ClimaInfo, 07 de fevereiro de 2019

ClimaInfo mudanças climáticas

Acionistas da Vale responsabilizam diretoria e pedem seu afastamento

Um grupo de pequenos acionistas da Vale pediu a destituição da diretoria da empresa. O pedido, feito ao Conselho de Administração da empresa, incluiu a convocação de uma Assembleia Extraordinária, na qual deveriam ser apresentadas as medidas de “reparação integral das violações de direitos e dos danos ambientais causados” pelo desastre provocado pela empresa. Do grupo de acionistas fazem parte moradores da região de Brumadinho e organizações da sociedade civil atuantes no local.

Em tempo: ontem, no começo da noite, Andréia Sadi e Marcelo Parreira, da Globonews, reportaram que a Vale sabia dos problemas na barragem de Brumadinho já dois dias antes da tragédia. A Globonews teve acesso aos depoimentos dos dois engenheiros da TÜV SÜD Brasil, empresa responsável pelos laudos de segurança da barragem, aqueles engenheiros que foram presos e, mais tarde, soltos pelo STJ. No depoimento os engenheiros relatam e-mails trocados com a Vale nos quais apontavam “problemas” com os piezômetros lá instalados. Resta esclarecer se eram mesmo problemas com os sensores ou se estes indicavam a tragédia que estava para ocorrer. Aparentemente, alguém na Vale tomou a decisão errada e ignorou os avisos.

 

Um quarto do Congresso recebeu 83 milhões em doações de campanha de desmatadores e escravagistas

O Repórter Brasil (RB) fez um bom retrato do atual Congresso. Examinando as doações feitas às campanhas, o RB mostrou que “pelo menos 131 deputados federais e 17 senadores eleitos (…) receberam, ao todo, R$ 8,3 milhões em doações de campanha de empresários” donos ou diretamente ligados a empresas autuadas pelo Ibama por crime ambiental ou que entraram na “lista suja” do trabalho escravo do Ministério do Trabalho. Entre os beneficiados estão o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e o eterno senador Renan Calheiros. Na lista também estão dois dos mais importantes ministros do governo Bolsonaro: Onyx Lorenzoni, da casa civil, e Tereza Cristina, da agricultura. A matéria reforça que não há nenhuma ilegalidade nas doações.

Mas, como ninguém é obrigado a aceitar uma doação, talvez caiba uma pequena alteração no velho adágio: “diz-me de quem recebes doações e te direi quem és”.

 

Ministro só recebe quem é ‘bem-educado’ e continua sem saber que o clima mudou

O ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, bloqueou ONGs da sua conta no Twitter dizendo que estas estavam bagunçando. Ontem, ele disse que só concederia audiência a ONGs sérias e explicitou as que ele considera mal-educadas. Salles disse à jornalista Ana Carolina Amaral, da Folha, que “as organizações que ligarem e agendarem uma reunião para discutir uma pauta serão recebidas. Mas você não pode ir na internet dizer que sou burro, incompetente e depois querer vir aqui; isso não é ter uma boa relação.” Ana Carolina ouviu Carlos Rittl, do Observatório do Clima (OC), candidato a não ser recebido por Salles: “Sempre fomos muito críticos e cobramos de todos os governos, mas sempre tivemos por parte deles a abertura ao diálogo, mesmo nos momentos em que as diferenças nas decisões e posições de governo em relação às nossas recomendações eram muito grandes.” Salles não deve ter gostado de ter suas declarações conferidas pelo Agromitômetro do OC, já que elas oscilaram entre “falácias” e “meias verdades”.

Nasce, assim, uma nova categoria de servidores públicos: os que só atendem o público “bem-educado”.

As frases que Salles comete em entrevistas estão com prazo de validade cada vez menor. Na segunda-feira ele disse ter coisa mais importante com que se preocupar do que com a mudança do clima, que não passa de uma discussão acadêmica de algo que acontecerá daqui a 500 anos. Já ontem, a Nasa (Agência Espacial Americana), a Noaa (Agência Nacional de Oceano e Atmosfera dos EUA), o Met Office britânico e a OMM (Organização Meteorológica Mundial), mostraram que o ano passado foi o quarto ano mais quente dos registros, só perdendo para os três anteriores (2015-17) por conta do forte El Niño daqueles anos. O ministro faria melhor falando menos e usando o tempo ganho para estudar um pouco.

 

Os anunciados impactos ambientais e climáticos da usina hidrelétrica Sinop

No mês passado, a Usina de Sinop, no Rio Teles Pires, recebeu licença para começar a encher seu reservatório. Comparando a relação entre a potência da usina com seu reservatório com a de outras hidrelétricas, a de Sinop está longe de ser a pior e, igualmente, longe de ser a melhor. O problema é que o pessoal que construiu a usina não removeu todas as árvores do reservatório. Isso costuma acontecer quando a pressa é maior do que o compromisso com a sociedade e a natureza. O resultado disso é que essa biomassa apodrecerá debaixo d’água onde, sem oxigênio, o carbono acaba se juntando com hidrogênio para fazer metano. O metano borbulha e vai para a atmosfera onde é um poderoso gás de efeito estufa. Mas isso ainda leva um certo tempo. O primeiro impacto da usina já aconteceu. Mal começou a encher e está acontecendo uma mortandade de peixes. Até o momento, ninguém sabe por que e as investigações ainda estão acontecendo.

