ClimaInfo, 14 de janeiro de 2019

ClimaInfo mudanças climáticas

Afirmações de Ricardo Salles passam por detectores de mentira

O Observatório do Clima checou a veracidade de 14 afirmações do ministro do meio ambiente. Uma delas foi classificada como “vergonhosamente errada”: Ricardo Salles disse, em entrevista à Rádio Eldorado, na sexta-feira (11), que “a decisão de recusar a COP25 foi ‘do governo anterior’, quando o próprio presidente Bolsonaro admitiu diante de toda a imprensa que a ordem partira dele.” Salles afirmou, também falsamente, à Bloomberg, que “dois terços do desmatamento ocorrem em terras indígenas e unidades de conservação”. Mas, dados do próprio ministério mostram que 15% do desmatamento da Amazônia em 2018 ocorreu em terras indígenas e unidades de conservação, enquanto quase 60% ocorreu em propriedades privadas e áreas públicas griladas que são posteriormente vendidas a particulares.

É curioso ver Salles desmontando inadvertidamente o cansativo bordão da “indústria da multa” dizendo a O Globo que uma parte muito pequena das autuações do Ibama é convertido em multa.

Uma das afirmações mais habituais do ministro diz que não há informação concreta “sobre onde efetivamente estão sendo feitos [os] desmatamentos”, o que é, no mínimo, desinformação, já que o Ibama sabe exatamente onde ocorre desmatamento e se é ilegal ou não. “É exatamente por isso que ele multa. Se não soubesse onde é, não tinha como mandar fiscal lá, talkey?”, nas palavras do OC.

Giovana Girardi, no Estadão, também foi atrás de quanto desmatamento realmente aconteceu em terras indígenas e unidades de conservação, e acabou desmentindo Salles. Ela reforça que 15% do desmatamento ocorreu nessas áreas. “O resto”, escreve, “é em terra pública grilada para especulação imobiliária e privada, sendo 19% em propriedades inscritas no CAR”.

Por falar no ministro, o pessoal da Revista Crusoé foi atrás dos processos judiciais que o envolvem. Em 2013, Salles foi à justiça dizer que não podia pagar o valor estipulado como pensão para seus filhos. Mas as coisas melhoraram muito para ele, em cinco anos seu patrimônio passou de R$ 1,4 milhão para R$ 8,8 milhões em 2018, um aumento de seis vezes, o que é uma muito boa performance financeira para um advogado de relativamente pouco prestígio.

 

Salles e o agronegócio querem manter o país no Acordo de Paris

Para o Estadão, o ministro Ricardo Salles disse, na semana passada, que “não precisamos sair do acordo do clima. É preciso ter muito cuidado e saber identificar oportunidades de avanços em parcerias e recursos que decorram dessa agenda e, por outro lado, identificar riscos que nós temos que evitar de ingerência internacional sobre o território, a produção agropecuária e o patrimônio genético”.

Pela frase, o ministro acha que o Acordo de Paris é como uma mesa de carteado onde a independência e a soberania do país estariam em jogo. Como muitos já se cansaram de dizer, o Acordo não ameaça a soberania de ninguém. O acordo foi feito porque a mudança do clima, esta sim, ameaça todos os países de todos os matizes ideológicos e com base na ideia de que a única maneira de mitigar seus efeitos é pela ação conjunta de todos os países.

Também na semana passada, Luiz Cornacchioni, da ABAG – Associação Brasileira do Agronegócio, deu uma entrevista defendendo que o país não saia do Acordo de Paris. “Em muitas questões, não é preciso apenas ser sustentável. Porque nós somos, mas é preciso mostrar também. Muitas vezes, a gente perde negócios por causa da imagem (…) Quem quer sair do Acordo de Paris é porque nunca exportou nada”. Novamente, o fato de o clima estar mudando nem aparece na fala.

Preocupada com a mudança do clima, uma representante da Organização Meteorológica Mundial, fez um pedido ao novo governo: “Estamos vendo mudanças climáticas e eventos extremos, com impacto inclusive no Brasil. O Brasil tem um papel na comunidade de pesquisadores e esperamos que o país continue a ter um papel construtivo e ativo, como fez no passado”.

