ClimaInfo, 13 de março de 2019

ClimaInfo mudanças climáticas

Congresso pode rejeitar retrocessos do governo Bolsonaro

Duas notícias dão conta que o congresso pode rever alguns dos retrocessos contidos em medidas provisórias assinadas por Bolsonaro. O DCI relata que o Ministério Público emitiu uma nota técnica defendendo o retorno das demarcações de Terras Indígenas para a alçada do Ministério da Justiça. Aliás, uma Câmara do Ministério Público entende que a transferência fere a Constituição. A medida provisória, na verdade, abrange toda a movimentação de atribuições que o presidente assinou no primeiro dia de trabalho do seu mandato. Ainda tramitando pelo congresso, ela já recebeu mais de 540 emendas de deputados e senadores.

Segundo o Canal de Notícias da Câmara, o deputado Alexandre Padilha, ex-Ministro da Saúde, apresentou um projeto de lei que anula três atos do Ministério da Agricultura sobre novos registros de agrotóxicos no Brasil, invalidando os registro das cerca de 60 substâncias liberadas neste ano. Padilha argumenta que algumas dessas substâncias estão proibidas nos Estados Unidos e na União Europeia, e que sua liberação coloca em risco quem aplica, quem consome e traz o risco de sanções comerciais à agricultura brasileira.

 

Ex-ministro defende agricultura sem subsídios e com impostos à altura

Luis Carlos Guedes Pinto deu uma bela entrevista ao Instituto Escolhas. Ex-Ministro da Agricultura no primeiro mandato de Lula, ele é presença destacada tanto na academia quanto nos gabinetes governamentais, isso sem nunca ter sido proprietário de terras. Dentre outras, a conversa girou em torno de dois pontos importantes: o Imposto Territorial Rural e os subsídios à produção agrícola. Nas contas que fez, o professor Guedes Pinto estima que a cidade de Campinas arrecada muito mais por meio do IPTU do que o governo federal consegue com o imposto rural de todo o país. No Brasil, o ITR representa 0,06% da arrecadação federal, enquanto representa 5% nos EUA e no Canadá, 6% no Uruguai e 4,5% no Chile. Luis Carlos dá um exemplo grotesco: no “Pará, a distorção é tamanha que um proprietário pagou R$ 11 de imposto rural quando ele deveria ter pago R$ 142 mil.” Ele conta como a forte presença do agronegócio no congresso desde “tempos de antanho” não deixou que o imposto assumisse qualquer importância e que, portanto, seja inútil como instrumento de política pública. O professor fala também dos subsídios ao produtor rural, e comenta que, no final do século passado, “aumentou bastante o crédito rural para a agricultura familiar, apesar de a maioria dos produtores familiares não terem crédito rural até hoje. Eles estão marginalizados. Muitas vezes nem acesso ao Bolsa Família têm. Volto a dizer, como o produtor empresarial não necessita de subsídio, o governo deveria usar os recursos destinados a eles para programas especiais de crédito com subsídio para, por exemplo, recuperar áreas já degradadas.”

 

É na fronteira entre os biomas da Amazônia e do Cerrado onde mais se desmata

Nos mapas, uma linha fina separa os biomas da Amazônia e do Cerrado. Mas um trabalho recém-publicado na Biodiversity and Conservation mostra que tal linha é, na verdade, uma faixa larga e complexa onde os biomas se entrecruzam. A representação desta fronteira como uma linha não contribui para que se reconheça e preserve a biodiversidade da região. Como dizem os autores, “a complexidade das fronteiras entre Florestas Tropicais e o Cerrado tem sido mal interpretada e mal representada (…) Como consequência, a perda de vegetação chegou a níveis próximos do colapso nas áreas de atividade humana intensa.” Áreas que deveriam estar no bioma amazônico, aparecem no mapa como sendo Cerrado e, assim, com maior probabilidade de perda florestal. O autor-líder do trabalho, Ben Hur Marimon, disse para O Eco que “a agropecuária é o grande motor do desenvolvimento do Centro-Oeste brasileiro, mas é preciso garantir a manutenção das florestas nativas para que elas continuem cumprindo o seu papel na regulação climática. Por isso, apontamos para a necessidade urgente da criação de uma zona especial de amortecimento ao sul e sudeste da Amazônia para preservar a vegetação e garantir chuvas regulares para as lavouras e pastagens da região”.

 

A crise humanitária do clima começa pela fome

Ben Ehrenreich foi à Somalilândia, em 2017, e conta no The Nation que a mudança do clima por lá é sinônimo de uma fome trágica. No ano anterior, as chuvas de outono não vieram. Também não vieram na primavera, e as pessoas contavam que tinham perdido 90% de seus rebanhos. Ele descreve que, quando se começa a ver animais mortos, é sinal de que está se aproximando de uma vila. Por toda parte, houve uma migração para os arredores das cidades formando comunidades “sem perspectivas a não ser de mais perdas”. No ano passado, as chuvas da primavera voltaram, mas os rebanhos já haviam sido perdidos e, quando as de outono novamente vieram fracas, a ameaça da fome se intensificou. Ehrenreich conta esse drama para mostrar que a mudança do clima está aí e tem consequências trágicas e duradouras, que destróem o modo de vida de populações que já vivem em situação de miséria. “A invisibilidade de longa data, por parte de poucos privilegiados, da maioria dos pobres do planeta foi agravada e ampliada. A miopia e a cegueira encontram temperaturas e mares crescentes para formar mais uma convergência catastrófica.”

