ClimaInfo, 10 de janeiro de 2019

ClimaInfo mudanças climáticas

O desmonte da política socioambiental promovido pelo governo Bolsonaro

O ISA, Instituto Socioambiental, dissecou as primeiras medidas do governo e analisou os principais impactos negativos previstos. Para eles, um dos aspectos mais importantes é o desaparecimento do combate ao desmatamento nas atribuições do ministério do meio ambiente. “No momento em que atingimos 19% de desmatamento acumulado na Amazônia e os índices anuais crescem, importante recordar o alerta da comunidade científica. As pesquisas mostram que, atingidos entre 20% e 25% de desmatamento, a maior floresta tropical do mundo entraria em um ‘ponto de não retorno’, a partir do qual todo o seu equilíbrio seria modificado de forma irreversível, com a perda de serviços ambientais, incluindo a manutenção do regime de chuvas do qual dependem, entre outros, a agropecuária brasileira.” O tema das mudanças climáticas também sumiu da linha de frente, “como se o presidente quisesse acabar com o problema omitindo referências a ele.”

Ainda ontem, o ISA soltou uma outra matéria aprofundando o desmonte promovido pelo governo. Vale ler a matéria que traz a opinião de especialistas sobre os impactos prováveis sobre o desmatamento e sobre a agenda do clima. “Carlos Rittl (do Observatório do Clima) informa que o Brasil negocia, hoje, pelo menos US$ 1 bilhão de dólares de investimentos internacionais para o combate ao desmatamento e às mudanças climáticas. Cerca de US$ 500 milhões com o Fundo Verde de Clima da ONU e outros US$ 500 milhões como empréstimos do banco de desenvolvimento dos BRICS. Esses recursos ficam em xeque, em virtude da dúvida sobre o compromisso do país com essas agendas”, conclui. “Acompanho há mais de 20 anos as negociações internacionais sobre clima e é impossível fazer qualquer negociação ou mesmo contestação na diplomacia se não se souber quem é o dono da bola em cada país, o ministro que dará as diretrizes”, comenta Paulo Moutinho (do IPAM). “A desagregação de poder ou liderança enfraquece o país de forma cruel. Ninguém dá mais bola ou ele é isolado”, conclui. A matéria termina falando da preocupação com a proteção aos povos indígenas.

A renúncia da presidente do Ibama, Suely Araújo, após os tuítes de Bolsonaro e de Ricardo Salles questionando um contrato de aluguel de veículos, foi criticada em artigos da Reuters e da Deutsche Welle.

Pelas suas últimas, Salles pensa conseguir iludir a todo mundo. Jurou que não acusou Suely Araújo, só questionou o contrato inocentemente. Deu duas declarações dizendo que o Acordo de Paris é secundário para, em seguida, dizer, que o país é credor do mundo em matéria de emissões.

 

Os passos trôpegos do novo governo

A revista Época listou “as dez batalhas de Bolsonaro” que prometem “mexer com vespeiros políticos”. Entre elas o licenciamento ambiental e o desmatamento, afetados pelas repetidas promessas de simplificar para parar de atrapalhar o produtor. A frouxidão do licenciamento abrirá portas para novas tragédias como a de Mariana e para a pulverização de agrotóxicos sobre famílias de trabalhadores e escolas rurais, como denunciado recentemente. O aumento do desmatamento ameaça a floresta, os ciclos hidrológicos por ela sustentados e a produção agrícola dependente destes ciclos. Outra “batalha” pode acontecer na política externa, onde “não está descartada a possibilidade de o Brasil sair do Acordo de Paris, assinado por mais de uma centena de nações [quase 200 na verdade] comprometidas com o combate às mudanças climáticas.” Das outras frentes de batalha, vale destacar a importância que a ala militar do governo dá à energia nuclear, em especial a Angra 3. Também vale destacar o desmonte das redes de proteção aos povos indígenas e comunidades quilombolas, que, dentre todos os brasileiros, provavelmente serão os primeiros e os mais violentamente atingidos pelas batalhas deste governo.

