ClimaInfo, 7 de janeiro de 2019

ClimaInfo mudanças climáticas

O clima sumiu

Os primeiros decretos e medidas provisórias de Bolsonaro promoveram um desmonte na estrutura do governo federal como nunca antes visto. Ministérios foram criados e extintos. Atribuições foram criadas, extintas ou mudaram de dono. Os ministérios da Economia, da Justiça e da Agricultura incharam, o do Meio Ambiente minguou. O termo ‘clima’ só não sumiu totalmente porque sobrou uma área na Agricultura para cuidar dos impactos climáticos sobre as lavouras. De resto, os ministérios do Meio Ambiente, das Relações Exteriores e da Ciência e Tecnologia não têm mais o clima em suas atribuições. Falou-se que o tema será tratado dentro das áreas de relações internacionais destes ministérios, mas ficou claro que, para o novo governo, o clima é problema dos outros. Giovana Girardi, no Estadão, e Fernando Moraes, na Folha de São Paulo, dão mais detalhes.

Ontem, o jornalista Ascânio Seleme escreveu em seu blog que as mexidas anda não terminaram e que os próximos alvos poderão ser o ICMBio e o IBF, Instituto Brasileiro de Florestas.

 

Florestas desprotegidas

As mudanças promovidas pelo novo governo acionaram o sinal de alerta em todo o mundo, pois ficou claro que as áreas de vegetação nativa, principalmente a Floresta Amazônica, estão ameaçadas como há tempos não se via. A demarcação do território nacional foi para a Agricultura, sob a responsabilidade do uber-ruralista e amigo do rei, Nabhan Garcia. Em uma das suas primeiras entrevistas, Nabhan disse que sua atuação será pautada pela aplicação da lei. Mas, quando perguntado sobre a grilagem em áreas de preservação da Amazônia, Nabhan respondeu: “Como é que vou fazer a regularização onde a lei não permite? Tem (…) regras que são seguidas, você tem que comprovar a posse ali durante tantos anos”, e acrescentou que “nenhum proprietário pode ficar dentro do seu imóvel sem título. Como o cidadão vai ter segurança para fazer investimento que precisa ser feito dentro da sua propriedade se aquilo ali não é dele?”

O Serviço Florestal Brasileiro também passou do ministério do Meio Ambiente para a Agricultura. Sob sua responsabilidade está o Cadastro Ambiental Rural (CAR), peça fundamental para a estrutura do Código Florestal, com os dados georreferenciados das propriedades rurais e as áreas de preservação permanente e de reserva legal dentro de cada uma. A ministra da agricultura, Teresa Cristina, repetiu o discurso da bancada ruralista, dizendo que ninguém no mundo preserva o meio ambiente como o produtor rural brasileiro. Pelo Código, o CAR é público e um instrumento transparente para a sociedade monitorar a veracidade da declaração da ministra.

Na semana passada, o Imazon indicou que, entre agosto e novembro de 2018, foram desmatados quase 300 km2, quatro vezes mais do que no mesmo período em 2017. Também na semana passada, soube-se que madeireiros tinham invadido terras indígenas próximas à Usina de Belo Monte, no sul do Pará. Aproveitando o gancho do senhor Nabhan, para conter o desmatamento basta aplicar a lei.

Fabiano Maisonnave, Phillippe Watanabe e Ana Carolina Amaral escreveram um artigo interessante na Folha mostrando o potencial econômico da preservação florestal e entrevistando vários profissionais sobre o Código Florestal, o Ibama e os recursos de multas revertidas em programas de recuperação ambiental. Vale ler o artigo todo. As ameaças à Floresta Amazônica foram também matéria do jornal inglês The Guardian.

