ClimaInfo, 21 de dezembro de 2018

ClimaInfo mudanças climáticas

A inação climática dos governos demanda mais ação das empresas

“A COP deste ano pode ter criado um novo “Livro de Regras” para lidar com a mudança climática, mas as empresas estão mostrando que estão um passo adiante na tomada de ação”, escreve Daphne Leprince-Ringuet na Wired. Ela menciona a Maersk, que anunciou no começo da Conferência que cortará a zero suas emissões até 2050. Daphne cita David Wei, um consultor, para quem a COP enviou um sinal positivo ao mundo empresarial ao aprovar o Livro de Regras. No entanto, diz ele, “só porque definimos as regras do caminho não quer dizer que passaremos a dirigir mais rápido. E, neste caso, o sucesso está justamente em dirigir mais rápido.” O artigo aponta, ao final, que só uma parte do mundo dos negócios está se mexendo. Michael Eckhart, diretor do banco norte-americano de investimentos Citigroup, deu uma palestra sobre financiamento climático e disse: “será que sou o único banqueiro comercial nesta sala? Precisamos que os financistas ocupem metade desta sala”.

Falando do Brasil, Marina Grossi, presidente do CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), conta que a organização lançou um estudo na COP mostrando “como 38 empresas brasileiras globais estão se comprometendo no médio e no longo prazos em termos de monitoramento de emissões e de estabelecimento de metas. Foram consultadas as que já adotam a precificação interna de carbono como ferramenta de tomada de decisão, quais estão investindo em projetos de redução de emissões e quanto vem sendo mobilizado para esses projetos.” O estudo pode ser baixado no site do CEBDS.

 

Mudança climática e segurança nacional

O website Defesanet publicou um texto curto, mas denso, do Coronel Raul Kleber de Souza Boeno, sobre os enfoques dados pelo setor militar mundial à mudança do clima. O Coronel Boeno explica a posição mais elaborada da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) e dos europeus que incorporaram o clima em suas estratégias militares, abrangendo a infraestrutura de bases e equipamentos, até planos estratégicos que analisam as várias ameaças previstas. O Coronel também fala dos EUA, onde o setor militar enxerga a mudança climática no mesmo patamar de ameaça que o terrorismo internacional, e que, agora, se vê tendo que lidar com um comandante-em-chefe que quer tirar o país do Acordo de Paris, com isso aumentando os riscos climáticos e dificultando as trocas e alinhamentos imprescindíveis com a Europa e o Canadá.

Ao falar do Brasil, o Coronel diz que “os impactos das alterações climáticas que aumentam as frequência, escala e complexidade de futuras missões das Forças Armadas, incluindo o apoio à defesa civil, podem, ao mesmo tempo, minar a sustentabilidade de infraestruturas críticas, instalações e bens essenciais que sustentam as atividades das Forças. Nesse sentido, existe a necessidade de aumentar a capacidade do setor de defesa e segurança para mitigação ou adaptação aos efeitos das alterações climáticas nas operações e instituições de defesa”. Boeno termina sua digressão dizendo que “o setor militar tem permanecido atento ao debate político sobre as alterações climáticas, pois elas têm exercido influência nas atividades desenvolvidas pelas Forças Armadas, bem como na infraestrutura de defesa e segurança dos países”.

Para quem quer ler mais sobre as Forças Armadas e o meio ambiente, recomenda-se a leitura de “Brasil e a Securitização do Meio Ambiente”. Em tempo: a palavra “securitização” tem significados muito diferentes no mundo financeiro e no mundo militar.

 

Eólicas continuarão em acelerada expansão no Brasil em 2019

Elbia Gannoum, presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), contou para o Valor que no começo do próximo ano a capacidade eólica instalada no país deve chegar a 14,7 GW, ultrapassando as térmicas a biomassa e assumindo a 3a posição na matriz, atrás das hidrelétricas (97 GW) e das térmicas fósseis (28 GW). Este ano, a expansão da fonte ultrapassou a capacidade de Itaipu (14,3GW). A expansão das eólicas no Brasil está apoiada em dois pilares: os leilões que trouxeram credibilidade e reduziram os riscos, e o apoio do BNDES para investimentos que visam o mercado livre. Com isso, os fabricantes dos equipamentos – aerogeradores e turbinas – voltaram a produzir no país, barateando os custos.

A matéria do Valor coloca as eólicas atrás apenas das hidrelétricas, sem explicar porque não incluíram as térmicas fósseis na lista.