Se as promessas de campanha estão claras, o caminho para atingi-las está sendo percorrido com passos trôpegos. E isto está preocupando seus aliados. O presidente anuncia um decreto aumentando o IOF e volta atrás. Anuncia uma base militar dos EUA no país e volta atrás. Promete mudar a embaixada em Israel para Jerusalém e volta atrás. Anteontem, foi revelado um documento oficial suspendendo os processos de reforma agrária. Ontem, voltaram atrás. A diretora de Proteção Territorial da Fundação Nacional do Índio (Funai), Azelene Inácio, era forte candidata à presidência do órgão. Ontem, foi demitida, segundo Andreia Sadi, d’O Globo, “depois de o blog ter procurado a pasta para questionar sobre uma investigação do Ministério Público Federal a respeito da servidora. O motivo da investigação era um possível conflito de interesses na nomeação dela para o cargo que ocupa.”

 

Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica acontece em outubro

O Papa Francisco, quando visitou o Chile e o Peru, disse que organizaria um Sínodo especial para os bispos de toda a região Amazônica. O Sínodo está marcado para outubro, em Roma. O principal propósito do Sínodo é “identificar novos caminhos para a evangelização dos povos de Deus na região”, dar uma atenção especial aos povos indígenas que são “frequentemente esquecidos e sem perspectiva de um futuro sereno” e, também, à “crise da Floresta Amazônica, o pulmão de importância primordial para nosso planeta.”

 

Abandonar o Acordo de Paris traz impactos negativos para os países

Um trabalho de modelagem macroeconômica procurou entender os impactos sofridos pelos países que eventualmente venham a decidir pelo abandono do Acordo de Paris. O modelo compara a situação “dentro do Acordo” com a situação de “abandono de seus compromissos”, levando em conta cobenefícios como, por exemplo, a redução da poluição atmosférica. Por conta do conjunto de cobenefícios, o saldo para quem fica dentro do Acordo é positivo. Os autores rodaram o modelo para os casos dos EUA, da China e da Austrália. A Axios comentou o trabalho.

 

Emissões dos EUA aumentam mesmo com o fechamento de várias termelétricas a carvão

As emissões de CO2 dos EUA aumentaram 3,4% em 2018, o maior crescimento em oito anos. O aumento ocorreu apesar do fechamento de um número quase recorde de usinas a carvão. Pelo terceiro ano consecutivo, a maior fonte de emissões foi o setor de transportes, alimentado pela maior demanda da indústria, caminhões a diesel e viagens aéreas, seguida pela geração de energia, pela indústria e pelos edifícios. Com isto, diminui a probabilidade dos EUA cumprirem suas promessas ao Acordo de Paris.

O relatório do Grupo Rhodium, mostra que a retomada do crescimento da indústria norte-americana resultou em um aumento de quase 6% nas emissões do setor, com destaque para o aço, cimento e a indústria petroquímica. Trevor Houser, da Rhodium, disse que “a grande lição, para mim, é que ainda não desacoplamos as emissões de poluentes do crescimento econômico”.

Interessante observar que o declínio do carvão ajudou o setor energético a aumentar suas emissões em menos de 2%. O setor de transportes manteve a coroa de campeão nacional de emissões apesar de elas só terem aumentado 1%. O Valor, a Folha e o The Guardian deram a notícia.

 

Como será o mundo de baixas emissões de carbono?

Perguntaram à cientista Katharine Hayhoe, da Universidade de Illinois, como seria um mundo de baixas emissões. Ela diz que o mundo precisa de soluções climáticas que:

– gerem eletricidade de fontes que não emitam gases de efeito estufa, posto que a extração e queima de combustíveis fósseis é responsável por ⅔ do aquecimento global;

– reduzam a emissão de gases de efeito estufa de outros setores importantes como agricultura, desmatamento, processos industriais e tratamento de efluentes, por estes serem responsáveis pelo ⅓ restante;

– nos ajudem a aumentar a eficiência de uso dos recursos naturais: os EUA têm prejuízo de US$ 19 bilhões todo ano em perdas elétricas  e ⅓ de todos os alimentos produzidos no mundo são desperdiçados; e

– retirem dióxido de carbono da atmosfera e o enterre no solo, onde acaba virando planta, pedra ou outro produto útil.

