Boletim

ClimaInfo, 23 de fevereiro de 2018

A AMAZÔNIA NO JULGAMENTO DO CÓDIGO FLORESTAL NO STF

O STF está julgando as ações de inconstitucionalidade do código florestal. Aliás, as julga há anos. Ontem, o ministro Luiz Barroso disse algo que vale a pena registrar: “O Brasil ainda trata a Amazônia como um passivo e não com um dos mais valiosos ativos do mundo, talvez o espaço de mais rica biodiversidade do mundo, ou o segundo espaço da maior biodiversidade do mundo. O mundo precisa da Amazônia e o Brasil precisa da Amazônia! Portanto, acho que a gente devia pensar numa política de desmatamento líquido zero, o que significa recompor prontamente tudo aquilo que inexoravelmente venha a ser desmatado. E acho que o Brasil, e talvez o mundo, devesse pensar formas de recompensar a Amazônia pela manutenção da floresta. Nós temos que transformar a manutenção da floresta em algo mais valioso do que a sua derrubada. Até porque, com a expressiva, absurda e criminosa política de desmatamento que vigeu por muitos anos, o produto interno bruto da Amazônia não aumentou nenhum ponto percentual. Portanto, nós destruímos a floresta sem melhorar a vida das pessoas. De modo que era preciso incluir a proteção da Amazônia com prioridade máxima num projeto de preservação da floresta, e tornar social e economicamente mais interessante preservá-la do que derrubá-la.”
Divulgaremos o link da transcrição completa assim que estiver disponível.

 

AMAZÔNIA À BEIRA DO ABISMO

Os cientistas Carlos Nobre, do INPE, e Thomas Lovejoy, da Universidade George Mason, escreveram um artigo na Science muito curto, mas muito grosso, sobre o futuro sombrio da floresta Amazônica. Eles retomam uma pergunta antiga: quanto desmatamento precisa ocorrer para que o ciclo hidrológico não consiga mais sustentar os ecossistemas da floresta. Estudos feitos desde a década de 60 apontam que o ciclo chuva-absorção pela vegetação-evapotranspiração-chuva se repete de 5 a 6 vezes, no sentido Leste-Oeste. Só que, entre as pesquisas iniciais feias na década de 60 e hoje, apareceram a mudança do clima e a epidemia de incêndios na região. As duas empurram a floresta para o abismo. Os modelos climáticos preveem que, se a temperatura média global subir 4°C, é forte a tendência de transformação da floresta em cerrado no leste, no centro e no sul da Amazônia. E os incêndios, que foram manchete no ano passado e na semana passada, degradam a floresta ao ponto desta não poder mais se auto-sustentar.
O grito de aviso se volta para o agronegócio. É o aviso de que parte da água desses mesmos ciclos alimentam os rios voadores que trazem as chuvas para a soja e o milho do Mato Grosso e para toda a região sudeste. Sem elas, o agro corre o risco sério de virar tudo, menos isso que está aí hoje.
http://advances.sciencemag.org/content/4/2/eaat2340

http://agencia.fapesp.br/desmatamento_na_amazonia_esta_prestes_a_atingir_limite_irreversivel/27180/


OS IMPACTOS DA MUDANÇA DO CLIMA NOS PASTOS

Para quem defende a pecuária nacional, é bom saber os problemas que as mudanças climáticas trarão para a produção de carne e leite no mundo todo. Pesquisadores dos EUA, Austrália e daqui do Brasil estudaram a influência da variabilidade das chuvas nos pastos ao redor do mundo. Constataram que pastos são mais vulneráveis à variações no regime de chuvas do que florestas e plantações. Como a mudança do clima mexerá no botão de controle do regime de chuvas, a produção atual de carne e leite pode estar em risco. O pessoal do Observatório do Clima (OC) colocou pimenta no caldo ao associar as pastagens mais vulneráveis com a população mais pobre do planeta. Ou seja, mais uma vez a mudança do clima acirra a tremenda desigualdade social mundo afora. Um dos pesquisadores comentou que “precisamos focar em adaptação. Afinal, pastagens alagadas ou secas demais podem colocar em risco a produção de carne e leite que alimenta cerca de 800 milhões de pessoas”.
https://doi.org/10.1038/s41558-018-0081-5

http://www.observatoriodoclima.eco.br/mudancas-climaticas-podem-inviabilizar-pastos-e-colocar-em-risco-consumo-de-carne-e-leite/