 

Os índios desprotegidos

Um dos maiores impactos das mudanças governamentais recaiu sobre os povos indígenas. A Funai, que antes ficava no Ministério da Justiça, foi esvaziada e transferida. A responsabilidade sobre as demarcações – passadas, em andamento e futuras – foi para o ministério da Agricultura, especificamente para a secretaria de Nabhan Garcia. O que restou da autarquia foi transferida para o ministério de Direitos Humanos, comandado pela pastora evangélica Damares Alves. A Folha de São Paulo criticou as mudanças em editorial. Daniela Chiaretti relatou, no Valor, uma nota do Instituto Socioambiental. Marcelo Leite, na Folha, disse que o Marechal Rondon deve estar se revirando no túmulo por esta ação do ex-capitão. O Observatório do Clima também soltou uma nota criticando o esvaziamento da Funai e a alocação do Serviço Florestal para a Agricultura. Alex Tajra, no UOL, trouxe a opinião de vários estudiosos, preocupados com as novas ameaças.

Também na semana passada, foram feitas várias declarações sobre o governo pretender abrir as terras indígenas à exploração pelas agropecuária e mineração. O novo plenipotenciário da demarcação, Nabhan Garcia, disse que agropecuária sim, mas mineração não. O presidente quer os dois. Todos afirmam que qualquer exploração terá que obter a anuência dos índios e, reforçam, sem a ajuda das ONGs. A história recente mostra inequivocamente a degradação física, cultural e existencial de povos indígenas quando a rede de proteção enfraquece.

O aumento da vulnerabilidade dos povos indígenas foi um dos temas que mais circularam nas mídias nacional e internacional.

 

A preocupação internacional

Nesses primeiros dias de governo, os olhos do mundo se voltaram para o Brasil, preocupados com as promessas feitas durante a campanha eleitoral que começam a tomar corpo. A revista The Economist louva o liberalismo do ministro da economia, mas dá um sinal amarelo piscante para a política ambiental. Uma matéria da revista Foreign Policy leva o título de “O Brasil era um líder global na mudança do clima. Agora é uma ameaça”. A revista traça um  panorama da matriz energética, que deve continuar comparativamente limpa, e diz que a maior responsabilidade climática do país é conter o desmatamento.

Daniel Buarque, em seu blog na UOL, traz mais sobre o que a mídia internacional tem escrito nestes primeiros dias.

Alguns dias antes da posse, os embaixadores da Alemanha e da França publicaram uma nota conjunta exortando o governo a permanecer no Acordo de Paris e a cumprir os compromissos já assumidos. Eles enfatizaram que o Acordo não ameaça a soberania nacional e que não existe o tal do Triplo A. A nota termina dizendo que, “por não haver ‘plano B’ (para o clima), nós devemos enfrentar juntos este desafio, respeitando os interesses econômicos e as decisões soberanas de cada nação. Ficar à margem do caminho é uma opção de curto prazo. Esperamos poder continuar contando com o protagonismo ativo e construtivo do Brasil no âmbito do Acordo de Paris”.

 

O início equivocado do ministro do meio ambiente

O ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, disse em entrevista dada à rádio Jovem Pan antes do Natal que o Acordo de Paris é um assunto de interesse de acadêmicos que viajam de classe executiva. Como muita gente no atual governo, ele não dá nome aos bois, provavelmente porque os bois podem processá-lo. Salles disse que está muito mais preocupado com o ambiente urbano, com os esgotos a céu aberto em favelas e a poluição do ar. Até ontem, pelo menos, esgotos e poluição atmosférica das metrópoles eram responsabilidade dos estados e municípios e não do ministério. É bom lembrar que, no final do ano, Salles foi condenado por improbidade administrativa ao pagamento de uma multa e à suspensão dos direitos políticos por três anos, não podendo ser contratado pelo Poder Público. Ele prometeu recorrer. Na entrevista, ele se disse inocente e expôs vários argumentos para explicar o inexplicável.

 

Sojeiros querem liberdade para desmatar

O presidente da Aprosoja, no Mato Grosso, Antônio Galvan, quer o apoio do ministro do meio ambiente para detonar a Moratória da Soja. A Moratória é um pacto entre produtores de soja e a indústria, que tem o apoio do governo e de ONGs, para eliminar o desmatamento da cadeia de produção do grão. Galvan quer que o governo saia da Moratória e, assim, libere os produtores para desmatar à vontade. Por coincidência, um editorial do Washington Post de sexta-feira, tratando do começo do novo governo, termina com uma exortação aos “consumidores ocidentais, empresas e governos [que] devem recusar produtos vindos de áreas desmatadas, e devem pressionar parceiros brasileiros a fazer o mesmo”.