 

Sumiu o clima 2

Trump, enrolado com o muro que quer construir na fronteira do México e com a paralisação de seu governo, avisou que não irá à reunião do Fórum Econômico Mundial, em Davos, no final deste mês. Já o Brasil pretende levar o alto comando do governo: o presidente, o chanceler, os superministros Moro e Guedes, dentre outros. Dorrit Harazim escreveu n’O Globo que a “ausência do presidente americano rouba de Bolsonaro e Araújo, nossos estreantes em Davos, um escudo de peso. Pior, os deixam sós e soltos ao alcance de uma atrevida adolescente sueca de 16 anos, Greta Thunberg, que irrompeu no cenário mundial durante a 24ª Conferência da ONU sobre o Clima, em Katowice, Polônia”. Harazim relata o impacto da garota sueca que, falando aos governos presentes, disse: “como nossos líderes estão se comportando como crianças, teremos que assumir a responsabilidade que eles deveriam ter assumido há muito tempo.” O artigo comenta o governo ter deletado o ‘clima’ de secretarias e áreas dos ministérios do meio ambiente e das relações exteriores e termina com um lamento: “o país que tem a oitava maior economia do mundo e é o sexto mais populoso do planeta se sentará à mesa em Davos para discutir a Quarta Revolução Industrial cheio de ideias para o passado.”

 

Governo Dória: infraestrutura manda no meio ambiente

Se Bolsonaro foi convencido a não submeter todo o ministério do meio ambiente à agricultura, em São Paulo, João Doria, não se fez de rogado. Alegando querer combater a morosidade do licenciamento ambiental, colocou a Secretaria Estadual do Meio Ambiente dentro da estrutura da secretaria da infraestrutura. Ou seja, o secretário que manda fazer uma obra é o mesmo que manda licenciá-la. O conflito de interesses não está na pessoa do secretário, que, afinal, segue os interesses dele. O conflito está entre os interesses do governo, o bem-estar da população e a integridade do ambiente.

 

Histórias de refugiados climáticos pobres e ricos

Os sucessivos eventos extremos ampliam o contingente dos que são, no fundo, refugiados do clima. Há alguns anos, eram africanos fugindo da seca e morrendo na travessia do Mediterrâneo. A eles se juntaram povos do Oriente Médio, fugindo de guerras agravadas por secas extremas. Os furacões do Caribe de 2017 devastaram Porto Rico e várias pequenas ilhas da região, mas também atingiram norte-americanos em Houston e na Flórida. Por fim, os incêndios florestais que ocorreram na Califórnia, na Espanha, em Portugal e Grécia trouxeram para o time, uma classe social dificilmente identificada com os botes mediterrâneos. Aleen Brown, na Intercept, entrevista americanas e americanos vivendo em trailers depois dos incêndios terem destruídos suas casas e os furacões, suas cidades. E conversa com uma família hondurenha, fugindo da seca na América Central que, atravessando o México, acabou parando na fronteira com os EUA.

O Financial Times publicou um vídeo também focando a caravana de migrantes de Honduras. Os migrantes explicam de várias maneiras porque se consideram refugiados climáticos. Vale ver.

Como diz Aleen, no começo de sua matéria, “na verdade, em um mundo em que a mudança climática já está alimentando movimentos maciços de pessoas, quase nenhuma nação reconhece oficialmente a existência do refugiado climático.”

 

Um novo mundo: a geopolítica da transformação da energia

Um trabalho de fôlego mapeou as mudanças geopolíticas que as fontes renováveis de energia trarão. As renováveis estão crescendo mais rapidamente que todas as demais fontes, indicando o espaço que ocuparão em breve. “As estruturas e arranjos da energia global mudarão de muitas maneiras, e a dinâmica das relações entre países também será transformada. A energia será mais descentralizada e difusa. A influência de alguns países, como a China, aumentará por terem investido pesadamente em tecnologias renováveis e na sua capacidade de aproveitar as oportunidades que eles mesmo criam. Contrastando, países que dependem bastante de exportações de combustíveis fósseis e não se adaptarem à transição energética enfrentarão riscos e perderão influência (…) [pois a transição energética] reforçará a segurança e a independência energética da maior parte dos países (…) [ela também] promoverá a criação de empregos e promoverá a prosperidade, e melhorará a segurança alimentar e hídrica (…) Apesar de dificuldades, a transformação energética, ao final, levará o mundo na direção correta, enfrentando a mudança do clima, combatendo a poluição e promovendo prosperidade e desenvolvimento sustentável.” O relatório foi encomendado à Commission on the Geopolitics of Energy Transformation, da qual a ex-ministra Izabella Teixeira faz parte.

A ex-ministra escreveu um artigo interessante sobre uma agenda ambiental que pode ser construída entre a China e o Brasil sobre três eixos: i) adoção de uma perspectiva de longo-prazo em cada país baseada em interesses comuns e metas concretas; ii) coordenação de ações para alcançar resultados fortalecendo relações bilaterais; e iii) facilitação da construção de posições comuns no contexto multilateral. Talvez a ministra deva esperar sentada a entrada de um próximo governo mais sensível à proposta.