RORAIMA: INCÊNDIOS MULTIPLICADOS POR 26

Quem ficou triste com o recorde de incêndios no ano passado na Amazônia deve preparar um bom estoque de lenços. Em 2018, até a quarta-feira de cinzas, Roraima assistiu a 26 vezes mais incêndios do que no mesmo período do ano passado. O período de seca lá termina em abril, o que nos diz que os episódios de incêndios estão longe de acabar. Especialistas apontam que os agricultores têm uma parcela bem grande de responsabilidade sobre os incêndios ilegais.
https://g1.globo.com/rr/roraima/noticia/focos-de-incendio-em-roraima-cresceram-257-em-relacao-a-2017-diz-inpe.ghtml


A GRANDE SÃO PAULO APRENDEU A ECONOMIZAR ÁGUA

Depois do racionamento não declarado de 2014, a população da Grande São Paulo parece ter aprendido a economizar, ou melhor, a não desperdiçar tanta água. Nas contas da Sabesp, consome-se hoje 15% menos água do que antes da crise. Muitos prédios e casas instalaram caixas para captar água da chuva e usá-la para regar e lavar calçadas e paredes. O consumo médio caiu de 169 para 129 litros/habitante/dia, valor que permanece mais ou menos constante desde 2016. Já do lado do governo do Estado, que durante a crise fez de conta que não restringiu o abastecimento, e prometeu mundos e obras para que a metrópole nunca mais passasse por isso, as quatro grandes obras prometidas estão no gerúndio: umas estão começando, outras estão indo e as restantes estão terminando. E tem uma que ainda não saiu do papel.
http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,grande-sp-gasta-15-menos-agua,70002194589

 

VAZOU

Há poucos dias falamos aqui de um vazamento de rejeitos de bauxita da barragem da Hydro Alunorte, em Barcarena, no Pará. A empresa e parte do governo paraense negaram o vazamento. Mas, sim, vazou. Ontem foi divulgado um laudo do Instituto Evandro Chagas (IEC) confirmando a contaminação em diversas áreas de Barcarena. O pesquisador Marcelo de Oliveira Lima, do IEC, disse que “a empresa fez uma ligação clandestina para eliminar esses efluentes contaminados que estavam acumulados dentro da fábrica para fora da área industrial, contaminando o meio ambiente e chegando às comunidades”. Segundo o laudo, as águas estão contaminadas com nitratos, sódio, alumínio e até chumbo. O IEC concluiu que a empresa não tem capacidade de tratar os seus efluentes e recomendou que, neste momento de chuvas fortes, seja reduzida ou suspensa a produção, porque as bacias não irão suportar o grande acúmulo de material.

https://g1.globo.com/pa/para/noticia/laudo-confirma-vazamento-de-rejeitos-de-mineradora-em-barcarena-no-pa.ghtml

 

UMA CHANCE PARA A NAVEGAÇÃO VERDE

Embora importantes e crescentes, as emissões de carbono da aviação e da marinha mercante internacionais não são objeto das promessas de redução feitas pelos países junto ao Acordo de Paris (as NDCs). Por conta disto, a Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO, na sigla em inglês) e a Organização Marítima Internacional (IMO, também na sigla em inglês) estão discutindo acordos para a redução das emissões destas atividades.

Até junho, a ICAO deve fechar o pacote de regras de um sistema de compensação e redução de emissões conhecido por CORSIA (Carbon offsetting and Reduction Scheme for International Aviation). Os países membros da ICAO têm até 5 de março para apresentar suas propostas. Segundo quem acompanha de perto estas negociações, o Brasil tem apresentado posições classificadas como “péssimas” em várias aspectos.

Já a IMO pretende bater o martelo em algum acordo de redução de poluição e de emissões de carbono ainda neste ano. Infelizmente, também neste fórum, o Brasil tem atrapalhado as negociações. E, vergonhosamente, as delegações brasileiras têm tido uma influência pesada – e até uma grande participação direta – da Vale, a gigante da mineração.