 

Usando reservatórios de hidrelétricas como “bateria”

As fontes limpas solar e eólica requerem fontes complementares para os períodos sem vento ou insolação. Uma das melhores alternativas é o emprego de hidrelétricas com reservatório, porque estas têm, hoje, capacidade para suprir, com sobras, todo o buraco. Só que é necessário que chova o suficiente para enchê-los, e chuva em quantidade e no lugar certo anda meio em falta. Um trabalho promovido pela International Hydropower Association (IHA) fala em usar a energia eventualmente excedente das renováveis para bombear água de volta para os reservatórios. Os autores preveem que, até 2030, o mundo terá uma capacidade instalada de 78 GW em hidrelétricas com sistemas de retorno da água para as represas. Aqui no Brasil, os autores mencionam um outro estudo que examinou a possibilidade de bombeamento sazonal: o excedente de água na época das chuvas seria bombeado para um sistema de reservatórios em cascata, destinado a garantir água durante o período seco. A ideia tem duas enormes vantagens: as hidrelétricas e reservatórios já estão aí, sem precisar de mais investimentos. E muitas eólicas estão gerando à noite, quando a demanda é significativamente mais baixa.

 

A última mina alemã fechou, mas a Europa continuará queimando carvão

O presidente alemão receberá hoje a última peça de carvão da última mina a fechar em seu país. Encerra-se assim um ciclo de dois séculos que fez da Alemanha a maior potência industrial da Europa. As térmicas a carvão seguirão queimando carvão polonês, russo e colombiano. E não só as térmicas alemãs continuarão funcionando. A União Europeia chegou a um acordo interno sobre a velocidade com que a geração a carvão deixará de ser subsidiada. Para analistas do mundo do clima, o acordo é completamente incompatível com os compromissos climáticos europeus. Pelo acordo, os subsídios só desaparecem por completo em 2035, cinco anos além do prometido junto ao Acordo de Paris. E a carvoeira Polônia conseguiu a pretendida isenção de qualquer meta. Paradoxalmente, o comissário climático da UE disse que “um mercado mais flexível facilitará a integração das renováveis”.

 

Uma Madri sem carros e o Nordeste dos EUA com transporte de emissão zero

Sob o slogan “Madri deve voltar a pertencer a seus habitantes”, a prefeita Manuela Carmena vem tomando medidas que estão transformando a cidade em um dos motores europeus. Uma peça chave é a visão de mobilidade não baseada em combustíveis fósseis. Madri era uma das cidades mais poluídas da Europa. O projeto Madri Central restringiu a circulação e o estacionamento de carros naquela área. Para circular, os carros precisam de um selo ambiental. Para estacionar, só em edifícios-garagem. Na rua, só moradores ou portadores de autorização especial. Por outro lado, a prefeitura abriu ciclovias e promoveu ativamente o compartilhamento de viagens. Nos planos estão ainda a instalação de mais pontos de recarga de carros elétricos alimentados com 100% de energia renovável.

Em nove estados do Nordeste dos EUA e em Washington DC, foi assinado um acordo pelos dois partidos que cria um mercado de carbono para o setor de transportes, visando zerar as emissões de poluentes, inclusive do dióxido de carbono. Seguindo o exemplo da Califórnia, a ideia é implantar um esquema cap-and-invest, no qual os recursos captados, por meio de uma taxa ou por meio de permissões, são investidos em transportes menos intensivos em carbono e em infraestruturas mais resilientes. A capital  Washington foi além e definiu como meta atender, até 2032, toda a eletricidade consumida em residências, no comércio e em prédios públicos com fontes renováveis. A Inside Climate News também escreveu sobre o assunto.

 

Cerveja britânica produzida com energia solar

A AB Inbev anunciou que suas fábricas que produzem a cerveja Budweiser no Reino Unido fecharam a compra do equivalente a 100 MW de fontes fotovoltaicas. Os parques solares entram em operação em 2020 e o contrato dura 15 anos a partir de então.

 

Um futuro de fortes tempestades, porém mais seco

Se o mundo da mudança climática prevê um aumento da precipitação, porque as reservas de água estão diminuindo? Um trabalho publicado na Water Resources Research analisou dados de anos de pesquisas para apontar que os solos que estão ficando cada vez mais secos, principalmente nas regiões que já sofrem com as secas. O trabalho compilou dados de 43.000 estações pluviométricas e 5.300 pontos de monitoramento de rios em 160 países. “Acreditamos que a causa são os solos mais secos nas bacias dos rios. Onde antes os solos estavam úmidos antes de uma tempestade – o que fazia com que o excesso de chuva corresse para os rios – agora estes estão mais secos e absorvem mais água e, portanto, menos água corre para os rios. Menos água para os rios significa menos água para cidades e plantações. E solos mais secos significam que fazendeiros precisarão de mais água para colher a mesma lavoura. Pior, este padrão se repete no mundo todo e atinge proporções alarmantes em regiões que já estavam secas. É extremamente preocupante”, disse Ashish Sharma, da universidade australiana de New South Wales e um dos líderes do trabalho. A Eurekalert publicou uma entrevista com os autores.

