ClimaInfo, 25 de março de 2019

ClimaInfo mudanças climáticas

MapBiomas Amazônia: bioma amazônico perdeu florestas em área equivalente a um Equador

Na semana passada foi lançada uma análise da Amazônia feita pelo MapBiomas. O MapBiomas Amazônia abrange toda a bacia e a floresta amazônica, desde os Andes, passando pela planície amazônica e incluindo as transições com o Cerrado e o Pantanal. É um território de mais de 7 milhões km2 em nove países. Um dado importante foi destacado pelo pessoal do Observatório do Clima: entre 2000 e 2017, o bioma perdeu quase 300 mil km2, uma área maior do que a do Equador ou a do Rio Grande do Sul, mas ainda restam 85% das áreas com florestas. Houve um acréscimo de 41% da área de agropecuária. O trabalho é fruto de uma parceria entre o MapBiomas e a Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (RAISG). O ISA também deu a notícia.

 

MapBiomas Amazônia: bioma amazônico perdeu água em área equivalente à de Belo Horizonte

Entre 1985 e 2017, perdeu-se cerca de 350 km2 de superfície de água por ano devido à mudança nas dinâmicas dos rios do bioma amazônico. Bernardo Caldas de Oliveira, do WWF-Brasil, explica que “o problema não é só a perda total de superfície, mas entender onde isso está acontecendo. Os rios têm sua dinâmica de inundação e seca. Existe uma variação natural, com anos mais cheios e anos mais secos, mas temos visto que não tem ocorrido a recuperação após uma temporada mais seca. São justamente as várzeas as regiões mais sensíveis que estão sendo mais afetadas; elas estão deixando de ter água”. O pico desta perda de água aconteceu por conta da grande seca de 2010 e o ‘menos água’ passou a ser o novo normal. Os pesquisadores listam uma combinação de causas: as novas hidrelétricas, o desmatamento e, claro, a mudança do clima. Giovana Girardi escreveu sobre a perda de água no Estadão.

 

Brasil: as várias forças que deterioram a água

Por conta do Dia Internacional da Água, na 6ª passada (22/3), foram publicadas várias matérias sobre a situação calamitosa do saneamento em vários pontos e sistemas. O monitoramento feito pela SOS Mata Atlântica em 220 rios de 17 estados brasileiros, segundo Malu Ribeiro, indica que os rios “enfrentam o descaso e diversas agressões diárias ao atravessar regiões metropolitanas, áreas urbanas e agrícolas. Esses rios estão, portanto, por um triz.” Os exemplo gritantes são o Doce e o Paraopeba, que, agora, carregam toneladas de metais das barragens de mineração que desabaram. A matéria de Malu Ribeiro também foi publicada na Folha, junto com outras matérias falando da situação da água no Brasil e no mundo. Vale destacar a matéria que mostra a quantidade de água usada na fabricação de produtos como uma folha de papel (10 litros) e um carro (400 mil litros). André Trigueiro escreveu sobre o assunto para O Globo. O Estadão também publicou várias matérias sobre os problemas da água no Brasil. Giovana Girardi destacou um estudo sobre que Santos lança ao mar: “Santos despeja 60 toneladas de resíduos sólidos no mar por dia; 85% disso é plástico”.

Por falar em mar, no começo do mês completou o programa para despoluição da Baía de Guanabara completou 25 anos. Segundo o pessoal do Colabora, “após oito governos e um rosário de obras inacabadas e reiteradas promessas vazias, restou aos fluminenses pagar os juros milionários da intervenção ambiental que ganhou notoriedade por representar um flagrante fracasso. Com aporte de mais de R$ 2 bilhões, (…) o primeiro grande programa de recuperação ambiental da Baía de Guanabara foi incapaz até mesmo de inaugurar uma nova era de transparência na aplicação de recursos e no acesso às informações.”

E tem a contaminação de cursos d’água por agrotóxicos. Mara Gama escreveu para a Folha que foi detectada em 100 cidades de várias regiões de Santa Catarina “a presença de agrotóxicos na água de abastecimento público (…) Das 17 substâncias encontradas, sete estão proibidas na União Europeia, por causarem danos à saúde.” E o Brasil de Fato denunciou que, dos 306 agrotóxicos registrados (e a lista continua a aumentar), o sistema nacional de monitoramento de água potável consegue detectar apenas 27. O quadro é ainda pior porque muitas amostragens são coletadas em momento defasado daquele de aplicação dos agrotóxicos.