Um artigo no Valor de ontem, assinado pela administradora pública Natalie Unterstell e pela diretora do Instituto Clima e Sociedade, Ana Toni, discute a participação brasileira nas negociações climáticas da IMO e mostra como nossa política externa  não está alinhada com objetivos internos.

http://www.valor.com.br/opiniao/5339143/uma-chance-para-navegacao-verde#


10 BILHÕES DE ÁRVORES SERIAM NECESSÁRIAS PARA COMPENSAR O FIM DO PLANO DE ENERGIA LIMPA DE OBAMA

Trump prometeu rasgar o Clean Power Plan de Obama, que prometia reduzir as emissões norte-americanas da geração de eletricidade em 32% até 2030, tendo como base as emissões de 2005. Para tentar compensar o que chamaram de uma tremenda estupidez de Trump,  um grupo de ambientalistas dos EUA lançou uma campanha de plantio de árvores para compensar a ausência do plano original. No primeiro ano, a campanha conseguiu plantar um milhão de árvores. Mas, para chegar ao seu objetivo, o pessoal terá que acelerar o passo e plantar mais 9.999.000.000 árvores até 2030. Segundo o The Guardian, será preciso plantar uma área de 100 mil km2, maior que o estado do Pernambuco.

Para efeito de comparação, o Brasil prometeu ao Acordo de Paris recuperar e reflorestar 120 mil mil km2, onde daria para plantar muito mais árvores, porque as que aqui florescem, florescem melhor do que as de lá.
https://trumpforest.com/science/

https://www.theguardian.com/us-news/2018/feb/20/trees-for-trump-one-million-pledged-offset-climate-change


A TRAGÉDIA DA PROLIFERAÇÃO DE ALGAS BRASILEIRAS NO LAGO TANA, ETIÓPIA

Sem querer, o Brasil exportou para a Etiópia uma alga bem conhecida por aqui, a Eichhornia crassipe. Conhecida na Amazônia como jacinto d’água, ela adorou o Lago Tana e virou um sério problema ambiental. O cientista ambiental Ayalew Wolde disse que “a nossa falta de conhecimento e as mudanças climáticas produziram essa imensa tragédia”. As imagens da BBC mostram uma extensão imensa de verde cobrindo os mais de 2 mil km2 do lago. Este abastece muita gente e muito gado e, assim, não é possível a aplicação de químicos para o controle das algas. O controle está sendo feito manualmente por moradores e voluntários.
http://www.bbc.com/news/av/world-africa-42865711/ethiopia-s-lake-tana-threatened-by-alien-weed-invasion

https://noticias.uol.com.br/meio-ambiente/ultimas-noticias/bbc/2018/02/19/etiopia-luta-para-salvar-maior-lago-do-pais-de-especie-invasora-originaria-do-brasil.htm


EM TESTE NOS EUA ENTREGA DE ENCOMENDAS POR DRONES

O emprego de drones para o transporte de carga em ambientes urbanos foi objeto de um trabalho publicado na Nature. Pesquisadores do Laboratório Nacional Lawrence Livermore passaram três anos medindo a diferença entre as emissões de gases de efeito estufa e poluentes por drones de carga e por caminhões leves movidos a diesel. Mesmo levando em conta que a eletricidade pode ter uma pegada de carbono alta em regiões conectadas a térmicas fósseis, o drone foi sempre mais amigo da natureza. Muito melhor seria, claro, em uma rede elétrica com emissão zero. Em todo caso, o trabalho aponta uma série de limitações. Começando pelo tamanho e pelo peso do que um drone de entrega consegue carregar, e também pelo alcance permitido por uma bateria carregada. Existe um ponto ótimo entre alcance e peso da bateria para cada modelo de drone e sua capacidade de carga. A pesquisa foi feita nos EUA, onde a legislação existente para os drones obriga que o aparelho esteja sempre ao alcance visual do piloto. Isso limita muito sua aplicabilidade em áreas com muitos prédios. Na Europa e em muitos outros lugares, essa restrição não existe e o drone pode se tornar uma peça importante na descarbonização do transporte.
https://www.nature.com/articles/s41467-017-02411-5.pdf

https://www.theguardian.com/environment/2018/feb/13/drones-trucks-climate-change-carbon-emissions


