Boletim

ClimaIfo , 21 de janeiro de 2019

A Amazônia como oportunidade

“Informações oficiais mostram que a maior parte das terras e florestas da Amazônia são públicas. Apenas 18% das terras são privadas com situação fundiária definida. Outros 52% são áreas militares, terras indígenas, áreas destinadas a usos econômicos sustentáveis ou à conservação. Os 30% restantes são terras originalmente públicas e ainda não destinadas para um fim específico. Ou seja, a maior parte da riqueza da Amazônia é de todos nós, brasileiros”, escreve o jornalista Alexandre Mansur na revista Exame. Para ele, a ocupação ilegal de terras públicas é o principal desafio que se coloca para a conservação da floresta: as “quadrilhas de grilagem estão por trás da maior parte do desmatamento da Amazônia. Também estão ligadas às disputas que aumentam as taxas de homicídio na região. As atividades criminosas só não são maiores graças ao esforço conjunto do Ministério Público Federal, do Ibama, da Polícia Federal e do Exército, além do apoio de governos estaduais, que realizam investigações e operações para tentar impor alguma ordem à Amazônia.” Mansur diz que empresas sérias não são competitivas contra quem comete crimes, sonega impostos e explora o trabalhador sem registro. Isso posto, se a justiça enfrentar a sério os vários braços desse crime organizado, a exploração legal e sustentável das múltiplas riquezas da Amazônia acabe incentivando a preservação da região como essencial para o próprio negócio.

A vontade de combater o crime organizado, tantas vezes prometida pelo ministro da justiça, precisa se estender a quem comete crimes contra o futuro sustentável do país.

 

O desafio dos 10 ano de Di Caprio mostra o desmatamento de Rondônia

Leonardo Di Caprio aproveitou o desafio 10 anos das redes sociais para mostrar como o desmatamento mudou a cara de Rondônia. O ator, que batalha há tempos contra o aquecimento global, escolheu a Amazônia para mostrar o que acontece no país que, segundo a ministra da agricultura Tereza Cristina, mais preserva o meio ambiente no mundo. A ministra tem toda a razão em dizer que a legislação brasileira é das mais avançadas, e estaria coberta de razão se não fossem os 7.000 km2 desmatados no último período, e, como dizem os economistas, com viés de alta. Parar com o desmatamento parece simples, é só fazer cumprir a lei. Com a palavra o ministro da justiça.

 

A “indústria da multa” que não as aplica e não as recebe

Durante toda a campanha, o período de transição e, também, neste primeiro mês de governo, um dos bordões mais repetidos diz da vontade de acabar com a “indústria da multa” do Ibama. Na semana passada, numa entrevista a O Globo, o ministro Ricardo Salles disse que uma parte muito pequena das autuações do Ibama é convertida em multas. A pedidos do ministro, a Controladoria Geral da União (CGU) fez um levantamento do volume de multas aplicadas pelo Ibama nos últimos cinco anos. Apenas 1% delas foram pagas. Os multados entre janeiro de 2014 e dezembro de 2018 devem à União mais de R$ 16 bilhões.

Fosse uma indústria, já teria quebrado.

 

Peri, ou como é chique açambarcar terras indígenas

Eliane Brum mostra Ernesto Araújo usando o escritor romântico José de Alencar para pregar a assimilação dos indígenas e justificar a abertura de suas terras ao agronegócio. Em seu discurso de posse, Araújo quis mostrar erudição fazendo citações atrás de citações de autores “já bem mortos, para que nenhum deles pudesse contestar a citação.” Como exemplo, Eliane toma a passagem na qual Araújo compara o New York Times com José de Alencar e Gonçalves Dias. Para Eliane, “não é preciso ter inteligência acima da média para perceber que não faz nenhum sentido contrapor um dos mais importantes jornais do mundo, com edição diária, e dois escritores do romantismo brasileiro do século 19. O objetivo é exacerbar um nacionalismo que se ajoelha diante de Donald Trump, mas despreza a independência do New York Times; idolatra o WhatsApp e o Facebook de Mark Zuckerberg, mas achincalha a imprensa brasileira. O chanceler quer menos denúncias bem apuradas e checadas contra Bolsonaro e contra os abusos do seu governo, todos documentados pelo Times e pelos principais jornais do mundo onde a imprensa é livre. Menos imprensa, convertida declaradamente em ‘inimiga pública’, por Bolsonaro e sua entourage, porque querem falar diretamente com seus seguidores sem serem perturbados.” Para Eliane, a escolha de duas das referências da literatura do império brasileiro parece querer dizer que “tudo o que aconteceu entre a independência do Brasil, a de 1822 – e a nova independência do Brasil, a que ele acredita estar sendo liderada pelo seu chefe, em 2019 – não existiu.”

Eliane disseca também o discurso, também repetido a rodo, segundo o qual “índio é um ser humano como todo mundo”. Ela pergunta: “O que o discurso do “ser humano como nós” encobre? Pela Constituição de 1988, as terras dos indígenas são de domínio da União. Aos indígenas cabe o usufruto exclusivo de suas terras ancestrais, mas elas seguem sendo públicas. Uma das principais missões de Bolsonaro é justamente abrir essas terras públicas para exploração e lucros privados.” O artigo é um must read.

