Um milhão de espécies estão em risco de extinção por pressão humana

Risco de grande extinção: na próxima 2a feira (6/5) a IPBES-ONU divulgará seu relatório sobre o estado atual da biodiversidade. A prévia do relatório obtida pela AFP conclui que três quartos da superfície de Terra já foram comprometidos pela humanidade, inclusive pelo desmatamento.

 

Mohd Rasfan (AFP)

 

Perto de um milhão de espécies estão em risco de extinção devido à influência humana, de acordo com o esboço do relatório do IPBES-ONU obtido pela AFP. O relatório cataloga cuidadosamente a forma como a humanidade minou os recursos naturais dos quais dependemos para nossa própria sobrevivência.

 

A perda acelerada de ar puro, água potável, florestas que absorvem o CO2, insetos polinizadores, peixes ricos em proteínas e mangues que bloqueiam as tempestades – para citar apenas alguns dos serviços cada vez mais escassos prestados pela Natureza – representa uma ameaça não menor do que a da mudança climática, segundo o relatório que será  divulgado no dia 6 de maio.

 

De fato, a perda da biodiversidade e o aquecimento global estão intimamente ligados, segundo o Resumo para Formuladores de Políticas, de 44 páginas, que apresenta uma síntese feita pela ONU de 1.800 páginas da literatura científica sobre o estado da Natureza.

 

Delegados de 130 nações estão reunidos em Paris desde o dia 29 de abril para examinar o resumo executivo linha por linha. O texto pode mudar, mas os números levantados a partir do relatório subjacente não podem ser alterados.

 

“Precisamos reconhecer que a mudança climática e a perda de natureza são igualmente importantes, não apenas para o meio ambiente, mas também para o desenvolvimento e as questões econômicas”, disse Robert Watson, presidente do órgão com mandato da ONU que elaborou o relatório, à AFP.

 

“A forma como produzimos nossos alimentos e nossa energia está minando os serviços reguladores que recebemos da Natureza”, disse ele, acrescentando que somente “mudanças transformadoras” podem conter os danos.

 

O desmatamento e a agropecuária são responsáveis por cerca de um quarto das emissões de gases de efeito estufa e também causaram estragos nos ecossistemas naturais.

 

Evento de extinção em massa

 

O relatório da Plataforma Intergovernamental de Política Científica sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES) alerta para “uma aceleração rápida iminente da taxa global de extinção de espécies”.

 

O ritmo de perda “já é de dezenas a centenas de vezes superior ao que tem sido, em média, nos últimos 10 milhões de anos”, observa.

 

“Estima-se que entre meio milhão e um milhão de espécies estejam ameaçadas de extinção, muitas delas em algumas décadas”.

 

% de perda de biodiversidade em relação ao ecossistema intacto

 

Muitos especialistas pensam que este “evento de extinção em massa” – apenas o sexto nos últimos meio bilhão de anos – já está em andamento.

 

O evento semelhante mais recente viu o fim do período Cretáceo há cerca de 66 milhões de anos, quando o choque de um asteróide de 10 quilômetros de largura extinguiu a maioria das formas de vida.

 

Os cientistas estimam que a Terra abriga hoje cerca de oito milhões de espécies distintas, a maioria delas insetos.

 

Um quarto das espécies animais e vegetais catalogadas já está sendo dizimada, comida ou envenenada.

 

A queda da biomassa de mamíferos selvagens, seu peso total, é ainda mais dramática, chegando a 82%.

 

A humanidade e os animais da pecuária representam já mais de 95% da biomassa dos mamíferos.

 

Crescimento populacional

 

“Se quisermos ter um planeta sustentável e que ofereça serviços às comunidades de todo o mundo, precisamos mudar esta trajetória nos próximos dez anos, assim como precisamos fazer com o clima”, observou a cientista-chefe do WWF, Rebecca Shaw, ex-integrante dos órgãos científicos da ONU para o clima e a biodiversidade.

 

As causas diretas da perda de espécies, por ordem de importância, são a diminuição dos habitats e a mudança no uso da terra, a caça para alimentação ou comércio ilícito de partes dos animais, a mudança climática, a poluição e espécies exóticas como ratos, mosquitos e cobras que viajam em navios ou aviões, segundo o relatório.

 

“Há também duas grandes forças indiretas impulsionando a perda de biodiversidade e a mudança climática: o número de pessoas no mundo e sua crescente capacidade de consumo”, disse Watson.

 

Visto anteriormente como uma ameaça futura à vida animal e vegetal, o impacto perturbador do aquecimento global se acelerou.

 

Mudanças na distribuição das espécies, por exemplo, provavelmente dobrarão se a temperatura média subir de 1,5ºC para 2ºC.

 

Até agora, o termômetro global aumentou 1°C em comparação com o nível de temperatura de meados do século XIX.

 

O Acordo de Paris de 2015 obriga as nações a limitar o aumento da temperatura média global “bem abaixo” de 2°C. Mas o marcante relatório da ONU lançado pelo IPCC em outubro passado disse que mesmo esta limitação já seria suficiente para aumentar a intensidade e a frequência de ondas de calor, de secas, inundações e tempestades mortais.

 

Desigualdade global

 

Outras conclusões do relatório incluem:

– Três quartos das superfícies terrestres, 40% do ambiente marinho e 50% das vias navegáveis interiores em todo o mundo foram “severamente alteradas”.

– Muitas das áreas onde a contribuição da Natureza para o bem-estar humano será mais gravemente comprometida são hoje lares dos povos indígenas e dos povos mais pobres do mundo.

– Mais de dois bilhões de pessoas dependem de lenha para a produção de energia, quatro bilhões dependem de medicamentos naturais e mais de 75% das culturas alimentares globais requerem polinização animal.

– Quase metade dos ecossistemas terrestres e marinhos foi profundamente comprometida pela interferência humana nos últimos 50 anos.

– Os subsídios à pesca, à agricultura industrial, à pecuária, à silvicultura, à mineração e à produção de biocombustíveis ou a energia de combustíveis fósseis incentivam o desperdício, a ineficiência e o consumo excessivo.

 

O relatório adverte contra as soluções para as alterações climáticas que, inadvertidamente, podem prejudicar a Natureza.

 

O uso, por exemplo, de biocombustíveis combinados com a “captura e armazenamento de carbono” – o sequestro deCO2 liberado quando os biocombustíveis são queimados – é amplamente visto como fundamental na transição para a energia verde em escala global.

 

Mas a terra necessária para cultivar todas essas culturas de biocombustíveis pode acabar reduzindo a produção de alimentos, a expansão de áreas protegidas ou os esforços de reflorestamento.