ClimaInfo, 05 de fevereiro de 2019

ClimaInfo mudanças climáticas

Relator da ONU diz que tragédia da Vale em Brumadinho é criminosa

Para não deixar dúvidas de que se trata de um crime, o relator especial da ONU, Baskut Tuncak, declarou que o desastre de Brumadinho poderia ter sido evitado. O governo brasileiro recusou vários pedidos de Tuncak para visitar e avaliar os impactos de substâncias perigosas liberadas pelo desastre da Samarco. O relator disse que “o Brasil deveria ter implantado medidas para evitar o colapso dessas represas mortais e catastróficas após o ocorrido com a Samarco. Deveria haver um monitoramento da represa, incluindo a toxicidade do material de rejeitos e a instalação de sistemas de alarme prévio para prevenir a perda de vidas e a contaminação de rios.”

Não existe mais vida aquática no rio Paraopeba”, afirmou o secretário de governo da prefeitura de Brumadinho, Ricardo Parreiras, neste final de semana. O monitoramento da qualidade da água do rio em Brumadinho e em municípios vizinhos mostra que o nível de oxigênio caiu a zero e, junto, a vida aquática. Estão sendo colocadas barreiras em pontos chave do rio para evitar que a contaminação chegue a pontos de captação de água para abastecimento dos municípios rio abaixo.

Em Brumadinho, a contagem de mortos chegou a 134.

 

O papel protagonista das ONGs no desastre da Vale

Alexandre Mansur escreveu um artigo na Época mostrando como  ONGs e suas redes vêm assumindo protagonismo “para documentar os impactos iniciais, entender a dimensão da tragédia e dar voz aos atingidos”, nas palavras de Fabiana Alves, do Greenpeace. Lições do desastre da Samarco foram aprendidas e a reação das organizações da sociedade foi muito mais rápida e mais eficaz. Mais, elas entendem que o período de comoção geral passa e sobra muito trabalho a ser feito depois que o desastre sai das primeiras páginas. Mansur descreve o que vem pela frente, que “vai desde assistência técnica para agricultura sustentável (capaz de ajudar na regeneração ambiental da vegetação e do rio) até orientação para mediação de conflitos, desenvolvimento de lideranças locais, valorização da cultura da região, criação de novas relações comerciais e de produção para compensar os impactos econômicos do desastre.”

Em tempo: Ricardo Salles bloqueou o Observatório do Clima e o Greenpeace da sua conta no Twitter, “porque a turma estava tumultuando, ao invés de debater”. O ministro que mais ama microfones e holofotes se recusou a conceder audiência para uma ONG dizendo que não tinha tempo.

 

Secretária de assuntos fundiários diz que os índios não têm direito à terra porque não foram os primeiros habitantes do Brasil

A tese da nova secretária-adjunta de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, Luana Figueiredo, deveria ser levada a sério, afinal ela ocupa uma posição relevante no governo federal. Mas fica difícil levar a sério uma oficial de governo que afirma que os índios não foram os primeiros habitantes do Brasil. Nas palavras da moça: “os índios não foram os primeiros habitantes do Brasil, não são os donos naturais destas terras e não lhes é garantido direito territorial congênito, aliás, não lhes é garantido nenhum direito a mais que aos demais brasileiros.” O corolário do argumento é que, assim como os índios expulsaram os primeiros habitantes, os brancos expulsaram os índios e ponto final. A moça, advogada, está passando por cima da Constituição Federal que, sim, reconhece direitos dos povos indígenas distintos aos dos demais brasileiros, porque habitavam o território nacional antes da formação do Estado e não porque chegaram em primeiro, segundo ou terceiro lugares. O pessoal do Brasil 247 também comentou mais esse desastre.

 

Falta informação sobre o consumo dos aparelhos de ar condicionado

Quem tem um aparelho de ar condicionado em casa aprende rapidinho que este pesa na conta de luz, principalmente nos meses de calor. O que pouca gente sabe é que a informação existente na etiqueta de consumo de energia dos aparelhos novos é praticamente inútil. Clauber Leite, do IDEC (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor), informou que um levantamento feito pela organização mostrou que foi bem diferente o consumo real de 6 aparelhos de mesma potência e com a mesma classificação Procel A testados – os melhores aparelhos. Ao longo de cinco anos, o aparelho mais gastador aumentaria em R$ 1.600 a conta de luz em relação ao mais econômico, ou 1,5 vezes o preço de um aparelho novo. Não há nada na etiqueta que identifique o consumo. A matéria d’O Globo destaca que um grupo formado pelos Inmetro, fabricantes, governo, academia e ONGs está redefinindo os padrões brasileiros para adequá-los ao que já existe faz tempo lá fora. Kamyla Borges, do iCS (Instituto Clima e Sociedade), coordenadora deste trabalho em grupo, diz que “a partir desse projeto, devemos mudar o método de teste dos aparelhos, o que permitirá melhor comparação com os de outros países. O estudo também será a base para a nova classificação. A ideia é dar um salto de eficiência.”

 

A geração eólica ultrapassa capacidade de Itaipu

Segundo o Boletim do Sistema Elétrico de dezembro, a capacidade eólica instalada atingiu 14,7 GW no final do ano, superando a emblemática hidrelétrica de Itaipu. Isso corresponde a 9% do total de capacidade de geração do país, ultrapassando as térmicas a gás natural e encostando na 2a maior fonte, que são as térmicas a biomassa. A coluna de Míriam Leitão, n’O Globo, comentou essa evolução, embora a matéria comente muito mais o aumento brutal de 36% no preço do gás natural vendido às indústrias no estado de São Paulo, fruto da renovação de contratos entre a Petrobras e a distribuidora local, a Comgás. Ninguém se deu ao trabalho de justificar o aumento.

