Boletim

ClimaInfo, 22 de março de 2019

Mais destruição da Amazônia à frente

E pode vir por aí uma investida sobre uma área praticamente intocada da Amazônia. Trata-se do Projeto Barão do Rio Branco, que consiste principalmente na construção de uma ponte sobre o rio Amazonas nas proximidades de Oriximiná. Na margem direita, a ponte se conectaria à BR-163, a Cuiabá-Santarém, e na margem esquerda daria início a uma longa estrada até a fronteira com o Suriname. Analisando o mapa, fica difícil entender as obras. Para ligar Santarém (hoje o ponto final da BR-163) à ponte, será preciso uma outra ponte para atravessar as proximidades da imensa foz do Rio Tapajós. O trecho até o Suriname faz ainda menos sentido, porque o comércio com país vizinho é inexistente e a bauxita extraída em Porto Trombetas sai em barcaças. O governo fala também em uma hidrelétrica de 3.000 MW no Rio Trombetas, ideia que já aparecia em um plano de 2007 que não especificava exatamente a quais aproveitamentos se referia. Em todo caso, os estragos prometem ser grandes.

O processo adotado pelo sistema elétrico brasileiro passa pela realização de estudos prévios a cargo da EPE que visam colocar os aproveitamentos em leilões conforme planejamento prévio. Ontem, a EPE avisou que duas hidrelétricas entrarão em um leilão no ano que vem, a UHE Castanheira, com 140 MW e localizada na bacia do Juruena, um afluente do Tapajós, e a UHE Bem Querer, no Rio Branco, afluente da margem esquerda do Amazonas, que deve ter algo como 650 MW de potência instalada. Mesmo sem constarem do atual sonho amazônico do governo, estas duas já são velhas conhecidas e igualmente polêmicas pelo impacto socioambiental que provocariam.

 

Um (des)balanço da viagem de Bolsonaro aos EUA

Vários balanços foram publicados sobre a viagem presidencial aos EUA, na maioria com críticas negativas. O maior barulho veio do agronegócio, que não vê muito sentido na aproximação com seu maior concorrente, os EUA, e num distanciamento do seu maior comprador, a China. Bolsonaro entende que o Brasil é um país desenvolvido e que, por isso abrirá mão de seu status protegido junto à Organização Mundial do Comércio (OMC). O país tem uma história de muitas batalhas na OMC, seu atual dirigente é brasileiro e o agronegócio tem, até o momento, vantagens competitivas com respeito a produtos norte-americanos. Bolsonaro deve abrir mão disso em troca de promessas vazias. Ele também prometeu não taxar uma grande quantidade de trigo dos EUA em troca da promessa de uma visita de inspeção dos norte-americanos aos frigoríficos brasileiros. E pensar que o agronegócio o apoiou em peso e em reais e tinha na ministra Tereza Cristina a esperança de tempos tranquilos. Pelo jeito a sonhada tranquilidade não durou três meses. Foi divertido ouvir o comentário da senadora Kátia Abreu pedindo ao chanceler Ernesto Araújo que rezasse em mandarim para não perder as exportações do agro para a China. Pelo menos até agora a pregação anti-China não chegou à Petrobrás, que está para fechar uma parceria para a conclusão da refinaria da Comperj, no Rio. Temia-se que a mudança do clima acabasse sendo vítima do hábito de fazer proclamações de improviso, que caracterizam tanto Bolsonaro quanto Trump. Neste caso, felizmente, o silêncio foi uma benção.

 

Ricardo ‘Scott Pruitt’ Salles

Na reunião do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), o ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, colocou sua truculência sobre a mesa. Era a praxe as reuniões do Conselho terem a participação de membros titulares e suplentes. Salles mandou os suplentes para outra sala, da qual só puderam acompanhar a reunião por vídeo. Pior, os seguranças retiraram os suplentes da sala principal usando de força. A cena registrada por presentes não alterou o ministro, que continuou falando como se nada estivesse acontecendo. Fabiano Maisonnave, na Folha, Maurício Tuffani, no Direto da Ciência e o pessoal da Rede Brasil Atual escreveram sobre a história.

Lá fora também tem gente pegando no pé do ministro. Molly Taft, da Nexus, conta para seu público das semelhanças entre Salles e Scott Pruitt, ex-diretor da Agência de Proteção Ambiental americana, a EPA. Ela compara os retrocessos nas agendas ambientais dos dois países, as falas dos dois dirigentes e muito do pensamento dos dois presidentes. Se Pruitt tem uma história de vida ligada às petroleiras e por elas batalhou, Salles tem sua história ligada ao agronegócio, declaradamente sua prioridade no ministério. Molly diz que Pruitt e Salles são parecidos até do ponto de vista criminal, ambos com processos nas costas.