 

O que fazer para proteger a Amazônia do governo Bolsonaro

A julgar pelas medidas adotadas e o teor dos muitos discursos, a pressão sobre a Floresta Amazônica deve aumentar significativamente. Sabe-se que boa parte dos produtores rurais, mesmo apoiando o governo e sua bancada, não tem interesse direto na Amazônia e, talvez, se importem com a integridade da floresta. A revista Página 22 publicou um artigo assinado por Dan Nepstad, João Shimada e Oswaldo Carvalho Jr. com seis recomendações para a separação do joio do trigo no setor agropecuário. Para os autores, “a chave é demonstrar aos agricultores e à sociedade brasileira que a redução do desmatamento os beneficia e que ficarão em pior situação se as políticas ambientais e as áreas protegidas forem enfraquecidas”. Os seis pontos são:

  1. Conectar-se com os grandes e médios produtores; não difamá-los.
  2. Desenvolver incentivos positivos para a conservação das florestas.
  3. Adequar os acordos de “desmatamento zero” à legislação.
  4. Cabe às empresas estabelecer parcerias estratégicas com governos estaduais e setores agrícolas; as ONGs devem ajudar.
  5. Adiar por 6 meses novas expansões sobre áreas protegidas e novas regulamentações sobre os agricultores.
  6. Documentar e comunicar de forma mais eficaz os benefícios da conservação da floresta.

Pode-se discordar de um ou mais desses pontos, mas eles servem, no mínimo, para reflexão.

 

Angra 3: a promessa inviável do ministro de energia

O novo ministro de minas e energia, Almirante Bento Albuquerque, colocou a conclusão da usina nuclear de Angra 3 como prioridade zero da sua gestão. O almirante talvez não tenha lido o documento lançado pelo Instituto Escolhas e pela consultoria PSR mostrando que o custo da eletricidade de Angra 3 será o maior entre todas as outras fontes de geração. As contas feitas mostram que não construir a usina significaria uma economia de R$ 12,5 bilhões ao longo de 35 anos. A Eletrobras, dona da usina, rebateu o trabalho com menosprezo, mostrando que nem ao menos o tinha lido. Mas é interessante notar que o trabalho foi baseado num trabalho da dupla que, no ano passado, apresentou uma metodologia que incorpora os custos de um conjunto grande de atributos à cada fonte de geração, metodologia esta que foi muito bem recebida pelo setor. Aliás, o título do trabalho que apresentou a metodologia, “Quais os reais custos e benefícios das fontes de geração elétrica no Brasil?”, acabou sendo mencionado indiretamente no discurso de posse do ministro, quando este, citando seus compromissos, incluiu “identificar os reais custos e benefícios das diversas fontes de geração elétrica no Brasil, considerando os papéis específicos que desempenham no sistema interligado nacional e suas externalidades”. Mesmo assim, o ministro vai adiante com a usina. O Estadão comentou a polêmica usina de Angra 3.

 

O custo astronômico dos impactos climáticos de 2018

Um relatório da Christian Aid contabiliza os prejuízos com os dez eventos mais fortes associados ao aquecimento global. Quatro deles causaram prejuízos de mais de US$ 7 bilhões cada. Os outros, saíram por mais de US$ 1 bilhão. Não foram levadas em conta quedas de produtividade e, em muitos casos, prejuízos não cobertos por seguros. Por usar valores dos seguros, os EUA lideram a lista de longe.

  1. Os furacões Florence (US$ 17 bi) e Michael (US$ 15 bi);
  2. Os incêndios florestais na Califórnia (entre US$ 9 e 13 bi);
  3. Europa – seca severa (US$ 7,5 bi);
  4. Japão – enchentes (US$ 7 bi) e tufão Jebi (entre US$ 2,3 e 5 bi);
  5. Argentina – seca prolongada (US$ 6 bi);
  6. China – duas enchentes (entre US$ 3,9 bi e US$ 5,4 bi);
  7. Austrália – seca severa (entre US$ 5,8 e 9 bi);
  8. Índia – enchentes em Kerala (US$ 3,7 bi);
  9. África do Sul – seca na Cidade do Cabo (US$ 1,2 bi); e

10) Filipinas e China – tufão Mangkhut (entre US$ 1 e 2 bi).