 

Venda de bicicletas elétricas dispara no país

As vendas de bicicletas elétricas no país parecem estar disparando. No ano passado, foram vendidas mais de 30 mil unidades, dez vezes mais do que as vendas em 2010. Uma matéria simpática n’O Globo mostra que parte do avanço está acontecendo no interior do Brasil, onde gente mais simples, que sempre andou de bicicleta, está descobrindo que a ajuda de um motor elétrico vale o investimento.

 

O greenwashing na propaganda da Budweiser

Ontem, falamos de uma propaganda da Budweiser, colocada no minuto publicitário mais caro do mundo, que anunciava que a empresa tinha adotado a energia eólica e uma série de outras práticas sustentáveis. Um artigo na New Republic também comentou o anúncio e apontou que a mudança do clima ameaça as matérias primas para a fabricação de cervejas: água, cevada e lúpulo. Assim, o foco na sustentabilidade é, de fato, estratégico para o negócio. Mas o artigo vai além, denunciando uma certa hipocrisia empresarial, mostrando que a empresa-mãe, a Anheuser-Busch, está associada a duas organizações de lobistas inimigos do clima. Uma delas, a ALEC (American Legislative Exchange Council) é tão radical em seu negacionismo que até a superpetroleira ExxonMobil se desfiliou. A outra, a Chamber of Commerce, defende pautas parecidas e também vem sofrendo defecções de empresas preocupadas com a própria imagem. Parece que a Budweiser acredita poder jogar nos dois times ao mesmo tempo.

 

GE: lições do colapso do mercado de turbinas a gás

Artigo publicado pela Imperial College Business School levanta algumas lições dos contínuos problemas sofridos pela divisão de turbinas a gás da GE que, recentemente, relatou uma perda trimestral de quase U$ 900 milhões. Os autores analisam cada parte do negócio de turbinas da GE, incluindo segmentos como os de manutenção de emergência e atualização de eficiência, que não devem ser afetados pela mudança em direção às energias renováveis. Eles mostram  que todas as partes da divisão foram inesperadamente danificadas pela “bolha de carbono”, nenhuma delas ficou imune. Na semana passada, ao apresentar seus resultados anuais, a GE disse que a demanda global por turbinas de gás deve se estabilizar entre 25 GW e 30 GW por ano, cerca de ⅓ dos níveis previstos há menos de dois anos, e indicou, pela primeira vez, que os problemas da indústria são ‘seculares’ e não meramente ‘cíclicos’.

 

O clima muda e crocodilos passeiam por cidade australiana

O nordeste da Austrália está sendo castigado por fortes chuvas que vêm provocando inundações e exigindo muito trabalho da defesa civil e até do Exército. A chuva foi tanta que, sob ameaça de transbordamento, as comportas de vários diques tiveram que ser abertas, jogando mais água no dilúvio. Em Townsville, carros ficaram praticamente submersos e foram avistados – e fotografados – crocodilos e cobras marinhas passeando pelas ruas inundadas. A polícia da cidade soltou o seguinte comunicado: “Se a ideia de se encontrar cara a cara com um crocodilo não for suficiente para convencê-lo, antes de entrar na água, deve-se ter sempre em mente que você pode cruzar com os excrementos do seu vizinho”. Autoridades locais dizem que um dilúvio deste porte acontece uma vez a cada século, se tanto. O UOL e a CNN, dentre outras, contaram a história.

 

O rápido derretimento das geleiras no Himalaia e no Ártico canadense

O físico Paulo Artaxo comentou um trabalho de fôlego feito sobre o impacto da mudança do clima na grande cordilheira que vai do Himalaia ao Hindu Kush: “Mais de 2 bilhões de pessoas podem ser afetadas pelo derretimento de geleiras continentais, nos Himalaia, Andes, Atlas ou Alpes. (O) ciclo hidrológico nestas regiões depende de água armazenada na neve/gelo. Cerca de 36% do Himalaia derreterá ao longo deste século se conseguirmos limitar o aquecimento a 1,5oC, e 60% pode derreter se não agirmos já. Toda esta dinâmica já está sendo fortemente alterada, e o potencial de conflitos e migração forçada é enorme para centenas de milhões de pessoas.” O livro de mais de 600 páginas traz os resultados das pesquisas de 16 grupos de trabalho responsáveis por cada um dos capítulos e pode ser baixado de graça no site da Springer. A apresentação diz que o trabalho “estabelece o valor do Hindu Kush Himalaia para as 240 milhões de pessoas que vivem em suas encostas e vales, que cruzam 8 países que compartilham a região, e para as 1,65 bilhões de pessoas nas bacias dos rios e, em última instância, para o mundo. No entanto, a região e seus povos enfrentam pela frente um leque de desafios velhos e novos com a mudança do clima, a globalização, a migração de pessoas, conflitos e degradação ambiental. Ao mesmo tempo, vemos também um incrível potencial para encarar esses desafios de modo sustentável.” Matéria do The Guardian também comentou o livro.

Outro trabalho que acaba de ser publicado pela Nature relata que o retraimento de geleiras no Ártico canadense está revelando paisagens cobertas por gelo nos últimos 40.000 anos. Vale conferir.

 

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