 

Projeto de usina nuclear deixa um buraco de US$ 9 bilhões

O que aconteceu na Carolina do Sul é um alerta para quem pretende construir usinas nucleares no Brasil. Duas empresas de geração e distribuição norte-americanas se juntaram para construir e operar duas usinas nucleares em 2008 ao custo projetado de US$ 9,8 bilhões (correspondentes a aproximadamente R$ 38 bilhões em valores atuais). As duas usinas, juntas, teriam capacidade de 2,2 GW. As empresas encomendaram as usinas à Toshiba-Westinghouse. Em 2012, as empresas avisaram que atrasariam a entrega por problemas com as obras. Em 2013, pediram mais um adiamento alegando problemas com a entrega de equipamentos, e que o custo teria aumentado em US$ 1,2 bilhão. A essa altura, elas foram autorizadas a começar a cobrar uma tarifa dos seus consumidores pela energia que não estavam gerando. Em 2017, a Toshiba-Westinghouse faliu e, por uma estranha lei da Carolina do Sul, os consumidores terão que pagar os US$ 9 bilhões que faltam para terminar o projeto, ou melhor, para não terminá-lo. De concreto, sobrou um buraco coberto de concreto no qual as usinas deveriam estar.

 

Canadá: preservação ambiental precede o mercado em casos de falência

No Canadá, várias das empresas que se arriscaram a explorar as areias betuminosas quebraram, deixando buracos, poços e muita sujeira. O caso mais emblemático foi parar na Suprema Corte e tratava-se da massa falida da Redwater Energy, disputada entre credores e o governo. Este último queria que esta fosse usada para limpar a sujeira deixada pela empresa. No final de janeiro, a Corte decidiu que o meio ambiente tem precedência sobre o mercado. Na sentença, a frase emblemática é “a falência não é uma licença para se ignorar as regras”. Será interessante ver a reação dos ultraliberais de plantão. A matéria saiu na Economist.

 

Aquecimento global ou mudança climática?

Jonathon Schuldt faz essa pergunta em um artigo para o The Hill. O motivo do artigo foram as recentes pesquisas de opinião junto aos norte-americanos feitas para avaliar se estes acreditavam e, caso positivo, o quanto sabiam e o que deveria ser feito a respeito. Schuldt comenta a pesquisa da Yale que usou a expressão “aquecimento global”, mas publicou os resultados usando a expressão “mudança climática”. Ele então traz o resultado de outra pesquisa, desta vez feita com Republicanos. A maioria acredita que a “mudança climática” é real, mas não o “aquecimento global”. Schuldt acha que, como a expressão “aquecimento global” foi majoritariamente usada até 2010, a rejeição ao termo é maior.

Em todo caso, para Schuldt, “aquecimento global tipicamente se refere ao aumento das temperaturas médias globais na superfície, enquanto que a mudança climática inclui um leque maior de alterações ligadas às emissões de gases de efeito estufa pela queima de combustíveis – incluindo a acidificação dos oceanos, o aumento do nível do mar e a migração em massa de espécies, para citar algumas”.

Vale comentar que a mudança do clima é provocada por outros fenômenos além da queima de combustíveis, como o desmatamento de florestas tropicais e o processo digestivo de ruminantes. E também vale comentar que o aumento do nível do mar é consequência do aquecimento global.

 

Um El Niño fraco não afeta as chuvas no Nordeste

O pessoal do Letras Ambientais vem acompanhando a evolução do El Niño que começou no final do ano passado, de forma irregular, não podendo ser caracterizado como um El Niño clássico. Apesar de estar se tornando mais regular neste início de ano, as diferenças de temperatura atmosférica não tão grandes indicam um El Niño fraco. Com figuras bem representativas, eles explicam que os ventos de um El Niño forte tendem a afastar e dispersar as nuvens de chuva que se formam no oceano que iriam para o Nordeste brasileiro. Por outro lado, uma La Niña tem o efeito contrário, fazendo chover na Zona da Mata e até no sertão. Nas condições atuais, o El Niño parece não ter força para fazer a região passar por outra seca aguda.

 

Em Washington a temperatura passou de -12oC para 23oC em uma semana

O vórtex polar que literalmente congelou o leste e o meio-oeste norte-americano na semana passada se foi. A capital do país, Washington, viu os termômetros passarem de 10oC negativos para 23oC positivos, uma mudança de 33oC em menos de uma semana. A matéria do Washington Post diz que a variação na sensação térmica foi de 36oC. Os americanos gostam de marcar recordes, então a 3a feira foi o dia 5 de fevereiro mais quente dos registros.

 

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