SISTEMA SOLAR AUTO-SUFICIENTE DE ÁGUA POTÁVEL

Pesquisadores da Universidade de Alicante, Espanha, estão acoplando um painel fotovoltaico a um sistema de dessalinização e purificação de água. A intenção é produzir um sistema fácil de transportar e operar e, se possível, barato. A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que quase 700 milhões de pessoas no mundo não têm acesso à água potável. O painel dispensa baterias e seus custos econômicos e ambientais, e foi testado para produzir água potável a partir de água do mar e de fontes naturais de água salgada.
http://ruvid.org/wordpress/?p=37457

https://www.sciencedaily.com/releases/2018/02/180209114226.htm

https://www.theguardian.com/global-development-professionals-network/2017/mar/17/access-to-drinking-water-world-six-infographics


O DESMATAMENTO AQUECE A SUPERFÍCIE DA TERRA

A superfície da Terra está esquentando porque as florestas estão desaparecendo. Trocar florestas tropicais por pastos e plantações altera o balanço de energia entre superfície e atmosfera e contribui para aumentar o aquecimento global. A pesquisa que acaba de ser publicada na Nature Communications põe números no calor gerado pela mudança de uso da terra. Os pesquisadores estimam que o desmatamento ao redor do mundo entre 2000 e 2015, em média, aqueceu a superfície da Terra onde houve o desmatamento em 0,23°C. Isso não é pouco. Acaba contribuindo para reduzir a umidade e deixar o entorno mais vulnerável a incêndios. E, mais quente, com menos água, vira um obstáculo à regeneração da floresta que ali estava.
https://www.nature.com/articles/s41467-017-02810-8

https://www.sciencedaily.com/releases/2018/02/180220143516.htm


Para ver:

BRASIL EM CHAMAS – CAPÍTULO 3
A combinação do desmatamento, mudança do clima e incêndio florestais (veja a 2a nota de hoje) está empurrando a Floresta Amazônica para o abismo. O pessoal do Observatório do Clima (OC) preparou uma série de cinco vídeos sobre os incêndios que aumentaram assustadoramente deste de 2015. Esta semana, foi lançado o episódio 3. Dá para ver o vídeo no site do OC.
http://www.observatoriodoclima.eco.br/amazonia-e-vitima-de-tempestade-perfeita/


Para ler:

EXTREME CITIES: THE PERIL AND PROMISE OF URBAN LIFE IN THE AGE OF CLIMATE CHANGE

Para o autor, Ashley Dawson, da Universidade de Nova York, as grandes metrópoles são As principais responsáveis pela mudança do clima e, ao mesmo tempo, suas maiores vítimas. É nas cidades que os fósseis são queimados e a produção global consumida. E é nas cidades que a desigualdade social é exposta como uma fratura aberta. E é nas cidades que enchentes, tempestades extremas, ondas de calor e falta d’água serão mais sentidas. Assim, a mudança do clima vai acirrar ainda mais essa desigualdade posto que os mais ricos têm os recursos para proteger seus ativos ou simplesmente trocar a cidade por ambientes mais amenos. Segundo uma resenha, o diagnóstico é melhor do que a solução proposta por Dawson: ele chama de comunismo do desastre as redes de solidariedade e apoio que apareceram em Nova York na esteira do furacão Sandy em 2012. É em redes similares que ele põe suas fichas.
Na Amazon, e-book: R$ 52,96 / capa dura quase R$100 e só por encomenda
https://thetyee.ca/Culture/2018/02/16/Extreme-Cities-Climate-Change-Class-Warfare/

https://www.amazon.com/Extreme-Cities-Promise-Climate-Change/dp/1784780367


Para ver:

NA ROTA DO DINHEIRO SUJO: EPISÓDIO 1 – EMISSÕES MORTAIS

Série Netflix
O primeiro episódio conta a história do Dieselgate, escândalo de manchou o nome da VW e das grandes automotivas alemãs para sempre.
https://www.netflix.com/watch/80149533

 

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