 

O carvão e as renováveis nas eleições da África do Sul

A África do Sul terá eleições gerais em maio, inclusive para presidente. O atual, Cyril Ramaphosa, é do Congresso Nacional Africano (CNA). Ramaphosa substituiu Jacob Zuma, quem renunciou após enfrentar uma longa e ampla campanha contra sua permanência no poder. As pesquisas mostram que Ramaphosa, hoje, tem cerca de 60% dos votos, seguido pela Aliança Democrática.

Na semana passada, o CNA lançou seu manifesto eleitoral, similar aos nossos programas de governo. Nele, a palavra “carvão” aparece duas vezes, a toda poderosa Eskom aparece uma vez, enquanto que energia renovável aparece 13 vezes e tem uma seção só para si. Para explicar, a Eskom é descrita por analistas como uma estatal de energia monopolista e falida, com uma dívida de US$ 25 bilhões, sem caixa para pagar seus juros, um parque de térmicas a carvão, duas gigantescas em construção, mas já com os orçamentos para lá de estourados e uma enorme resistência em fechar plantas arcaicas. O setor de carvão do país é grande e gera muitos empregos (e subempregos). Discussões sobre transição energética são muitas vezes vistas como “guerra de classes”. Pelo programa anunciado, a CNA parece se inclinar delicadamente para uma transição se afastando do carvão.

A Aliança Democrática de Mmusi Maimane, por sua vez, ainda não lançou seu manifesto. No entanto, vêm aparecendo vários artigos denunciando a corrupção galopante associada à Eskom e exigindo transparência e prestação de contas à população. A Aliança tem seu maior reduto eleitoral na cosmopolita Cidade do Cabo.

 

Leaf, da Nissan, tem autonomia de 400 km e baterias de estado sólido

A Nissan lançou o novo modelo do seu elétrico, o Leaf, agora com uma bateria capaz de rodar quase 400 km entre recargas. O alvo são os modelos da Tesla que já têm esta autonomia há algum tempo. O Leaf é o líder de mercado na Europa, onde alcançou vendas de quase 40.000 unidades. O modelo antigo será lançado aqui no Brasil em junho e custará R$ 180.000,00. O modelo que acaba de ser lançado não chega aqui antes de 2020. O Estadão e a Business Green dão mais informações sobre o lançamento do novo modelo.

Entre o pessoal que desenvolve baterias, dá-se como muito difícil que os elétricos entrem para valer no mercado com baterias Li-íon. A Bloomberg publicou uma matéria sobre isso com o sugestivo título “Antes que o elétrico tome conta do mercado, alguém precisa reinventar a bateria”. As apostas estão centradas no mesmo deslocamento de íons de lítio de um pólo a outro, mas em um meio eletrolítico de estado sólido, ao invés de um meio líquido como nas baterias atuais. Baterias em meio sólido seriam mais seguras (lembrem-se do Galaxy 7, que explodia) e muito mais compactas, o que permitiria maior capacidade de carga, ou seja, mais autonomia. Mas a tecnologia ainda tem vários problemas técnicos a serem resolvidos e não se espera que apareçam protótipos no mercado antes de 2022.

 

O aquecimento surpreendente dos oceanos

Um artigo publicado na Science chamou a atenção de boa parte da mídia nestes últimos dias. Sabe-se que mais de 90% do calor adicional da atmosfera, produzido pelo efeito estufa, acaba sendo absorvido pelos oceanos. Mas medições diretas e modeladas da quantidade de calor absorvida sempre foram problemáticas e imprecisas. Nos últimos anos foram aparecendo trabalhos e medições mais precisas que estão gerando dados mais confiáveis. Um dos avanços importantes foi a medição do calor absorvido a grandes profundidades – até 2km. O que surpreendeu a comunidade científica é que os oceanos estão absorvendo calor mais rapidamente do que se imaginava, 40% mais rapidamente. O lado positivo disso é que, sem essa absorção, a atmosfera e a superfície dos continentes estariam esquentando muito mais. O lado ruim, na verdade, são muitos. Águas mais quentes ocupam mais espaço e o nível do mar aumenta. Águas mais quentes retêm menos oxigênio, prejudicando a vida marina. E retêm menos dióxido de carbono, que vai para a atmosfera esquentar mais o planeta. E águas mais quentes favorecem a formação de furacões, e de furacões mais fortes. Saíram matéria interessantes sobre isso no Estadão, n’O Globo, no Carbon Brief, no Axios e no New York Times.

 

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