O relatório traz informações sobre cada um destes eventos. O UOL e a BBC trouxeram matérias sobre o relatório, assim como a seca na argentina foi matéria de capa do La Nación.

 

Destaques energéticos de 2018

Para o Financial Times, a energia no mundo, no ano passado, teve cinco destaques:

  1. A produção de petróleo e gás dos EUA disparou e o país chegou a ser o maior produtor mundial.
  2. A aliança entre os EUA e a Arábia Saudita deu uma balançada em quem dita os preços internacionais.
  3. O setor de carvão mineral na China virou um campo de batalha entre diferentes políticas governamentais antagônicas.
  4. Os países emergentes tomaram a dianteira em fontes renováveis de energia.
  5. O armazenamento de energia virou o tema mais quente no mundo dos investimentos.

 

Um alerta climático de 125 mil anos

Esta nota veio do Facebook do professor Paulo Artaxo: “Há 125 mil anos, nosso planeta teve um breve período quente entre duas glaciações. O nível do mar subiu entre 6 e 9 metros acima do atual. A temperatura durante este período (chamado Eemian) era muito pouco superior à de hoje. Pergunta: de onde veio tanta água naquela época? Trabalho apresentado no AGU mostra a fonte daquela água: o Colapso da West Antarctic Ice Sheet. Os glaciologistas estão cada vez mais preocupados com a estabilidade desta gigantesca massa de gelo. Sua base fica abaixo do nível do mar e o aquecimento do oceano pode estar minando-a por baixo, o que pode levá-la novamente ao colapso. As populações que vivem em áreas costeiras que se cuidem. Isto não vai ocorrer neste século, mas, uma vez iniciado o processo, será impossível deter o colapso.”

 

Para ler

Negação da ciência ganha força em nacionalismo que une esquerda e direita

O professor de história da Unicamp Luiz Marques escreveu um artigo precioso na Folha de ontem. Ele disseca o porquê do negacionismo climático, apesar das tantas evidências e das toneladas de trabalhos científicos sobre o assunto. Marques passeia pelos discursos muitas vezes feitos em comum por gente da esquerda e da direita, segundo os quais a mudança climática é uma invenção dos países ricos para impedir o Brasil de crescer por meio da exploração de todo seu petróleo e por meio da troca da Floresta Amazônica por boi e soja. Mas o cerne do argumento de Marques é que o brilho do desenvolvimento da ciência começou a diminuir quando apontou a finitude dos recursos naturais. “A ciência começa, então, a mudar seu discurso (…) De condutora da humanidade à terra prometida do progresso ilimitado, a ciência começou a se tornar (…) um foco de alerta sobre o potencial destrutivo do modo expansivo de funcionamento da sociedade que era em grande parte sua criatura.” E, mais adiante, “quando entramos em um avião, atravessamos uma ponte ou tomamos um remédio, somos gratos às tentativas da ciência de compreender o mundo e traduzi-lo em tecnologia. Mas, quando dessa mesma ciência vem o aviso de que é preciso mudar o modo de funcionamento de nossa economia, conter nossa voracidade, diminuir o consumo de carne, restaurar as florestas e redefinir nossa relação com a natureza, sob pena de nos precipitarmos num colapso de insondáveis proporções, a gratidão cede lugar à indiferença, ao descrédito e mesmo à hostilidade.” Para Marques, está arado o terreno fértil do negacionismo. Vale ler o artigo.

Em tempo: um dos temas que a anticiência gosta de promover é o de que as vacinas fazem mal a saúde e, em alguns casos, são coisas do demo. Ironicamente, neste final de semana, uma das jornalistas norte-americanas mais exaltadas no ataque às vacinas, Bre Payton, morreu de gripe suína agravada por meningite. Vacinas poderiam tê-la salvado, mas ela não as tomou. Existe uma preocupação crescente com o sarampo na Itália por conta de uma campanha da extrema direita italiana contra a vacinação. Parece que estamos voltando a 1019.

 

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