 

Desmatamento da Amazônia provoca aquecimento global e local

Uma pesquisa recém publicada na PLos One mostra que o desmatamento de uma área de floresta provoca um aumento na temperatura média local de quase 1,5°C, com os consequentes impactos sobre a hidrologia e a biodiversidade locais. A floresta, mais escura, absorve mais luz do sol do que pastos e lavouras de soja, mais claros. A diferença de absorção se transforma em temperaturas mais altas na atmosfera. Derrubar florestas também altera a capacidade de evapotranspiração e, novamente, a uma menor capacidade de retenção de calor que acaba sendo transferido à atmosfera. A elevação média de temperatura da ordem de 1,5°C é, na verdade, a combinação de um aumento maior durante o dia com um menor durante a noite. As medições indicaram que, em uma área completamente desmatada, a temperatura média diurna subiu 3°C e, em alguns lugares, passou de 5°C. Giovana Girardi escreveu sobre o trabalho para o Estadão e a Science X fez um infográfico e uma descrição mais detalhada do trabalho. Pelo jeito, desmatar provoca aquecimento global e local também.

 

Energia Nuclear, a prisão de Temer e as “ajudas” governamentais aqui e nos EUA

Soube-se, ontem, que a prisão do ex-presidente Michel Temer teve origem nas investigações sobre a construção da usina de Angra 3 que tiveram origem na delação da Engevix, responsável por parte da obra. Estariam envolvidos o ex-almirante Othon Pinheiro, já condenado a 43 anos de prisão, e o amigo do ex-presidente, Coronel Lima. Segundo Fausto Macedo, no Estadão, “com custo estimado em R$ 14 bilhões e com as obras atrasadas, Angra 3 envolveu propinas de 1% nos contratos ao partido do presidente, segundo confessaram à força-tarefa da Lava Jato delatores das empreiteiras UTC, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa. A construção sob a responsabilidade da Eletronuclear – controlada pela estatal Eletrobrás – foi dividida em vários pacotes contratuais.”

O término da construção de Angra 3 é tido como estratégico nos planos do ministro de minas e energia, Almirante Bento Albuquerque. André Borges, também para o Estadão, conta que Angra 3 tem uma dívida de mais de R$ 6 bilhões para com o BNDES. E, segundo uma nota da dona da usina, a Eletronuclear, “foram feitas diversas tentativas de renegociação das condições de pagamento deste empréstimo, porém sem sucesso. O BNDES só aceita uma revisão mediante garantia da conclusão da obra”. As estimativas de quanto falta para concluir a obra variam entre R$ 14 e R$17 bilhões.

Até nisso o atual governo se alinha com Trump. Segundo a Bloomberg, Trump prometeu colocar US$ 3,7 bilhões (cerca de R$ 14 bilhões) para terminar a construção de uma usina nuclear na Georgia cujo preço, no final, estaria estimado em perto de US$ 20 bilhões. A capacidade de geração da usina da Georgia é quase o dobro da de Angra 3.

Em tempo: no começo da semana um comboio transportando combustível nuclear para Angra 1 e 2 teria feito uma troca de tiros com um pessoal do Morro do Frade, em Angra. Uma nota da Eletronuclear avisou que a troca de tiros aconteceu depois dos caminhões terem passado pelo local. Mas nossa atenção foi chamada pelo trecho final da nota: “Se um tiro de arma de fogo conseguisse atravessar a proteção do contêiner, poderia danificar o combustível nuclear. No entanto, isso não colocaria em risco a população nem o meio ambiente. O urânio contido em um elemento combustível está em estado natural, tendo o mesmo nível de radioatividade encontrado na natureza.” Mas o combustível, o isótopo 235 do urânio, é encontrado na natureza misturado com o isótopo 238, muito menos radioativo. A produção do combustível nuclear é um processo que consiste exatamente em aumentar a concentração do U-235 até o ponto deste ser capaz de provocar uma reação nuclear dentro de um reator. Em “estado natural” não há reação nuclear. Em estado de combustível, sua radiação é muitas vezes superior à encontrada na natureza.

