Cicloclimáticos pedalando na contramão: três histórias de resistência ambiental em um período de descrença

O grupo Cicloclimáticos, pedalando, busca pessoas que em diferentes locais e situações estão se adaptando à sua própria maneira à mudança do clima

 

João Henrique Alves Cerqueira, Igor Vieira e Beatriz Paggy – 27/4/2019

 

Quando falamos sobre mudanças climáticas, a conversa costuma seguir um caminho tenebroso no qual são mencionados os impactos ambientais que aparecem nos jornais, a relação do desenvolvimento da humanidade com o clima, como os oceanos vão engolir cidades e como a ordem das coisas será alterada num piscar de olhos.

 

Para inspirar comoção, falamos das secas históricas, queimadas sem precedentes, aumento da insegurança nutricional, migrações forçadas, enchentes extremas, conflitos civis, perda de biodiversidade e, tragédia após tragédia, é pintado um cenário hollywoodiano pós-apocalíptico em meio ao qual pessoas disputam suas vidas por água e gasolina.

 

Não que as previsões do clima futuro sejam exageradas, são conclusões da ciência climática. Porém, pouco falamos dos incontáveis esforços de pessoas que em todos os cantos do mundo trabalham para reverter e se adaptar à esse processo e – com o perdão ao clichê – fazer do mundo um lugar melhor.

 

Contamos aqui a história de três brasileiros que nossa equipe conheceu em viagens ciclísticas. Pessoas de diferentes contextos e regiões que, mesmo à distância, compartilham a necessidade que tiveram de se adaptar aos impactos ambientais causados por um problema global que parece estar muito distante de suas responsabilidades individuais.

 

As viagens começaram quando alguns amigos decidiram partir de bicicleta em busca de comunidades que vivem em regiões de maior vulnerabilidade às mudanças do clima no Brasil. A ideia inicial era buscar histórias de quem está na linha de frente dos impactos da crise climática global e que nos ajudassem a entender como essas pessoas estão se adaptando. De lá pra cá, já foram pedalados cerca de 500 km no Paraná, São Paulo e Distrito Federal conhecendo pessoas reais, suas aflições, suas alegrias. Aprendemos muito com as suas lutas em defesa do território em que estão e sobre como todos nós podemos seguir em frente em meio ao caos.

 

Reflorestamento na represa

 

Encontramos dona Edite fazendo contas sentada na varanda de sua casa rodeada por boletos e carnês. Com o olhar meio desconfiado, aceitou contar pra nossa equipe como foram os últimos anos morando às margens de uma das represas que fazem parte do sistema Cantareira, em Nazaré Paulista, a cerca de 40km da Capital de São Paulo. A cidade pequena de rotina pacata foi um dos focos da maior crise hídrica da história recente do país.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O sistema de represas, responsáveis pelo abastecimento de cerca de 8,8 milhões de pessoas, atingiu aproximadamente de 2,9% de sua capacidade em 2014, levando ao quase-colapso o abastecimento da maior região metropolitana do Estado mais populoso do país. Os anos que antecederam a crise foram marcados por volumes de chuva atipicamente menores. Isso dona Edite lembra bem. Vivendo às margens da represa há mais de 50 anos, nunca havia visto uma situação tão crítica quanto aquela. “É muito triste porque a gente depende da água da represa pra viver e aqui a gente sabe primeiro que vai faltar lá em baixo, em São Paulo”. Ela olha bem pra represa, aponta até onde a água costumava chegar décadas atrás e deixa a todos impressionados com o tamanho do recuo da água, que ainda permanece em níveis baixos mesmo depois do fim da crise.

 

Para quem mora nessa região, os poços artesianos secando são o primeiro sinal de que mais uma vez o abastecimento de água pode entrar em colapso. Dona Edite apontou várias mudas de árvores empilhadas em um canto do seu quintal, ela está fazendo o plantio de espécies nativas nas margens da represa em seu lote e no de seu filho, que também mora na região. “A gente sabe que ainda é pouco, mas precisa ter árvore na margem senão isso [a crise hídrica] vai continuar acontecendo já que o governo não fez nada”. Terminamos a conversa com Dona Edite dando risadas com a história de um de seus patos, um comedor de pregos de ferro.

 

Painéis Solares na Aldeia

 

O segundo destino foi a aldeia Guavira Ty. Para chegar lá foi preciso atravessar fazendas imensas pedalando numa estrada de chão que dá acesso à terra indígena guarani do Pontal do Paraná, região litorânea do Estado. Paulo e Sueli já estavam esperando nossa equipe para uma conversa rápida ao lado de suas casas. As famílias do povo Guarani Mbya dali passaram gerações migrando entre outras aldeias no Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, até conseguirem a permissão para se assentar naquela terra há cerca de 7 anos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nesse tempo conseguiram construir casas e outras estruturas da comunidade, mas encontraram um problema imenso e sem solução: o solo. “A terra aqui é de areia e não dá pra roçar milho e mandioca que são roçadas Guarani, por isso a gente precisa vender o artesanato pra trazer a comida de fora”. Apesar de, por conta da limitação ambiental, não poderem exercer esta importante parte da cultura Guarani, a segurança do assentamento já é muito mais do que grande parte de seus parentes pode contar no Brasil de 2019. As galinhas passam ciscando tranquilamente por aquela reunião improvisada. Sentia-se o conforto climático proporcionado pelas árvores dentro da aldeia, em oposição aos grandes latifúndios desérticos que marcam o caminho até ali.

