ClimaInfo, 28 de fevereiro de 2019

ClimaInfo mudanças climáticas

Fundo Verde do Clima destina recursos à proteção florestal no Brasil

O Fundo Verde do Clima (GCF, na sigla em inglês), criado depois da COP de Copenhague, recebeu autorização para apoiar projetos conhecidos como REDD+, de redução de emissões por desmatamento e degradação florestal associada à promoção do desenvolvimento sustentável local. Este é um dos campos mais polêmicos de tudo que se discute sobre incentivos para a mitigação de emissões de gases de efeito estufa. A base é simples: dar recursos a quem protege a floresta. A conta de quanto carbono não foi parar na atmosfera por conta do projeto é complexa e fonte de eternos debates. Conta-se quanto carbono havia na floresta no começo do projeto. Como florestas não são fixas e imutáveis – uma floresta mesmo intocada ora tem mais carbono, ora tem menos – é preciso projetar quanto carbono haveria nelas na ausência do projeto. E compara-se essa projeção com quanto carbono havia na floresta ao final do tempo projetado. Ontem, o Fundo Verde do Clima aprovou o pagamento do primeiro projeto de REDD+, e o beneficiado foi um projeto brasileiro referente ao período 2014-2015; os US$ 96 milhões premiou quase 19 milhões de toneladas de carbono que não foram emitidas, junto com um adicional por “benefícios não carbono” pela promoção do desenvolvimento sustentável. Os membros do board do GCF colocaram condicionantes ao projeto. Para garantir que os recursos beneficiem as populações envolvidas com as áreas protegidas, estas devem ter acesso online a informações como as salvaguardas prometidas e a garantia da consistência do projeto com o arcabouço das políticas nacionais subjacentes. Em nota, o Ministério do Meio Ambiente  disse que “Serão lançadas chamadas pública para a adesão voluntária dos agricultores, indígenas e comunidades tradicionais”, e o Mongabay contou a história com uma lupa bastante crítica. O projeto foi apresentado no governo passado e ainda não se tem notícias quanto a reações do atual governo.

 

A soja – que vai chegando ao Jalapão de Guimarães Rosa – deve perder mercado para os EUA

Ana Lúcia Azevedo escreveu um lindo artigo n’O Globo sobre o Parque Nacional do Jalapão (Tocantins), suas dunas e lagoas únicas no Cerrado. Ela vai contando da paisagem, inspirada em Guimarães Rosa, aproveitando o relançamento pela Companhia das Letras de duas edições da saga de ‘Grande Sertão: Veredas’, uma comentada e outra para colecionadores: “A obra roseana se passa em sua maior parte na Minas Gerais natal do escritor e nos chapadões de Goiás. Mas, nas durezas e lonjuras do Jalapão, ela se faz intensamente presente: ‘É preciso de saber os trechos de se descer para Goiás, o chapadão por lá vai terminando, despenha. Tem quebra-cangalhas e ladeiras vermelhas terríveis (…) Por aí extremando, se chegava até no Jalapão’.” O texto de Ana Lúcia passeia por outras paragens próximas, contando as histórias das pessoas e comunidades, suas lutas e dificuldades. Na fronteira, os tempos modernos: “Nos chapadões, o sertão de Guimarães Rosa, sua gente e suas veredas se encontram com o futuro, materializado nas máquinas robóticas das plantações de soja da maior fronteira agrícola da Terra.”

Uma matéria do Diálogo Chino fala do percurso da soja, desde o norte do Mato Grosso, passando pelas estradas e rios amazônicos até seu embarque para a China. O foco da matéria são os impactos que estas viagens estão causando nos povos tradicionais, aos locais e à economia da região. A matéria, publicada no começo da semana passada, comenta o aumento das exportações brasileiras na esteira da guerra comercial entre a China e os EUA, quando um revide dos chineses colocou uma sobretaxa na soja americana.

Só que o prazo para o final da atual trégua na guerra comercial entre China e EUA se esgota hoje. Os chineses, preocupados, prometeram não só retirar a sobretaxa, como também garantiram a compra de muitos milhões de toneladas de soja, para azar dos produtores nacionais, que podem ver, logo mais, os preços de seu produto não compensarem os custos.

 

Os maiores latifundiários do país não são índios

O jornalista Claudio Angelo mostra que o uber-ruralista Nabhan Garcia se enganou redondamente ao dizer que o maior latifundiário do Brasil é o índio. Claudio teve a paciência de explicar que “essa entidade – o índio – não existe. São 250 povos, falantes de 150 línguas diferentes, vivendo em realidades geográficas diversas, com costumes e relação com a sociedade não-índia bastante diferentes. A única coisa a uni-los é o infortúnio histórico de terem estado por aqui naquele 22 de abril e sobrevivido os 519 anos seguintes”. Claudio parte, então, para as contas. Cria uma unidade latifundiária, à que dá o nome de ‘IndiMaggi’, calculada a partir da área das fazendas do ex-ministro Maggi e de suas 4 irmãs. Um IndiMaggi é equivalente a 50.000 hectares por indivíduo Maggi. Claudio pega um dos exemplos mais citados como índios “latifundiários”, os ianomâmis, e mostra que cada um deles tem 100 vezes menos terras do que cada membro da família Maggi. Os guaranis de Dourados, no Mato Grosso do Sul, por sua vez, têm ¼ de hectare por pessoa, ou 200.000 vezes menos do que um dos Maggi.

