Boletim

ClimaInfo, 21 de agosto de 2018

OS ERROS E OMISSÕES DOS PRESIDENCIÁVEIS SOBRE O MEIO AMBIENTE

O Truco, projeto de fact-checking da Agência Pública, deu um zoom no que tem sido dito sobre meio ambiente pelos presidenciáveis: “Marina Silva (REDE) usou um dado falso quando disse que o Brasil é o país com maior área de insolação do planeta. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixou de lado o contexto ao dizer que o governo de Michel Temer (MDB) autorizou o uso de agrotóxicos sem licença prévia dos órgãos de saúde. Ao criticar o prazo para concessão de licença de pequenas centrais hidrelétricas, Jair Bolsonaro (PSL) deu uma informação falsa. Ciro Gomes (PDT) também errou, ao dizer que o Brasil tem a matriz energética mais limpa e mais barata do mundo, porque é de base hidráulica. E Geraldo Alckmin (PSDB) omitiu o contexto ao falar que hoje os motores são flex em praticamente todos os carros nacionais.” Marina Silva dá a entender que o potencial de energia solar do país é gigante por tomar a insolação vezes a área do país todo, como se fosse possível cobri-lo com painéis fotovoltaicos. Quanto aos agrotóxicos, é verdade que os partidos da base de Temer estão tentando aprovar uma lei que afrouxa a regulamentação, mas ele não usou a caneta presidencial para liberar venenos. Bolsonaro mostrou que não entendeu nada sobre o processo de licenciamento e, pelo jeito, seu “posto Ipiranga” também não. Existem várias etapas e cada uma tem prazos de meses para seu cumprimento. Processos se alongam muito mais pela dificuldade que os proponentes têm em adequar seus projetos à legislação existente. Ciro também mostrou que o seu oráculo não é do ramo energético. Vários países têm matrizes energéticas mais limpas do que a nossa. Não que a nossa seja de todo ruim, mas não é a mais limpa. E o pessoal do Alckmin mostrou o que esperar dele. Ele disse que praticamente todos os carros nacionais têm motores flex. O que ele quis dizer foi que quase todos os carros fabricados no país nos últimos anos são flex. “Todos os carros nacionais” pode muito bem ser entendido como toda a frota de carros circulando no país, incluindo aí, os importados e os fabricados antes dos flex serem dominantes.

https://apublica.org/2018/08/truco-presidenciaveis-erram-ou-omitem-contexto-sobre-meio-ambiente/

 

A RIQUEZA NATURAL E A RESPONSABILIDADE DO FUTURO PRESIDENTE

André Trigueiro se queixou na Folha de S. Paulo sobre a riqueza natural do Brasil não estar nas campanhas eleitorais e cita o economista indiano Pavan Sukdev: “Nenhum outro país do mundo é mais rico que o Brasil. O Brasil é a capital global do capital natural. Ninguém além do Brasil tem tantas terras, com tantos ecossistemas naturais, tanta água doce.” Para Trigueiro, “quem for eleito presidente será responsável por esse patrimônio único no planeta. É possível gerar emprego e produzir riqueza sem aumentar a destruição. Mas, para isso, é preciso primeiro encaixar o discurso e a prática nos trilhos do século 21”.

Em tempo: Sukdev foi o inspirador e um dos responsáveis pelo TEEB (The Economics of Ecosystems & Biodiversity), um sistema promovido pela ONU para desenvolver e colocar em prática a valoração dos serviços ambientais prestados pela natureza.

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/andre-trigueiro/2018/08/novo-governo-vai-decidir-o-destino-do-maior-capital-natural-do-mundo.shtml

 

CANDIDATOS PRECISAM DIZER A QUAL LADO DO AGRONEGÓCIO SE ALIAM

Na semana passada, a bancada ruralista foi pedir a Temer a revogação de um decreto de 2007 que instituiu a política nacional de desenvolvimento sustentável dos povos e comunidades tradicionais. Os ruralistas também pediram a “suspensão dos processos demarcatórios embasados nesse normativo”. É mais uma linha na longa lista de retrocessos propostos pela bancada ruralista. Mesmo assim, vê-se neste período eleitoral muita gente pedindo mais atenção para com o setor agropecuário. Alckmin até chamou uma senadora ruralista para compor sua chapa, assim como Ciro Gomes.

Se os candidatos acham relevante a preservação das comunidades tradicionais, e que é imperativo o combate à grilagem e ao desmatamento da Amazônia e do Cerrado, então é preciso, para usar uma analogia rural, que em seus discursos e propagandas separem o joio do trigo e dêem nome aos maus bois dos quais querem distância, sob pena de verem estes crimes imputados à suas pessoas.

