ClimaInfo , 16 de janeiro de 2019

ClimaInfo mudanças climáticas

Os desafios para Bolsonaro em Davos

Bolsonaro, Araújo, Guedes e Moro irão à reunião do Fórum Econômico Mundial em Davos, nos Alpes suíços, também conhecida por CEOfest. O presidente tuitou que espera “trazer boas experiências e avanços”. Miriam Leitão deu uma ajuda explicando um pouco do espírito dos frequentadores que dão importância à sustentabilidade e não só da economia: “querem também saber o que o governo pretende fazer para proteger florestas e seus povos originais. Não por querer interferir nos destinos internos do país, mas porque o combate aos gases de efeito estufa, a luta contra as mudanças climáticas, exige que cada um faça a sua parte.” Em relação às terras indígenas, baseada em sua própria vivência, Miriam alerta para “neste momento, grileiros [estarem] se sentindo estimulados, pelos sinais exteriores do governo, a invadir terra pública, principalmente terra indígena (…) E, se o governo Bolsonaro não fizer imediatamente um sinal claro de que isso não será permitido, haverá uma onda de invasões de terras indígenas”. Míriam complementa dizendo que “muitas empresas e fundos têm limitações nas suas regras de conformidade e de governança a investir em países que desmatam, ignoram os compromissos no combate à mudança climática ou onde grileiros invadem terras indígenas (…) Nem só de ajuste fiscal vive a imagem de um país, mesmo diante dos capitalistas.”

Bolsonaro participará de um jantar especial com o tema “Um futuro centrado em humanos na América Latina”. O evento, fechado, contará com a presença dos presidentes do Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Costa Rica.

 

Para Teresa Cristina, ninguém protege mais a natureza do que o Brasil

A ministra da agricultura, Teresa Cristina, falou novamente que ninguém no mundo protege a natureza mais do que o Brasil. A ministra quis provocar Gisele Bündchen convidando-a a “dizer que seu país preserva, está na vanguarda do mundo na preservação, e não meter o pau no Brasil sem conhecimento de causa.” Ministra, que tal deixarmos que os fatos falem por si? Vamos elencar alguns fatos que desmentem por si a afirmação da ministra:

  1. Perdemos mais de 500.000 km2 de florestas e vegetação nativa entre 2000 e 2017; esta área é equivalente à área da Espanha.
  2. Contaminamos a bacia do Rio Doce pelo desastre de Mariana, o qual também destruiu vilas e vidas.
  3. Tivemos volumosos vazamentos de petróleo em Araucária, na Baía de Guanabara e em Miraí.
  4. Tivemos vazamento de rejeitos contaminados de uma indústria de papel em Cataguases.
  5. Vimos o despejo de rejeitos contaminados de fertilizantes no estuário do Porto de Santos, na sequência de um incêndio em um terminal portuário.

No final da semana, o ministro Salles disse que o Ibama autua muito, mas que poucas autuações são convertidas em multas. Lembrando que a ex-presidente do órgão estimava que menos de 5% das multas são pagas. A ministra e amigos podem até achar que a legislação ambiental brasileira é a mais rigorosa do mundo. Agora, que tal aplicá-la para valer?

A provocação da ministra repercutiu aqui e lá fora.

 

A questão das terras indígenas

Nesse início de governo, vira e mexe alguma autoridade vem a público falar das terras indígenas, a começar pelo próprio presidente. Quase todos cometem afirmações falsas ou insinuam o que não existe. Mariana Vick escreveu um artigo relativamente longo, mas muito cuidadoso, explicando o que é uma terra indígena com a intenção de desfazer a montanha de ‘fakes’ a respeito que não para de crescer. Ela começa com uma entrevista do General Augusto Heleno, tido como um dos mais preparados e cuidadosos elementos do governo. O General levantou uma das ideias mais repetidas por autoridades: “Se amanhã uma ONG dessas resolver abraçar a causa de que o yanomami [povo indígena da Amazônia] deve ser independente (…) Cria uma bandeira, um hino, já tem um território. Vai à ONU e pede o reconhecimento da independência. Você perde um ‘pedação’ do Brasil”. Se fosse assim fácil, os palestinos e os curdos já teriam seu país há tempos. Mariana puxa artigos da Constituição e uma série de peças legislativas explicando que a terra é propriedade exclusiva da União e sua posse é dada aos povos indígenas após processo de demarcação que era responsabilidade da Funai. A partir daí, Mariana conta o que pode e o que não pode ser feito nas terras demarcadas e a importância delas para os povos indígenas. Vale a leitura.

A Mongabay publicou um artigo de Sue Branford e Thais Borges também falando das mexidas dadas pelo governo que indicam uma fragilização da política indigenista e as reações que começam a aparecer.