Se a narrativa de Nabhan é ficção, os assassinatos de índios não o são. Nesta madrugada, um cacique da etnia Tukano foi morto a tiros na casa em que morava, na comunidade Urukia, na Zona Norte de Manaus. E, na 2a feira, foi encontrado um outro indígena morto, carbonizado na cidade de Águas Belas, no agreste pernambucano. Claudio Angelo, no seu artigo, diz que a narrativa de Nabhan dá “a senha a invasores de terras indígenas e ao crime organizado fundiário para entrar e ficar à vontade”.

 

Energia renovável para Roraima

Conforme se agrava a crise na Venezuela, se agravam também os problemas com a falta de energia elétrica em Roraima. Blackouts e cortes no fornecimento têm obrigado o acionamento de termelétricas, ao elevado um custo de R$ 2 mil/MWh. O governo federal tenta, há tempos, integrar Roraima à rede nacional de distribuição por meio de uma linha de transmissão de 715 km que ligaria a capital, Boa Vista, a Manaus. Mas a obra atravessa 120 km da Terra Indígena Waimiri-Atroari, o que tem colocado muitos problemas para a obtenção da licença de instalação. Segundo a Folha de S. Paulo, o governo propôs, ontem, ao Conselho de Defesa Nacional, o enquadramento da linha como empreendimento de infraestrutura de interesse da política de defesa nacional, na esperança que isto facilite o processo. Mesmo esta medida não resolveria o problema no curto prazo, já que, a partir da emissão da licença de instalação, seriam necessários 3 anos para sua construção.

Tasso Azevedo, do Observatório do Clima, defende n’O Globo o uso das fontes solar e eólica acopladas a um sistema de baterias que garanta a constância do fornecimento. Estima-se que, somente no norte do estado, o potencial eólico supere os 3 GWh, enquanto torres experimentais instaladas pelos Makuxis para gerar energia para o consumo de suas comunidades demonstraram um potencial maior do que a demanda do estado, e isto só considerando a área da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Além disso, Roraima tem um potencial fotovoltaico médio de 5 KWh/m2/dia, de modo que, com apenas 1 km2 de painéis solares, seria possível dar conta de toda demanda de energia do estado, que é de aproximadamente 210 MWh médios. Um parque de baterias para estabilizar as energias solar e eólica ocuparia uma área de apenas 0,1 km2. Tasso estima que o investimento total para um sistema eólico/solar/bateria ficaria entre US$ 1,5 e 2 bilhões, e este poderia ser implantado de forma modular ao longo de 2 anos, gerando energia já a partir dos primeiros meses de implantação. Tasso, e a equipe do ClimaInfo, torcem para que um projeto deste tipo concorra ao leilão de energia para o estado que está agendado para maio, e coloque Roraima no mapa mundial como o primeiro totalmente abastecido pelo modelo eólico/solar/baterias.

 

Etanol e biodiesel nacionais ainda são renováveis para os europeus

Embora as compras europeias de etanol e biodiesel de soja do Brasil sejam irrisórias, o aval da Comunidade Europeia (CE) é importante para garantir um preço melhor. Assim, o anúncio de que a CE ainda considera os dois como biocombustíveis renováveis foi recebido com alívio. A CE leva em consideração os impactos na produção de alimentos, no desmatamento, na degradação de ecossistemas e a contribuição para o estresse hídrico, dentre outros. A Única e a Aprosoja acompanharam as avaliações e trabalham para reforçar o caráter sustentável dos dois biocombustíveis.

 

Glifosato é ameaça para trabalhadores e população próxima às lavouras

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) demorou quase dez anos para avaliar o herbicida mais vendido no mundo. “A principal conclusão da reavaliação é que o glifosato apresenta maior risco para os trabalhadores que atuam em lavouras e para as pessoas que vivem próximas a estas áreas. Por isso, as principais medidas propostas estão relacionadas ao manejo do produto durante a sua aplicação e a sua dispersão”. Porém, a agência concluiu que o glifosato não faz mal a quem consome produtos com ele tratados. As agências responsáveis nos EUA e na Europa chegaram a vereditos semelhantes, embora a OMS (Organização Mundial da Saúde) tenha classificado o glifosato como categoria 2A, “provavelmente cancerígeno em humanos”.

