentes da onda de calor que atingiu o hemisfério norte. O terceiro vem de um trabalho da Carbon Tracker com dados do ano passado, mostrando para onde irá a temperatura em 2100 se os países cumprirem suas NDCs (+2,9oC), se os países só cumprirem suas políticas internas (+3,5oC) e se continuarem a fazer o que sempre fizeram (+4,5oC). O quarto mostra o ranking dos maiores emissores do mundo com a China, disparada em primeiro, e o Brasil, em 6o, atrás dos EUA, Índia, Rússia e Japão. O quinto é uma afirmação e não um gráfico: 95% das cidades mais ameaçadas pela mudança do clima está na Ásia e na África. O sexto é a curva da extensão da camada de gelo no Ártico desde 1980. Dá para ver claramente as variações entre verão e inverno e a tendência ainda mais clara da perda gradual do gelo. E o sétimo gráfico traz a pegada de carbono de vários alimentos, da carne bovina, passando pela de vários animais, até chegar ao tofu e às ervilhas e nozes.

 

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