ClimaInfo, 25 de fevereiro de 2019

ClimaInfo mudanças climáticas

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O que a Pequena Idade do Gelo do século XVII pode nos ensinar sobre a mudança climática?

Nos tempos de Shakespeare, os religiosos diziam que o clima então impiedoso era uma punição divina pelo mau comportamento dos humanos. Este tipo de pensamento dominou o início da Pequena Era do Gelo e inspirou a caça às bruxas na Europa. De alguma forma, colocar mulheres sobre a chamas de fogueiras descongelaria a terra congelada do inverno, faria a chuva cair suavemente sobre as plantações na primavera e resfriaria o sol escaldante do verão. Mas a perseguição não conseguiu mudar o clima extremo, claro, e muito lentamente as ideias sobre como lidar com a crise foram se transformando e deram espaço ao iluminismo. No livro Nature’s Mutiny, Philipp Blom se baseia na história deste período para dizer que sim, teremos problemas pela frente causados pelas mudanças climáticas, mas que poderemos criar, também, novas metáforas e novas compreensões do planeta, tal como aconteceu no passado. O autor diz que não podemos esperar mais: “As mudanças climáticas do século XXI tornam urgente repensarmos mais uma vez nossas metáforas culturais, bem como o lugar da humanidade no grande esquema das coisas”.

 

Agronegócio usa mudança climática para pressionar por mais subsídios

O agronegócio está se dando conta da mudança que vem acontecendo no clima pela via dos seguros. Acontece que as seguradoras, sempre alertas à detecção de riscos emergentes, estão achando por bem aumentar o valor do prêmio de seus serviços. Parte do agronegócio, reagindo em modo automático, já pressiona por subsídios ao seguro rural. A reação automática era já esperada como decorrência de séculos de dependência de subsídios, isenções, anistias, Refis e outros saques ao Tesouro Nacional. O agro, certamente uma das atividades econômicas mais dependentes do clima, bem que podia se juntar aos que lutam para mitigar as emissões de gases causadores dessas mudanças e buscar reduzir suas emissões, só que não. A CNseg (Confederação Nacional das Empresas de Seguro) publicou dois artigos sobre o assunto.

 

A repressão a invasores de propriedades anunciada por Nabhan Garcia inclui os grileiros?

Nabhan Garcia, secretário especial de assuntos fundiários do ministério da agricultura, vinha guardando silêncio desde sua posse. Mas o magnetismo dos holofotes foi irresistível; teria sido melhor permanecer calado. Nabhan disse que “tem muita gente que critica o grande latifundiário, mas hoje o maior latifundiário do país é o índio”. Só que o índio não é, nem nunca foi proprietário, no sentido capitalista, da terra. A Constituição estabelece que as terras são da União e não dele. Mas o assunto central da entrevista dada ao Estadão é a relação entre o Incra, seu novo general e o MST. Nabhan disse que, “durante décadas, nós assistimos ao Incra ser comandado por invasores de propriedade, pelo MST e um emaranhado de siglas (…) Uma sigla vai lá, destrói, ateia fogo, faz vandalismo, terrorismo e fica por isso mesmo? Isso não é movimento social. Invasão é crime. Não podemos manter diálogo com foras da lei nem nos submeter a pressões.”

Nabhan não respondeu, nem foi perguntado, se os grileiros de terras públicas que atuam em um esquema de crime organizado serão tratados com o mesmo rigor. Aliás, com rigor até maior, já que eles estão dilapidando bens de todo o povo brasileiro.

Além disso, o senhor Nabhan não tem o mandato de decidir quem é ou não criminoso. Para isso existe um poder independente do executivo, o judiciário. É só lá que uma pessoa perde seus direitos políticos ou uma organização é obrigada a fechar suas portas. O executivo não tem o direito de excluir qualquer brasileiro ou qualquer organização não condenada pela justiça. Simples assim.

 

Sete anos depois, Salles reconhece não ter feito mestrado em Yale

Leandro Demori, do The Intercept, foi conferir uma informação presente em um artigo de opinião publicado na Folha de S. Paulo em 2012 pelo atual ministro do meio ambiente, onde este se identificava como “mestre em direito público pela Universidade Yale”. Leandro entrou em contato com a Universidade, uma das mais prestigiosas do mundo, que lhe respondeu não ter conseguido “localizar nenhum registro indicando que Ricardo de Aquino Salles frequentou a Faculdade de Direito de Yale”. Leandro procurou o ministro, mas não teve resposta. Ele procurou também a Folha de São Paulo e outros órgãos de mídia que vêm se referindo a Salles como um Yale-Man. Ninguém havia se dado ao trabalho de checar de onde teria vindo a informação sobre o tal “mestrado”. Depois da publicação da matéria da Intercept, uma nota da TV Cultura de SP informou que Salles “não fez veicular dados incorretos, tendo alertado previamente à produção acerca da imprecisão das informações que foram erroneamente divulgadas pelo programa.” Salles levou sete anos para corrigir o “equívoco” de sua assessoria de imprensa.