 

A poluição nas grandes cidades é ainda mais letal do que se supunha

Pesquisadores alemães anunciaram o resultado de uma pesquisa sobre os efeitos da poluição atmosférica na saúde humana. Segundo seus cálculos, todo ano, quase 9 milhões de pessoas morrem precocemente por respirar ar poluído. Esse número é mais do que o dobro dos 4,2 milhões estimados anteriormente pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A diferença vem do desenvolvimento de um modelo global mais sofisticado e, principalmente, de um melhor entendimento dos efeitos do material particulado ultrafino, o PM-2.5 (partículas com diâmetro médio menores do que 2,5 micrômetros. O diâmetro do cabelo humano mais fino tem cerca de 50 micrômetros, vinte vezes maior). Esse resultado é duplamente preocupante no Brasil, porque não seguimos os padrões de qualidade do ar definidos pela OMS. Existem planos e cronogramas para tal, mas estes não definem uma data a partir da qual os padrões da OMS começam a valer. Detalhes em matéria d’O Eco.

Por falar em poluição, Dani Chiaretti, do Valor, conta que um dos trabalhos divulgados durante a Assembleia da ONU Meio Ambiente da semana passada dava conta que a indústria da moda é mais poluente do que a aviação e a navegação. No ciclo de vida completo das roupas, a soma dos impactos da produção agrícola, da produção animal, da produção de fibras sintéticas a partir do petróleo e da poluição da confecção são preocupantes, principalmente pelo uso de água e pelos efluentes gerados. Mas o maior impacto vem de quase não haver reuso, reaproveitamento e reciclagem de tecidos. Daniela escreve que “o dado impressionante é que se perde cerca de US$ 500 bilhões ao ano com o descarte de roupas que vão direto para aterros e lixões e sequer são recicladas.” Pior, cerca de meio milhão de toneladas de microfibras poluirão os oceanos do mundo.

 

Vitol: demanda por petróleo atingirá seu pico em 15 anos

A Vitol é pouco conhecida no Brasil, mas no ano passado ela foi a maior trader de petróleo do mundo. As projeções da empresa divulgadas nesta semana indicam que a demanda por petróleo e gás atingirá um pico por volta de 2034: “projetamos que a demanda por petróleo continuará crescendo durante os próximos 15 anos, mesmo levando em conta o crescimento da frota de veículos elétricos, mas o crescimento da demanda será impactado a partir daí”. Até lá, a se realizar a profecia e considerando as contas do Relatório Especial do IPCC do ano passado, o limite de 1,5oC já terá sido ultrapassado. A Reuters, o Financial Times e a Platts comentaram as projeções.

 

Os ônibus elétricos, e não os carros, derrubarão a demanda por petróleo

Um estudo da Bloomberg estima que durante este ano, os ônibus elétricos serão responsáveis por evitar a queima de 270.000 barris de diesel por dia, o triplo do que foi evitado pelos carros elétricos. O impacto somado dos ônibus e dos carros elétricos ainda é pequeno, conseguindo evitar da ordem de 3% do consumo global de combustíveis, mas está crescendo. Para a Bloomberg, as taxas de crescimento das vendas de ônibus e carros elétricos indicam que o inimigo do petróleo são os ônibus. As estimativas da Bloomberg indicam que, para cada mil ônibus elétricos rodando, 500 barris de diesel deixam de ser queimados. Como comparação, mil carros elétricos puros deixam de queimar o equivalente a apenas 15 barris de petróleo.

 

Podemos ter um El Niño monstro ainda neste ano

O serviço meteorológico australiano detectou um aumento da temperatura do Pacífico. Por isso, calcula uma chance de 70% de termos um El Niño ainda neste ano. Mais, a rapidez com que a temperatura oceânica vem subindo indica que é possível que o fenômeno entre para a categoria dos muito fortes. O Sydney Morning Herald dá detalhes sobre o que acontece no Pacífico e o que pode advir daí.

O forte El Niño de 2015-16 foi descrito pela Climatempo: “No Brasil, o fenômeno intensificou ainda mais a seca no Nordeste e também provocou estiagem prolongada no Norte, nos centro-norte de Minas e de Goiás e no Distrito Federal. Além disso, houve muitas inundações no sul do país e o impacto do fenômeno foi tão grande que até hoje causa transtornos na economia do Brasil, principalmente no setor elétrico e no de alimentos.”

 

Para ver:

O desaparecimento da foz do Eufrates

O delta na foz do Rio Eufrates é uma das áreas úmidas mais presentes na história da humanidade. Impérios nasceram e desapareceram nos pântanos da região. Mas agora estes estão desaparecendo. A combinação da destruição da Guerra Irã-Iraque com a invasão norte-americana e o estado de guerra civil, tudo isso temperado por uma seca prolongada, está secando a região. A Deutsche Welle publicou uma série de fotos tristemente lindas da região.