Um dos lugares que correm um grande risco de sofrer secas mais fortes é a Cidade do Cabo, onde, após três anos de pouquíssimas chuvas, o governo implantou um racionamento extremamente restritivo e criou a campanha Dia Zero, o dia em que todas as torneiras da cidade estariam secas. Desta vez o Dia Zero não chegou, graças à participação massiva da população e de chuvas muito oportunas. O que os modelos climáticos mostram é que o risco de outra seca semelhante passou a ser 2 a 3 vezes maior do que antes de 2015. E, num cenário compatível com os 2oC do Acordo de Paris, esse risco dobra mais uma vez até meados do século.

Pelo jeito o sertão não vai virar mar. Muito sertão ficará ainda mais seco.

 

Previsão do tempo: 2019 será o ano mais quente já registrado

A meteorologia inglesa avisa que 2019 provavelmente será um dos anos mais quentes da história, ou mais precisamente, desde que existem registros. A previsão é que a temperatura média global fique 1,1oC acima dos níveis pré-industriais. O Met-Office não tem dúvidas quanto a atribuir isto à mudança do clima.

 

Para ler

Entrevista com Teresa Ribera, Ministra da Transição Ecológica da Espanha

Teresa Ribera é ministra desde junho, apenas, e já é considerada uma das mulheres mais influentes no mundo climático, onde ainda a maior parte da população é masculina. Vale ler a entrevista toda, mas aqui vão alguns destaques:

Sobre a COP de Copenhague em 2009: “Foi um momento muito dramático(…) Foi o final da infância e o começo da adolescência (…) Também foi um momento difícil para o multiculturalismo.”

Sobre o Acordo de Paris: “É muito mais próximo da vida do dia-a-dia [do que Copenhage].”

Sobre a necessidade de uma transição justa: “Penso que os aspectos distributivos são a chave. Precisamos insistir que as pessoas precisam ser o centro da discussão.”

Sobre o acordo do governo espanhol com os sindicatos para fechar as minas de carvão: “Acho que conseguimos algo bom. Isso não quer dizer que as pessoas estejam felizes. Quero dizer, [nas] vilas onde [os mineiros] costumavam trabalhar, as pessoas passarão por momentos duros ao começar uma nova fase.”

Em tempo: sobre esta história da preponderância masculina no mundo climático, Sophie Yeo escreveu o artigo “A Insustentável Masculinidade das Negociações Climáticas da ONU” para a Gizmodo.

 

Para ver

As Montanhas populacionais urbanas

Matt Daniels criou uma nova maneira de “ver” a densidade populacional das grandes cidades no mundo. A maneira mais comum é calcular a densidade – pessoas por m2 – e atribuir uma gradação de uma cor, por exemplo, indo de um vermelho bem claro, para uma densidade baixa, a um vermelho escuro, para uma densidade alta. Daniels colocou isso em 3-D, representando a densidade pela altura de uma barra. O resultado visual impressiona. As cidades mais populosas passam a ter montanhas. Fica muito mais clara a diferença entre uma metrópole densa no meio de áreas vizinhas também densas daquelas que são como montanhas isoladas na paisagem.

 

Para ver em Londres

Ice Watch

O artista plástico Olafur Eliasson e o geólogo Minik Rosing, ambos de paragens Árticas, instalaram 30 grandes blocos de gelo de diferentes formas do lado de fora da Tate Modern, no coração do distrito financeiro londrino. Os blocos ficarão lá até derreter. “Quando se trata de escolhas sobre ser a favor ou contra ações climáticas, temos a tendência de ficar com o que temos, aqui e agora, ao invés de mudar. Induzir medo não parece ser uma estratégia eficaz. Não se pode viver num estado de choque permanente. É disso que Ice Watch se trata. Tenho esperanças de que possamos induzir as mudanças. Para fazê-las, precisamos de todos os instrumentos à disposição. Inclusive a arte”. O hotsite da obra tem mais informações, fotos e a história do gelo Ártico. O pessoal da Climate News conta mais sobre a instalação.

 

Para participar e salvar a data

Feira e simpósio de soluções energéticas para comunidades da Amazônia

O ISA e outras organizações convidam a promover a inclusão energética de comunidades isoladas na Amazônia – indígenas, ribeirinhas e tradicionais. Serão apresentados produtos e serviços voltados para a geração de energia alternativa, solar, eólica de pequena escala, biomassa e off grid (fora da rede) em sistemas isolados e a custos mais baixos. Junto com a Feira, haverá um simpósio com profissionais, especialistas e convidados internacionais para influenciar políticas públicas de promoção do acesso a energia com fontes renováveis.

Potenciais expositores devem entrar em contato por meio deste e-mail, pelo telefone (92) 3622.2582 ou por este website.

De 25 a 28 de março de 2019, no Centro de Convenções do Amazonas, em Manaus.

 

Aviso

A equipe do ClimaInfo ficará em recesso até o dia 7 de janeiro. Exceto por eventos climáticos e políticos extremos até lá. Desejamos a todos Boas Festas e um 2019 menos ruim.

 

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