 

Reações ao desmonte da agenda ambiental promovido por Doria em SP

A Associação de Especialistas Ambientais do Estado de São Paulo e mais duas organizações de funcionários ligados à área ambiental do estado publicaram uma carta aberta denunciando o tratamento dado pelo governo João Doria ao meio ambiente. As tentativas de participação dos técnicos nas discussões de reformulação de políticas e estruturas dos órgãos foram ignoradas pelo governo. Doria está imitando o governo federal e pretende transferir uma série de atribuições ambientais para Secretaria da Agricultura. Como está fazendo Bolsonaro, trata-se de colocar o meio ambiente na mão do agronegócio. E, lá como cá, há um claro conflito de interesse entre o agronegócio e as atividades de fiscalização e controle que lhes dizem respeito. Os signatários acreditam “que a produção rural e a conservação ambiental são interdependentes, e o desenvolvimento sustentável na zona rural será resultado do trabalho conjunto entre a Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente e a Secretaria de Agricultura e Abastecimento, cada uma com suas atribuições, vocação e missão. Sabemos que alterações nas estruturas do governo são necessárias e justificáveis para atender as mudanças da sociedade, porém elas devem primar pelo interesse público, numa construção minimamente técnica e participativa”. Por estes motivos, os signatários manifestam-se “em favor de que as agendas ligadas à biodiversidade e ao desenvolvimento sustentável, seu corpo técnico e suas dotações orçamentárias devem ser mantidas integralmente na Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente e de forma autônoma à agenda de comando e controle.” A carta recebeu o apoio de 11 organizações da sociedade civil.

 

Aproveitamento sustentável da Amazônia é premiado

A comunidade ribeirinha da Ilha das Cinzas criou seu próprio paraíso, mantendo a floresta intacta, vivendo em cabanas de madeira sobre palafitas, tendo água filtrada e reciclada e operando agricultura e pesca planejadas e controladas. O Globo Rural e o site Amazônia contam como as famílias da comunidade da foz do Amazonas implantaram um sistema de tratamento de água e esgoto que vem ganhando prêmios, incluindo um de R$ 1 milhão. A Associação local, com o apoio da Embrapa-Amapá, instalou 2 sistemas nas casas. O primeiro, capta água do rio, que tem alto teor de sedimentos e uma carga orgânica também elevada. A água passa por uma sequência de filtros e recebe a adição de cloro antes de ir para as torneiras das casas. Na outra ponta, todo o esgoto passa por outra sequência de filtros até chegar em um biodigestor. A água tratada volta para o rio. A Embrapa também instalou painéis fotovoltaicos, como está fazendo em outras comunidades amazônicas. A matéria do Globo Rural é bem interessante.

 

Escândalo nos EUA: lobby de indústrias poluentes nomeia regulador da atmosfera da EPA

Uma grande coalizão de empresas de serviços públicos, energia e grupos industriais pagou mais de US$ 8 milhões para quEscândalo nos EUA: lobby de indústrias poluentes nomeia regulador da atmosfera da EPAe uma empresa de lobby trabalhasse no desmantelamento das regras de poluição da era Obama. O pagamento, feito em 2017, coincide com a nomeação de um sócio da empresa lobista para o cargo de principal regulador atmosférico da EPA. Documentos internos da empresa obtidos pelo Politico mostram que 31 grupos empresariais pagaram US$ 8,2 milhões à empresa de lobby Hunton & Williams, sendo que a Duke Energy, Southern Co. e a AEP pagaram mais de ⅓ da conta. Desde sua nomeação, Bill Wehrum, ex-sócio da Hunton & Williams, já implantou várias das principais reivindicações da coalizão. “O escândalo aqui é sobre o que é lícito”, disse Kathleen Clark, professora de direito da Universidade de Washington em St. Louis, acrescentando que os documentos mostram “um grupo industrial traçando estratégias sobre como mudar a política federal por meio da instalação de pessoal amigo no cargo de regulador”.

 

Índia: conservação de florestas versus proteção a povos nativos

Há mais de dez anos ocorre na Índia uma disputa entre organizações protetoras de direitos indígenas e outras que buscam preservar as florestas nacionais. Debi Goenka, chefe do Conservation Action Trust, diz “o que eles (ativistas de direitos humanos) não percebem é que, à exceção de dois, todos os demais grandes rios indianos dependem de florestas. Fotos de satélite mostram invasões de tribos em áreas protegidas. Pode um país sobreviver sem florestas? Se eles acham que a Índia pode sobreviver sem florestas e água, então que seja”. O caso foi parar na Suprema Corte, onde grupos conservacionistas pediram a revogação de uma lei de 2006 que dá o direito de permanência nas florestas a quem mostrar que aquelas são suas terras ancestrais. O ‘x’ da questão é essa prova. Os povos indígenas indianos são os mais pobres e de menor escolarização e dificilmente entenderiam ou teriam documentos que provassem tal ancestralidade. Na semana passada, a Corte aceitou os argumentos dos conservacionistas e deu aos estados o poder de expulsar das florestas aqueles que não puderam comprovar seu direito de permanência. Os grupos de Direitos Humanos declararam que a decisão da Corte é um “desastre sem precedentes” e “o maior despejo em massa da história feito em nome da conservação”. A história foi contada pelo The Guardian.