 

Bolsonaro chama General Franklimberg para dirigir a Funai novamente

O presidente nomeou o General Franklimberg Ribeiro de Freitas para a Funai. O General ocupou o cargo durante um curto período no governo Temer. Inicialmente visto com um pouco de desconfiança por alguns, acabou caindo por pressão da bancada ruralista. Cerca de 40 parlamentares da bancada assinaram uma carta para Temer pedindo a cabeça do General por este não ajudar o setor. Desta vez, o General não cuidará das demarcações das terras indígenas, nem das novas, nem das antigas, já que Bolsonaro colocou este ofício nas mãos do amigo Nabhan Garcia.

 

A ideologização do licenciamento ambiental

O Acende Brasil, think tank ligado ao setor elétrico, reclama há tempos das dificuldades e dos tempos envolvidos na obtenção de licenças ambientais para centrais hidrelétricas. Num artigo que acaba de publicar, o grupo deu um passo inédito. Criticando a atuação do Ministério Público no caso do projeto da hidrelétrica de São Luiz do Tapajós, escreveu que “é essencial que o Ministério Público atue de forma firme quando necessário, mas que também responda quando fique evidente que agiu com parcialidade e visando a emperrar o processo, inclusive por razões de cunho ideológico.”

Nesses tempos estranhos, gritar “ideologia” virou a caça às bruxas de Salem e nada menos que a fogueira para purificar o ambiente. Seria de se esperar de pessoas refinadas que não embarcassem nesta canoa.

 

China financiou uma hidrelétrica que não funcionará e receberá petróleo

A hidrelétrica de Coca Codo Sinclair, no Equador, polêmica desde a concepção inicial nos anos 1980, foi palco de protestos quando o governo equatoriano assinou um contrato de financiamento com a China. O projeto continua produzindo polêmicas, posto que, pronta, não gerou um único kWh até agora. O motivo principal das polêmicas se materializou no não funcionamento da usina. Ela fica a pouca distância de um vulcão ativo, o Reventador. Na descrição de um artigo no New York Times, “agora, apenas dois anos após sua inauguração, milhares de rachaduras estão fragmentando o maquinário da represa. O reservatório está sujo de sedimentos, areia e árvores”. No único teste para tentar chegar ao nível projetado de operação, a vibração bagunçou de tal modo a geração que provocou uma pane em todo o sistema elétrico do país. Por trás da obra, existe um rastro de corrupção que colocou na cadeia, dentre outros, um ex-vice-presidente, um ex-ministro de Energia e um dos fiscais anticorrupção que havia sido encarregado de supervisionar o projeto. Pelo contrato com os chineses, mesmo sem gerar um único kWh, a hidrelétrica terá que ser paga em petróleo. Um case para ser sempre lembrado.

Em tempo: a usina, no Rio Coca, destruiu a mais bela queda d’água do país, a San Rafael. Na época da contratação, a International Rivers contou a história. Quem quiser ver como era a queda d’água de 150 metros, pode consultar estas fotos.

 

Empresas demandam ação climática do parlamento escocês

A Coca-Cola, a rede Tesco de supermercados e a Sky demandaram à Escócia que tome medidas urgentes para combater as mudanças climáticas. O comunicado das empresas pede que o parlamento escocês “renove sua posição como líder climático estabelecendo como meta, na Lei de Mudanças Climáticas, a redução das emissões líquidas a zero até 2050, no mais tardar”.

 

O grande degelo

Hoje, a Antártida está perdendo gelo seis vezes mais rapidamente do que na década de 1970, segundo mostra uma nova pesquisa publicada nos Proceedings of National Academy of Sciences. A Antártida perdeu 252 bilhões de toneladas de gelo por ano desde 2009, em comparação com apenas 44 bilhões de toneladas por ano entre 1979 e 1989. Este aumento é “apenas a ponta do iceberg, por assim dizer”, nas palavras do principal autor do trabalho, Eric Rignot, ao USA Today. “À medida que o manto de gelo da Antártida continue a derreter, esperamos que provoque uma elevação de vários metros no nível do mar nos próximos séculos.” O Globo e a Science comentaram o trabalho.

 

O desaparecimento de insetos por causa do clima

Passados 35 anos, o pesquisador Brad Lister voltou a uma floresta de Porto Rico. Procurando uma razão para a grande diminuição do número de pássaros que ali observou, descobriu que 98% dos insetos terrestres tinham desaparecido, assim como 90% dos que viviam debaixo das copas. A hipótese é que o organismo dos insetos é perfeitamente adaptado às condições locais, principalmente às climáticas. Eles se fragilizam quando a temperatura ultrapassa o valor ótimo. Como estavam numa área protegida, fatores como pesticidas ou destruição do habitat não influenciaram. Como os insetos estão na base de quase todas as cadeias alimentares, um colapso generalizado de sua população levaria ao desaparecimento de quase todas as espécies maiores.

O trabalho de Lister e colegas saiu na Proceedings of National Academy of Sciences e foi comentado em um artigo do The Guardian.

 

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