 

Ailton Krenak e Davi Kopenawa: os indígena têm voz

A jornalista Daniela Chiaretti foi a Roraima conversar com duas das mais respeitadas lideranças indígenas, Ailton Krenak e Davi Kopenawa, sobre as histórias, as visões e o seu entendimento das ameaças que pairam sobre a cabeça dos indígenas sob o novo governo. Chiaretti reproduz uma frase preciosa de Kopenawa: “Branco sempre fala que eles são gulosos. Quer arrancar mais, quer mais árvore, quer mais terra, quer mais areia para fazer casa, quer mais petróleo e outras coisas. São ‘naki’ de terra. Nós não. Nós somos ‘naki’ de preservação da natureza”, diz. Krenak conta o que é a mineração e o que foi o desastre da Samarco: “Aquela lama passa na nossa terra. Mas antes disso, a mineração já estava comendo as nossas montanhas. Eu não imaginava que aquelas montanhas, tão vivas para nós, pudessem ser desaparecidas. Nós assistimos nossas montanhas mudar de lugar. Elas saíram do lugar antigo delas para ir para cima das composições de trens, levando as montanhas para o porto. Somos abastecidos por caminhão-pipa. A Terra Indígena Krenak é hoje totalmente dependente de assistência externa. É como se estivéssemos em um campo de refugiados. Somos, de certa maneira, flagelados da mineração. Um novo tipo de vítimas da degradação do meio ambiente.” Ao final da matéria, Chiaretti conta que Krenak só demonstra irritação quando lembra que o presidente e outras autoridades tentam dizer o que os índios querem: “Eles querem fazer papel de ventríloquo. Os índios falam mais de 160 línguas diferentes, não precisam de ventríloquos, de missionários, de padres. O povo indígena tem voz.”

 

A expansão crescente da energia solar

A Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) acredita que as instalações fotovoltaicas continuarão a crescer em ritmo acelerado no Brasil. Para 2019, a Absolar prevê um aumento de 44% na capacidade instalada, que deve chegar a 3,3 GW até o final do ano. De modo diferente do que aconteceu até agora, o impulso deverá ser da geração distribuída, das placas solares nos tetos de residências e do comércio, onde se projeta um aumento de quase 0,63 GW. O que vinha respondendo pela expansão da fonte, as centrais fotovoltaicas, deverão contribuir menos, com 0,38 GW.

Na China, a energia fotovoltaica continua crescendo, mas a um ritmo diminuído. Em 2017, a China acrescentou 53 GW fotovoltaicos. Em 2018, foram lá instalados 43 GW, 18% a menos. A redução se deveu à uma combinação de uma economia menos aquecida com a intenção do governo de retirar os subsídios à fotovoltaica.

 

A energia nuclear segue cambaleando no mundo afora

A Hitachi desistiu de construir uma usina nuclear no País de Gales, apesar de já ter gasto mais de US$ 3 bilhões (aproximadamente R$ 10 bilhões). Ir em frente significaria um desembolso adicional de quase US$ 26 bilhões. No ano passado, a Toshiba tinha desistido de uma usina parecida. O governo britânico chegou a propor condições bastante interessantes para a Hitachi, mas bateu em um limite: comprar a energia gerada a R$ 362/MWh. O secretário de negócios do Reino Unido, Greg Clark, disse ao parlamento que não tinha como justificar um preço de compra maior, “dado o custo decrescente de outras opções energéticas”.

No Brasil, no final do ano passado, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) autorizou uma tarifa de R$ 480/MWh para a energia a ser gerada pela usina de Angra 3, o que ora está previsto para 2026. O Conselho justificou dizendo que sem essa tarifa seria inviável terminar a construção da usina. O valor foi estabelecido com base nos preços e custos de julho de 2018 e será corrigido até lá.

O Guardian, a BBC e um site de construtoras britânicas comentaram o engavetamento do projeto da Hitachi.

 

Lançamento da CFLI para apoiar o financiamento climático privado

Na semana passada, foi lançada a Climate Finance Leadership Initiative (CFLI, Iniciativa de Lideranças em Finanças Climáticas ) com o objetivo de tornar os fluxos financeiros compatíveis com a transição para uma economia de baixas emissões e com um desenvolvimento climaticamente resiliente, conforme expresso no Acordo de Paris. Michael Bloomberg, idealizador da CFLI, disse que “quanto mais rápido conseguirmos acelerar investimentos que, ao mesmo tempo, reduzam emissões e criem empregos, mais progresso podemos fazer para reduzir os riscos econômicos e de saúde que virão com a mudança do clima”.

A CFLI começa suas atividades com a participação de Francesco Starace, CEO da Enel (energética italiana com forte presença no Brasil); Mary Schapiro, da Bloomberg; Thomas Buber, CEO da seguradora AXA; John Flint, CEO do HSBC; Hiro Mizuno, do Fundo de Pensões do governo japonês; David Solomon, CEO da Goldman Sachs; e Shemara Wikramanayake, CEO da Macquarie, um banco de investimentos australiano.

 

€ 144 bilhões negociados no mercado de carbono europeu em 2018

As novas regras do mercado de carbono europeu, o EU-ETS (European Union Emissions Trading Scheme), entraram em vigor no ano passado, resultando em um aumento de 250% nas transações que totalizaram € 144 bilhões. O EUA (European Union Allowance) triplicou preço da permissão de emissão, passando de € 8 em janeiro para € 25 no final do ano. O volume de permissões negociado aumentou 50%. Analistas entendem que as regras restituíram a confiabilidade do esquema que havia praticamente desaparecido na esteira da recessão europeia de 2008-09. Eles também preveem que aumentos como estes não se repetirão em 2019, mas que o mercado permanecerá estável no patamar alcançado.

O mercado europeu é fortemente ligado à geração de eletricidade e, portanto, aos mercados de carvão e de gás natural. As pressões para eliminar o carvão das matrizes elétricas indicam que o mercado deve diminuir de volume, já que a geração a gás emite quase metade da geração a carvão. Por outro lado, as novas regras devem garantir que os preços das permissões não sofram solavancos bruscos.

 

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