 

Mais uma barragem da Vale “sobe no telhado”

Na 6ª feira, a prefeitura de Barão de Cocais colocou em alerta máximo a Barragem Sul Superior da Mina do Gongo, da Vale. A empresa disse que não há risco imediato e que o nível de alarme é uma “medida preventiva [que] se faz necessária, tendo em vista o fato de o auditor independente ter informado a condição crítica de estabilidade da barragem”. Barão de Cocais fica a 100 km a leste de Belo Horizonte e um pouco ao norte do local do desastre da Samarco.

 

Bolsonaro honrará uma promessa

No Chile, o presidente Bolsonaro agradeceu ao presidente Piñera por hospedar a COP25 e disse que o seu governo não assinará nenhum acordo climático durante a Conferência. Esta promessa ele cumprirá facilmente, já que não há nenhum acordo climático sendo levado para assinatura neste ano.

 

Manifesto de profissionais contesta desmonte ambiental promovido por João Doria e Gustavo Junqueira

Manifesto de cinco associações profissionais denuncia um “desmonte do meio ambiente” promovido pelo governador de São Paulo, João Doria. O governo criou uma Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente (SIMA), na qual submeteu a área ambiental às áreas de energia e mineração. Em março, o setor responsável pela implantação do código florestal foi transferido para a secretaria da agricultura. O manifesto reclama do gritante conflito de interesses criado pela colocação dos fiscalizador e do fiscalizado debaixo da mesma secretaria. Reclama também deste processo ter “sido conduzido sem qualquer participação das equipes técnicas e administrativas das áreas afetadas e tampouco do restante da sociedade”.

Na semana passada, Ana Carolina Amaral, da Folha, conversou com o secretário da agricultura do estado, Gustavo Junqueira. O secretário tem larga experiência como produtor rural, como presidente da Sociedade Rural Brasileira e foi um dos que trabalharam para o surgimento da Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura. Ele tem uma visão particular: “Nós tivemos um trabalho de alto sucesso do ambientalismo desde o início dos anos 90, com a Rio 92, que é um ambientalismo de conscientização. Foi super bem-sucedido. Na minha opinião, a partir da COP de Paris e do Acordo de Paris (2015), entramos numa nova fase, que é a do ambientalismo operacional. Como é que você implanta? Você precisa estar dentro das propriedades. Dentro da operação. Quem está dentro da operação? A agricultura. Se eu não incorporo isso, se não trago isso para dentro da agricultura, eu continuo com as coisas estanques.” Com essa visão, Junqueira justifica dissolver institutos, colocar temas como a zeladoria da biodiversidade e a proteção de um bem social, que é a do meio ambiente, debaixo do comando de um produtor rural.

 

China promoverá uso de metanol em automóveis

A newsletter do China Dialogue informa que o governo chinês divulgou orientações para a utilização de metanol como alternativa à gasolina em automóveis. O metanol é produzido a partir do hidrogênio e do monóxido de carbono. Normalmente, a matéria-prima vem de derivados do petróleo, do gás natural ou do carvão, mas é possível produzir hidrogênio via eletrólise, bem como monóxido de carbono da biomassa ou de emissões industriais. Atualmente, utilizado em automóveis de corrida, o metanol ainda não foi comercializado para veículos de rua. A orientação do governo afirma que as políticas industriais e os padrões técnicos serão melhorados para facilitar a adoção do combustível. Os veículos serão utilizados principalmente nas províncias de Shanxi, Shaanxi, Guizhou e Gansu, onde estão sendo realizados testes-piloto desde 2012.

 

O que os Coletes Amarelos pensam sobre as mudanças climáticas?

Em dezembro, Donald Trump se regalou como uma abelha em pote de mel falando dos protestos dos franceses contra os novos impostos sobre combustíveis. Mas será que os manifestantes que ficaram conhecidos pelos coletes amarelos negam a mudança do clima? O Climate Home News foi às ruas de Paris e encontrou um debate vigoroso, mas que não minimiza a importância do enfrentamento das mudanças climáticas. Os autoproclamados líderes dos protestos estão procurando unir forças com o meio ambiente: “As emergências sociais e ecológicas são inseparáveis: as lutas contra o fim do mundo e para esticar o salário até o fim do mês são as mesmas”, disse François Boulo na maior marcha climática que ocorreu na França no sábado 16 de março.

 

Ciclone Idai: rastro de destruição, abandono e injustiça

Mia Couto, um dos mais importantes escritores contemporâneos da língua portuguesa, nasceu na Beira, em Moçambique, cidade que hoje segue embaixo d’água por conta do Ciclone Idai. Para Mia, “apoio moral não é fundamental, preciso mesmo é do material”. Ele pede contribuições por meio da Fundação Fernando Leite Couto. Até ontem, Mia não havia conseguido voltar a Moçambique, como explica em uma mensagem: “Na verdade, estou eu quase tão destruído quanto a minha cidade. Estava determinado a ir para a Beira para mergulhar no espírito do lugar e, agora, segundo me dizem, quase não há lugar. É como se me tivessem arrancado parte da infância (…) E o problema é bem maior que a Beira. Todo o centro de Moçambique está por baixo de água: estradas, casas, torres de energia e de telecomunicações estão destruídas. Não consigo saber dos meus amigos que vivem na Beira.”