 

As emissões dos celulares e das redes de comunicação

Um único celular não incomoda o planeta, mas os bilhões de celulares existentes aparecem no mapa das emissões. Cada aparelho contém metais raros cujo processo de mineração e purificação consome eletricidade. Para funcionar, estes aparelhos e a parafernália informática do mundo moderno, precisam estar conectados às antenas das células e a poderosos servidores e data centers que também consomem uma montanha de eletricidade. Cada vez mais os data centers e os processos de produção de chips e celulares se localizam na China. E a eletricidade chinesa, pelo menos por enquanto, consome muito carvão. Há 12 anos estimava-se que o conjunto desta obra emitia apenas 1% dos gases de efeito estufa de todo o mundo. Mas a projeção para 2020 é de que estas emissões cheguem a 3,5% do total global, mais do que as emissões brasileiras. Em 2040, se a China e a Índia não mudarem suas matrizes elétricas, as emissões de data centers e da produção de celulares representarão 14% das emissões globais e serão, de longe, a indústria mais poluente do mundo. A matéria do UOL diz que, “na próxima vez que pensar em poluição, esqueça o escapamento. Pense no seu celular.”

 

Calor recorde no inverno do Reino Unido

Estudo revela que muito rapidamente aceitamos os extremos climáticos como coisa normal

O Reino Unido teve na última 3ª feira o dia de inverno mais quente de sua história. Em Londres, foi registrada a temperatura de 21,2°C. O 2º dia de inverno mais quente da história da ilha foi a última 2ª feira, quando a temperatura em Londres chegou a 20,6°C. O Met Office disse que temperaturas acima de 20°C no inverno “são excepcionais”, e a BBC News comentou: “partes da Grã-Bretanha têm sido mais quentes do que destinos turísticos como Ibiza.”

Pouco a pouco, o aquecimento global está transformando o clima do planeta e, aparentemente, a população não percebe, talvez porque a mudança é insidiosa, o que faz com que as pessoas não se dêem conta de já a estarem vivendo. Um estudo publicado na Proceedings of the National Academy of Science mostra que nós aprendemos a aceitar o clima extremo como normal em bem pouco tempo, “coisa de dois anos“. O estudo analisou mais de dois bilhões de mensagens do Twitter em busca de compreender como as pessoas reagem a eventos climáticos extremos. Os pesquisadores descobriram que, quando os usuários do Twitter passam por condições climáticas extremas às quais não estão acostumados, as discutem fortemente. Mas “se os usuários vivem em locais que já experimentaram estes eventos nos últimos anos, “mesmo que o clima seja extremo em comparação com a linha de base, as pessoas tendem a não tuitar sobre o assunto (…) Isso pode levar as pessoas a subestimar a extensão do aquecimento global, uma vez que ele já causou mudanças extremas de temperatura”.

 

Cientistas conseguem transformar CO2 em carvão em experiência revolucionária de captura de carbono

Cientistas da Universidade de Melbourne conseguiram converter CO2 em partículas sólidas de carbono, usando um método de “eletrólise de metal líquido”, que, segundo eles, oferece uma forma alternativa “segura e permanente” de remoção de CO2 da atmosfera. As técnicas atuais de captura de carbono envolvem a transformação do gás em um líquido, enquanto a nova técnica – publicada na Nature Communications – resulta em flocos sólidos de carbono semelhantes ao carvão e que podem ser mais fáceis de armazenar com segurança.

O pesquisador líder, Torben Daenecke, disse que “até hoje, o CO2 só foi convertido em sólido a temperaturas extremamente elevadas, o que é industrialmente inviável. Ao usar metais líquidos como catalisadores, mostramos que é possível transformar o gás em carbono à temperatura ambiente, num processo que é eficiente e escalável. Embora mais pesquisas precisem ser feitas, é um primeiro passo crucial para o fornecimento de armazenamento sólido de carbono.”

 

A próxima extinção em massa pode estar logo à frente

“O Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno (MTPE) é um período da história planetária tão sinistro quanto o nome sugere”. Durante o MTPE, a concentração de dióxido de carbono aumentou rapidamente e a temperatura média global também. A ciência indica que a metade de seres microscópicos do tipo protozoários que habitava os mares morreu porque a água também esquentou. A matança dizimou animais em terra e a Terra levou mais de 150 mil anos para se recuperar do choque. Um trabalho que acaba de ser publicado na Geophysical Research Letters diz que a concentração de dióxido de carbono está aumentando mais rapidamente do que no MTPE e, se não for contida nos próximos 140 anos, segundo artigo na Gizmodo, “teremos criado o início da atmosfera do MTPE versão 2.0. Daqui a 260 anos, devemos atingir o pico do MTPE (…) Essas novas revelações são um forte lembrete do que nossos netos terão pela frente se não mudarmos.” A Meio Ambiente Rio também publicou uma matéria igualmente pessimista.

 

Errata:

Ontem, ao comentarmos o subsídio à conta de luz dos produtores, escrevemos que eles “continuarão a pagar entre 25% a 35% do que um consumidor residencial”. Na verdade, eles pagam em torno de 70% do que paga um consumidor residencial. A frase deveria ter sido “entre 25% a 35% a menos”.

 

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