 

Motocicletas elétricas no Quênia

A poluição atmosférica em Nairobi tem uma forte contribuição vinda da enorme frota de motocicletas. No ano passado, a frota total aumentou em quase 200 mil novas motos contra 66 mil automóveis. A matéria da Deutsche Welle diz que a evolução tecnológica de fontes limpas para motocicletas simplesmente não está acompanhando a dos carros. Segundo o braço ambiental da ONU, uma moto chega a emitir 300 vezes mais hidrocarbonetos e entre 10 a 50 vezes mais particulados do que um carro médio fóssil. Para cumprir sua NDC, 20% da frota do Quênia teria que ser elétrica até 2030. Motocicletas elétricas têm a vantagem de poderem recarregar suas baterias em tomadas normais.

O destaque da matéria da DW é um triciclo com uma placa fotovoltaica no teto. A bateria carregada garante autonomia de 50 km. E sempre há a possibilidade de pedalar de volta para casa.

Para constar, a Harley-Davidson começará a produzir sua moto elétrica a partir deste ano. A máquina atinge a velocidade máxima de 200 km/h. E o barulho clássico da Harley foi substituído por um novo som especialmente desenvolvido para a marca.

 

A China dominará o mercado de veículos elétricos por muito tempo

A Quartz indica cinco pontos de atenção no que a China está fazendo pelo futuro dos veículos elétricos.

  1. O futuro dos elétricos está na China: no ano passado foram vendidos mais carros elétricos na China do que em todo o resto do mundo. O governo chinês investiu US$ 60 bilhões nos últimos dez anos ajudando a criar a indústria dos elétricos e pretende investir outro tanto nos próximos dez.
  2. Os veículos com duas rodas foram o começo de tudo: estima-se que existam em todo o mundo 250 milhões de veículos elétricos de duas rodas (bicicletas e motocicletas), sendo que 99% destes estão na China. Também em todo o mundo, existem 2,5 milhões de carros elétricos, 100 vezes menos.
  3. A cadeia de suprimento chinesa é completa: o parque industrial de veículos elétricos chinês compreende cerca de 100 montadoras e centenas de fabricantes de componentes. O componente-chave, estratégico, é a bateria. Uma bateria é composta de anodo, catodo, separador e eletrólito. A China controla entre 50% e 80% do mercado global de matérias primas para esses componentes.
  4. Não existem quase obstáculos para o ônibus elétrico: o custo total de um ônibus elétrico – investimento inicial mais custos de manutenção e eletricidade – já é menor do que o de ônibus a fósseis na maior parte do mundo. A Bloomberg New Energy Finance prevê que daqui a três anos será mais barato no mundo todo. Isso, claro, não leva em conta os subsídios embutidos nos combustíveis fósseis e na eletricidade, que podem ser bastante significativos e distorcer a comparação.
  5. Veículos autônomos estão a caminho. A China tomará a liderança? A mais importante agência de política econômica chinesa estabeleceu como meta para o final de 2020 chegar a ter metade dos novos veículos colocados no mercado pelo menos parcialmente autônomos. Hoje, a liderança tecnológica está nos EUA. Mas, colocar uma meta como esta pode gerar escala com rapidez fazendo com que o progresso até a automação total seja abreviado.

 

2018 foi o 4o ano mais quente nos registros e bateu o recorde de concentração de gases de efeito estufa

O serviço Copérnico da União Europeia, responsável pelas informações oficiais sobre mudança do clima, publicou um relatório dizendo que 2018 foi o 4o ano mais quente do registro histórico, com uma temperatura média global 1,1oC acima nos níveis pré-industriais. A concentração de dióxido de carbono na atmosfera subiu para 406,7 ppm (partes por milhão), um aumento de 2,6 ppm basicamente vindo da queima de combustíveis fósseis. A Reuters trouxe uma matéria a respeito.

 

Alerta para incêndios florestais no Chile

Há um ano, os piores incêndios florestais na história do Chile devastaram 600 mil hectares, mataram 11 pessoas e deixaram milhares de desabrigados. A meteorologia chilena entende que as altas temperaturas, os ventos fortes e a baixa umidade podem provocar a perda de mais de 70 mil hectares de pastos e florestas até junho.

 

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