A contagem de mortos ainda está longe de terminar. A Euronews fala em mais de 700 mortos e centenas de milhares de desabrigados. A BBC publicou o relato de um consultor de agricultura e florestas do Zimbabwe que viajou para Beira e conta ter visto 200 corpos na beira da estrada. A missionária brasileira Noemia Cessito descreveu assim o drama para Rafael Balago: “As chuvas encheram as barragens, que foram abertas e geraram enchentes que destruíram as estradas. Há buracos muito profundos nelas. Não dá para passar, então não chega água nem comida. As pessoas estão andando pelas ruas em busca de algo para comer”.

Comentando o ciclone Idai, o PhD em ciências atmosféricas da Universidade Estadual do Ceará, Alexandre Costa, disse em seu blog que “Moçambique foi vítima (…) do petróleo [e acrescentamos, do carvão] (…) daquele tirado do subsolo de outro lugar, queimado e despejado na atmosfera como CO2. De uma vez por todas, é necessário que caia a ficha: o aquecimento global, ao elevar a temperatura dos oceanos tropicais e aumentar a capacidade da atmosfera em armazenar vapor d’água, está produzindo e produzirá cada vez mais tempestades extremamente severas e mortíferas.” O The Guardian reforçou a conexão entre a queima de combustíveis fósseis no mundo rico – e o consequente aquecimento global – com os desastres humanitários que se abatem sobre os países pobres que emitem pequenas quantidades de gases de efeito estufa.

 

Branqueamento ameaça sobrevivência de corais no litoral paulista

Cientistas estão observando um branqueamento em massa de corais no litoral norte de São Paulo. Segundo os pesquisadores, é um dos eventos mais graves desse tipo já documentados no Brasil. O fenômeno está associado a um superaquecimento das águas costeiras do Sudeste, registrado no início deste ano, com temperaturas que chegaram a 33 graus Celsius. “Estamos vendo coisas que nunca vimos antes por aqui”, disse, alarmado, o pesquisador Miguel Mies, do Instituto Oceanográfico da USP ao jornalista Herton Escobar. “Olha a cor desse coral”, completa ele, apontando para a foto de uma colônia de coral-cérebro, totalmente branca, reluzida em meio às rochas no mar de Ubatuba. O branqueamento é uma resposta natural de defesa dos corais a situações de estresse térmico, mas que pode levá-los à morte em condições extremas – o que, segundo os cientistas, está se tornando cada vez mais frequente no mundo todo. Eventos recentes de branqueamento em massa, associados ao aquecimento global, já mataram diversos recifes ao redor do mundo, incluindo grandes porções da Grande Barreira de Corais, na Austrália. O problema também está presente no Nordeste. Estudo recém-publicado na Coral Reefs detalha os efeitos do branqueamento de 2016-2017 sobre os corais do Banco dos Abrolhos, a região de maior biodiversidade marinha do Atlântico Sul. A preocupação lá é a mesma: apesar da mortalidade ser baixa por enquanto (menos de 3%), não se sabe até quando os corais resistirão a esses assaltos repetitivos do aquecimento global. Mais informações sobre o branqueamento de corais na reportagem especial Recifes em Risco.

 

Para ir e ler:

Capitalismo e Colapso Ambiental

A 3ª edição atualizada do livro do historiador Luiz Marques discute o que mudou desde outubro de 2015, quando do lançamento da 1ª edição: essencialmente, “mudou a percepção de que o colapso socioambiental não é mais algo que se desenha em nosso horizonte. Ele já está ocorrendo, aqui e agora.” O lançamento acontece hoje, 2ª feira, 25 de março, às 15h, no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp.

 

Para ver:

Floresta Iluminada – energia limpa para os povos da Amazônia

Os três episódios da websérie mostram a importância da energia limpa para índios e ribeirinhos da Amazônia. “Estar no escuro não é só falta de luz. É também quando não temos conhecimento. Nós queremos energia, mas queremos que ela venha com respeito ao meio ambiente e aos povos indígenas”. Aqui nós temos vento de sobra. Então temos que aproveitar esse vento. Com a energia solar você provoca uma soberania energética para as comunidades”. O documentário, dirigido por Fernanda Ligabue, estará disponível no canal do ISA no YouTube, a partir da quarta-feira (27/3). O lançamento será na Feira Simpósio Energia e Comunidades, em Manaus, nesta terça-feira, 26/3. Saiba mais aqui.

 

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