 

Para ler:

Por dentro da improvável ascensão de Alexandria Ocasio-Cortez

A matéria de capa da revista Time desta semana celebra a jovem deputada democrata norte-americana Alexandria Ocasio-Cortez, por lá conhecida por AOC. A revista diz que ela “agrega os três pilares da coalizão democrata, por ser mulher, jovem e hispânica”. AOC é uma socialista democrática “que emerge no justo momento em que a confiança no capitalismo está em declínio, especialmente entre os millennials progressistas. Sua agenda, que inclui o programa climático ‘Green New Deal’, o ‘Medicare for All’, uma proposta de garantia federal de empregos e a abolição da política para imigração conhecida por ICE (Immigration and Customs Enforcement), está animando uma nova geração de democratas. AOC é um fenômeno político: parte ativista, parte legisladora, provavelmente a melhor contadora de histórias do partido desde Barack Obama e, talvez, a única democrata com poder, no momento, capaz de desafiar o presidente Trump.” Anotem, vamos ouvir falar muito ainda de AOC.

 

Para ler:

Beneath the Surface: The State of the World’s Water 2019

Em todo o mundo, cerca de 4 bilhões de pessoas vivem em áreas com escassez de água e 844 milhões não têm acesso a água potável perto de casa. A crise mundial da água está piorando, mas globalmente usamos seis vezes mais água hoje do que usávamos há 100 anos, impulsionados pelo crescimento populacional e por mudanças nas dietas e hábitos de consumo. Este relatório revela os países com maiores parcelas da população vivendo com escassez física de água; como a demanda explosiva compromete o acesso à água para as pessoas mais pobres e marginalizadas; e como fazer escolhas ponderadas, uma vez que os consumidores podem ajudar a garantir o acesso à água para as necessidades básicas, onde quer que se esteja no mundo.

 

Para ler:

Moving towards next Generation Carbon Markets – Observations from Article 6 pilots

O trabalho explora três opções diferentes para a definição de uma medida baseada nos mercados destinada a enfrentar o impacto climático do transporte marítimo internacional: um regime de compensação, um regime de comércio de emissões marítimas e uma taxa climática. Os autores propõem quatro critérios para a avaliação e a escolha de uma medida, aplicam esses critérios às três opções e fazem recomendações para as discussões da Organização Marítima Internacional sobre o preço do carbono. Eles concluem que uma taxa sobre o clima seria a medida mais adequada para ajudar a descarbonizar o setor, em conformidade com os objetivos definidos no Acordo de Paris.

 

Para ler:

Mapping China’s Climate and Energy Policies

A quarta edição do relatório descreve, mapeia e analisa o Partido da China em nível nacional, agências governamentais, instituições acadêmicas e de pesquisa e atores do clima empresarial estatais na China, política a política. O relatório é apoiado pela Embaixada Britânica em Pequim, a Embaixada da República Federal da Alemanha em Pequim e a Embaixada da Suíça na China.

O relatório compreende doze capítulos organizados em três seções: partes interessadas e processo de formação de políticas, políticas e estratégia futura.

 

Para ir:

Caminhos para a eficiência energética no mercado brasileiro de condicionadores de ar

O Instituto Clima e Sociedade e o PROCEL/ELETROBRAS convidam para uma discussão sobre os programas brasileiros para os equipamentos de ar condicionado – o Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE) e o Selo Procel – como instrumentos para o aumento da eficiência energética. O evento foi estruturado de modo a provocar um debate propositivo sobre as oportunidades e as barreiras existentes para o avanço em direção à melhor performance desses equipamentos. A intenção dos organizadores é iniciar uma série de discussões sobre os impactos destes equipamentos sobre o sistema elétrico brasileiro (e, por consequência, sobre as emissões de gases de efeito estufa) e, para além disso, provocar debates sobre os caminhos e as soluções possíveis.

Dia 25 de março, das 8h30 às 18h, no auditório da Eletrobrás (Rua Conselheiro Saraiva, 41, Rio de Janeiro).

A programação pode ser vista aqui. As inscrições podem ser feitas aqui ou por meio deste e-mail.

 

Para ir:

Energia & Comunidades – feira e simpósio de soluções energéticas para comunidades da Amazônia

O encontro inédito quer promover a inclusão energética de comunidades isoladas na Amazônia, indígenas, ribeirinhos e povos tradicionais não atendidos pelo Sistema Interligado Nacional e nem pelos programas de universalização do acesso à energia elétrica, como o Luz para Todos.

Centro de Convenções do Amazonas – Rua Constantino Nery, 5001, Flores – Manaus. O Simpósio acontece de 25 a 27 de março, e a Feira vai de 25 a 28 de março de 2019. Saiba mais aqui.

 

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