 

Crises climáticas pouco cobertas pela mídia afetaram dezenas de milhões de pessoas em 2018

A mudança climática foi responsável pela maioria dos desastres humanitários subnotificados no ano passado, de acordo com uma análise de mais de um milhão de notícias online feita pela Care. O relatório Sofrendo em Silêncio mostra que as dez grandes crises humanitárias causadas pelas mudanças climáticas, em 2018, ocuparam menos de 3% das mais de 1,1 milhão de matérias publicadas pela mídia internacional sobre crises climáticas. A fome na Etiópia apareceu em 986 matérias e a crise humanitária no Haiti, em 503. No total, estas crises afetam diretamente dezenas de milhões de pessoas. Sven Harmeling, da Care, diz que “a mídia não deve ignorar essas crises e o papel da mudança do clima. Mais atenção da mídia ajuda a pressionar os tomadores de decisões em todo lugar a tomar as ações de longo alcance que a crise climática requer. Governos devem aumentar seus esforços em proteger e apoiar financeiramente aqueles afetados negativamente, particularmente mulheres e meninas, assim como rapidamente fazer a transição de combustíveis fósseis para energia renovável.” Oito das 10 crises se desenrolam em países da África: Sudão, República Centro-Africana, Nigéria, Etiópia, Chade, Congo e Madagascar. As outras duas estão acontecendo nas Filipinas e no Haiti. O The Guardian fala do relatório e traz alguns depoimentos. Asad Rehman, diretor da War on Want, coloca a culpa na “mídia climática (que) prefere (mostrar) fotos de ursos polares às de gente que está morrendo pela nossa falta de ação”.

 

O que matou os dinossauros?

Há 66 milhões de anos, em um curto período de tempo do registro geológico, 75% dos seres vivos morreram no que foi a última das 5 grandes extinções conhecidas. A teoria mais popular coloca a culpa na colisão com um enorme asteroide que caiu no que, hoje, é a Península de Yucatán, no sul do México. Sabe-se, porém, que, na mesma época, houve uma atividade vulcânica excepcionalmente forte na Índia, que originou uma formação basáltica conhecida por Escarpas de Deccan que cobre uma área do tamanho da Bahia e chega a atingir 2 km de altura. Tanto a poeira formada pela colisão como os gases dos vulcões podem ter dado a volta no globo, tapando o Sol e provocando uma noite de anos – o suficiente para matar plantas, herbívoros e carnívoros. A pergunta é: se o asteroide fez a Terra tremer tanto que disparou os vulcões, ou se os vulcões vieram antes, seus gases e poeira já estavam matando todo mundo e o asteroide só deu o golpe final. Na semana passada, a revista Science publicou, no mesmo número, dois trabalhos que refinam as datações das Escarpas de Deccan. Um deles sugere que os vulcões vieram antes do asteroide. O outro diz que, sim, houve um episódio de vulcanismo anterior, mas que não foi nem de longe o suficiente para o massacre, e que o impacto do asteroide provocou outro episódio de vulcanismo que, juntos, fizeram a vida sobre a Terra quase desaparecer. Assim, o mistério continua. Para Reinaldo José Lopes, da Folha, “o tema é importante não apenas para entender a ascensão dos mamíferos, grupo a que pertence o ser humano, quanto para se ter uma ideia do que ocorre num planeta que sofre mudanças climáticas extremas em pouco tempo.”

 

Para ler

Entrevista e artigo de David Wallace-Wells

Para quem se interessou pela nota da última 6a feira sobre o livro “The Uninhabitable Earth”, o autor, David Wallace-Wells, republicou o artigo que escreveu na New York Magazine, em julho de 2017, e que originou o livro. Wallace-Wells inseriu comentários de cientistas a respeito das afirmações que fez. Dada a repercussão obtida pelo livro, o The Atlantic entrevistou o autor.

 

Para ler

A nova base brasileira na Antártica

Lúcia Garbin publicou no Estadão uma série de artigos sobre a Antártica, começando pela nova base brasileira  e como vivem os cientistas que trabalham por lá. Em outro artigo, ela conta um

Para ler

A nova base brasileira na Antártica

pouco da história da exploração do continente. Ela e Roberto Godoy também escrevem sobre a ciência e as riquezas que motivam as grandes potências a manterem bases por lá.

 

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