Em tempo: a Somalilândia declarou sua independência da Somália em 1991, mas não foi reconhecida internacionalmente. Ela fica no nordeste da Somália, quase no chifre da África.

 

ONU discute esgotamento de recursos naturais

O primeiro aviso de que os recursos naturais eram finitos apareceu há mais de 50 anos. De lá para cá, todo ano a ONU Meio Ambiente promove uma reunião para avaliar o estado desses recursos. E, desde então, a população mundial dobrou, o PIB global quadruplicou e a extração de recursos naturais triplicou, abrangendo metais como o ferro, outros minerais como areia e sal e, principalmente, água e biomassa. Este ano, a ONU lançou dois trabalhos importantes. Um deles, o Global Resources Outlook 2019, contém a fotografia da situação atual. O outro, o Global Material Resources Outlook to 2060, lança um olhar para 2060, mapeando as principais forças econômicas e consequências ambientais dessa superexploração. Os trabalhos foram coordenados pelo International Resources Panel (IRP), do qual Izabella Teixeira, ex-Ministra do Meio Ambiente, é copresidente. Um outro copresidente, Janez Potocnik, disse que “não há possibilidade de um futuro sustentável sem que se descole o crescimento econômico do uso intensivo dos recursos naturais.” Daniela Chiaretti conta no Valor o que viu na reunião.

Em tempo: o acidente com o avião da Ethiopian Airlines matou cientistas, pesquisadores e ativistas a caminho de Nairóbi para esta reunião.

 

Investidores querem tirar todo o carvão do portfólio do HSBC

No ano passado, o HSBC avisou que deixaria de financiar novas térmicas a carvão. Só que deixou aberta a possibilidade de apoiar o carvão “durante uma pequena janela temporal em países onde parte da população não tem acesso à eletricidade e onde não há alternativas razoáveis de geração”. Na semana passada, um grupo de acionistas e investidores mandou uma carta para o CEO do banco, instando-o a fechar completamente a porta a projetos de carvão.

 

Índia aumenta subsídios ao carvão

O governo indiano alocou mais de US$ 4,5 bilhões para salvar a geração a carvão nos estados de Uttar Pradesh e Bihar. O dinheiro servirá para garantir contratos, tanto os de suprimento de carvão quanto os de venda da eletricidade. A medida, claro, bate de frente com os incentivos que o mesmo governo dá às fontes limpas, principalmente à geração distribuída solar fotovoltaica. A Índia é o 4o maior emissor de gases de efeito estufa do mundo, atrás da China, dos EUA e da União Europeia, principalmente por conta da queima de carvão.

 

O impacto da mudança do clima na produção de grãos chegará em 20 anos

Um estudo de modelagem do clima estima que, em cerca de 20 anos, 14% das áreas de lavouras de trigo, milho, arroz e soja estarão permanentemente mais secas em relação ao período 1986 – 2005. Estes 4 grãos respondem por 40% do consumo global de calorias e são vitais para alimentar a crescente população mundial. As regiões que tenderão a ficar mais secas incluem o sudoeste da Austrália e da América do Sul, o sul da África, a região central do México e o Mediterrâneo. Vários dos principais produtores de trigo verão tempos mais secos: Austrália, Algéria, Marrocos, África do Sul, México e Espanha. Lembrando que, no Hemisfério Norte, as áreas com menor precipitação no futuro respondem, hoje, por 11% da produção mundial de trigo e 8% da produção de milho. O Daily Mail traz uma matéria a respeito do estudo.

 

Faltam 3 dias para o mundo ver seus jovens lutando contra a inação frente à crise climática

Nesta 6a feira (15/3), jovens de todo o mundo não irão às aulas em defesa de seu próprio futuro. Eles exigem que os líderes de governos e de corporações tomem as medidas drásticas imprescindíveis para conter o aquecimento global. No Brasil, acontecerão manifestações em Belo Horizonte, Brasília, Florianópolis, Goiânia, Juazeiro do Norte, Mogi das Cruzes, Peruíbe, Recife, Rio de Janeiro, Santa Maria, Santos, Socorro e São Paulo. Este mapa mostra onde acontecerão as manifestações.

Desde a COP do ano passado, toda 6a feira, uma americana de 13 anos se senta em frente ao prédio da ONU com dois cartazes – um dizendo que a COP os traiu e outro anunciando a greve às 6as. Para Alexandria Villasenor, “minha geração sabe que a mudança climática será o maior problema que teremos que enfrentar. É chato que minha geração tenha que pressionar esses líderes a tomar ações. Nós não vamos parar até que mais leis sejam aprovadas”. Nos EUA, espera-se que mais de cem mil jovens deixem de ir às aulas nesta 6a feira. Na Escócia, milhares de estudantes conseguiram permissão do governo para protestar contra o clima. Na Austrália também espera-se a adesão de milhares de estudantes. O jornal espanhol El País publicou uma carta aberta de uma liderança do grupo de coordenação global da Juventude pelo Clima.

 

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