 

Em um país no qual a maior parte das emissões de gases do efeito estufa são originadas pelo desmatamento, as terras indígenas são os imóveis rurais com a menor taxa de supressão vegetal. Legitimar a posse de terras dos povos originários pode ser uma ótima estratégia para impedir o avanço de pressões externas sobre a floresta, além de encaminhar uma questão histórica mal resolvida.

 

Diferente da maior parte dos casos, Paulo e Sueli dizem que não tiveram conflitos com os vizinhos latifundiários ou com representantes do poder público desde que ali estão. Ao contrário, o Estado fez parcerias com a aldeia e instalou painéis solares para que a energia utilizada ali fosse totalmente renovável. “A gente reza pra Nhanderu-Tupã que continue cuidando da gente e ele cuida… o que a gente pode fazer é continuar acreditando”, finaliza Paulo com calma quando perguntado sobre a ascensão ao poder de políticos de extrema direita (e abertamente anti-indigenistas) nos últimos anos.

 

Agroecologia no Cerrado

 

Ficamos com impressão de ter atrapalhado o trabalho da Iraíza naquela tarde. Era dia de semana, e ela e sua família precisavam embalar algumas centenas de vegetais que seriam entregues a vários mercados na manhã seguinte. Ainda assim, aceitamos o convite e ficamos sentados na área da casa enquanto ela, a liderança do assentamento, seu pai e seu irmão não paravam de trabalhar limpando, pesando e embalando os alimentos. A pedalada foi dura até o asentamento da reforma agrária Pequeno Willian, que fica a 40 km de distância de Brasília, na região rural de Planaltina.

 

O lugar recebeu esse nome quando as famílias ainda não possuíam a posse das terras e viviam acampadas na região. Uma criança, o menino Willian, de dois anos na época, faleceu após beber água contaminada por agrotóxicos. Anos depois, o assentamento parece um oásis de Cerrado em meio às imensas monoculturas de soja que cobrem toda aquela região.

 

Mas não era assim. Iraíza diz que, quando eles chegaram, o terreno inteiro era um grande pasto abandonado onde quase nada crescia. O Cerrado passou nos últimos anos por um processo intenso de exploração e grande parte do Sertão original já não existe mais. Apesar disso, as famílias que ali assentadas destinam a cultivos agroecológicos uma metade da terra, enquanto a outra é destinada à restauração do bioma, por meio do plantio exclusivo de espécies nativas. “A única coisa que a gente quer é o direito de plantar, colher e vender as coisas – tudo sem usar veneno nenhum” conta a liderança com um tremendo sorriso de orgulho no rosto.

 

A escolha pela agroecologia é uma diretriz do movimento dos sem-terra, que não só é responsável pela produção de alimentos de qualidade sem o manejo e contaminação por agrotóxicos, mas também pela manutenção de níveis de produção satisfatórios, apesar das oscilações ambientais cada vez mais intensas. “Aqui a gente sente literalmente na pele. Quem começa a trabalhar quando o Sol nasce e não para até depois que ele se põe sabe que o tempo tá cada ano mais difícil. Tem dia que não dá nem vontade de plantar com esse calor… quer ver agricultor feliz é cair pelo menos uma chuvinha pra refrescar. Pelo menos na agroecologia é muito diverso. Se perde uma coisa por causa do clima outra ainda vai produzir, você tem que ver meu milho como tá lindo, tá todo amarelo”.

 

O canteiro não deixa a Iraíza mentir. Espécies de hortaliças se misturam com árvores frutíferas, ervas medicinais e temperos. Algumas plantas do Cerrado também estão ali e toda essa abundância já abastece muitos mercados na região. O próximo objetivo é conseguir a licitação para produzir pra merenda de escolas. “A gente quer é plantar pras crianças mesmo”. Finaliza Iraíza com esperança.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Essas três histórias ilustram que falar sobre mudanças do clima é, acima de tudo, falar sobre pessoas. Pessoas reais. Gente que construiu e constrói este país através da história. Gente que está vivendo conflitos territoriais e anseios, mas que carrega consigo alegrias, orgulhos, paixões e um propósito. Como todos nós.

 

Os cenários são alarmantes, mas ainda há tempo. Tempo para nos mobilizarmos como sociedade para garantir uma transição justa nos diferentes setores das nossas economias que evite os piores resultados das mudanças do clima. Essas histórias coexistem no cenário global, onde os governos estão atrasando a ação necessária. É preciso nos inspirarmos nessas pessoas comuns como nós que estão fazendo como podem as transformações necessárias em suas comunidades e, sem nem perceber, estão revolucionando positivamente o mundo.

 

Sobre o projeto

 

Bikes, amigos, câmeras de celular e cadernos de anotação geraram o Ciclimáticos. O projeto quer continuar rodando o Brasil, quiçá o mundo, sem emitir carbono na atmosfera nos seus deslocamentos. Com o objetivo de aproximar as diferentes realidades de gente que reinventa o viver como pode e como dá nesse país de proporção continental e sofredor dos impactos das mudanças do clima.

 

 

 

 

 

Fotos: Nazaré Paulista – São Paulo Aldeia Guarani – Pontal do Paraná – Paraná Assentamento Pequeno Willian, Planaltina – Distrito Federal: Parque Nacional de Brasília – Distrito Federal

x (x)