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/08/bancada-ruralista-pede-a-temer-revogacao-de-decreto-sobre-comunidades-tradicionais.shtml

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,o-agronegocio-na-proposta-de-alckmin,70002461683

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/08/com-vice-ligada-ao-agronegocio-alckmin-amplia-defesa-de-pleitos-ruralistas.shtml

 

É PRECISO REVER SUBSÍDIOS À GERAÇÃO FÓSSIL E NÃO ÀS FONTES LIMPAS

A declaração do novo diretor da Aneel dizendo que iria rever os subsídios às fontes renováveis atraiu críticas das mais diversas. Um editorial do Valor elenca uma série de impactos que o setor elétrico está provocando na economia como a saída de boa parte da indústria do alumínio, a dependência de governos estaduais quebrados com a arrecadação do ICMS da eletricidade e até produtores rurais que ganham uma tarifa especial para a eletricidade gasta com irrigação. Conclui que é preciso pôr ordem na casa e termina alfinetando o novo diretor dizendo que “os subsídios aos combustíveis fósseis entre 2013 e 2017 chegaram a R$ 68,6 bilhões, segundo o Inesc, embora os dados sejam distorcidos pelo represamento de preços do governo Dilma Rousseff. Em 5 anos também as termelétricas a diesel para a região Norte consumiram R$ 27 bilhões. É errado colocar no mesmo saco o dinheiro que garante o futuro da energia limpa e o que sustenta a energia suja, do passado.”

O jornalista Elio Gaspari, por sua vez, vai direto ao alvo: “há um forte cheiro de que estão armando uma trava para o avanço do consumo de energia limpa. Interesse de quem? Das distribuidoras.”

https://www.valor.com.br/opiniao/5749943/subsidios-na-energia-precisam-ser-revistos-com-muito-criterio

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/eliogaspari/2018/08/o-atraso-quer-bloquear-energia-limpa.shtml

 

RENOVABIO PODE AUMENTAR COGERAÇÃO A BAGAÇO DE CANA

O Renovabio é um dos poucos programas propostos no governo Temer que conta com apoio de parte do setor empresarial. A ideia principal é manter o etanol mais barato que a gasolina e esperar que os donos de carros flex ajam racionalmente. Para cada litro de etanol vendido, o produtor ganha um adicional vendendo créditos de biocombustíveis, os Cbios, no mercado. O programa espera que as receitas com os Cbios se revertam em investimentos na cadeia da cana. Parte iria para aumentar a produtividade dos canaviais, parte para aumentar a eficiência da destilaria e parte na geração de eletricidade. Isso porque a quantidade de Cbios que o produtor recebe é proporcional à uma nota técnica que indica as emissões na produção do etanol. A nota técnica melhora se exportar eletricidade gerada a partir do bagaço, assim como se aumentar a produtividade do canavial usando a mesma quantidade de adubo. A ver se o programa vai pegar e, em pegando, se vai gerar receita suficiente para que tudo isso aconteça.

https://www.valor.com.br/agro/5749945/renovabio-deve-estimular-cogeracao-da-cana#

 

PLANO ENERGÉTICO DE TRUMP PODE EMITIR CENTENAS DE MILHÕES DE TONELADAS ADICIONAIS DE CO2

O novo plano energético de Trump, se posto em ação, aumentará substancialmente as emissões do 2o maior emissor do mundo. O Plano altera uma das metas do plano de Obama que buscava cortar 19% das emissões na geração elétrica até 2030, a reduzindo para uma banda entre 0,7% e 1,5%. Para chegar lá, ele basicamente acaba com as metas de eficiência estabelecidas por Obama e que, na prática, fechariam as térmicas a carvão e fariam as a gás se modernizarem. Analistas estimam que as emissões que Trump está adicionando equiparam-se a acrescentar emissões equivalentes às de 360 milhões de carros nas ruas.

https://www.washingtonpost.com/national/health-science/new-trump-power-plant-plan-would-release-hundreds-of-millions-of-tons-of-co2-into-the-air/2018/08/18/be823078-a28e-11e8-83d2-70203b8d7b44_story.html

https://www.nytimes.com/2018/08/17/climate/trump-clean-power-rollback.html

 

O GATO AUSTRALIANO SUBIU NO TELHADO

O primeiro ministro liberal, Malcolm Turnbull, ensaiou um passo atrás nos compromissos que o país assumiu junto ao Acordo de Paris para apaziguar seu partido e evitar uma crise que poderia levar a uma rebelião interna à sua coalizão. No seu novo plano de energia (NEG – National Energy Guarantee), ele se disse forçado a retirar metas de emissão alinhadas com os compromissos de Paris. Colegas de gabinete disseram que esses compromissos foram assumidos há 3 anos e que as condições mudaram. Seu maior adversário interno, Tony Abbott, foi o primeiro ministro que assinou o Acordo. Depois, Abbot voltou atrás quando Trump tirou os EUA do Acordo, dizendo que “quando os grandes emissores não estão assumindo Paris, porque nós deveríamos fazê-lo?” Analistas dizem que a crise ainda não passou. Enquanto isso, os trabalhistas e verdes estão esperando para ver o que vai sair disso. Hoje, a coalizão liberal tem 76 cadeiras no Parlamento e a oposição 72.

A Austrália tem investido muito em renováveis, mas, ao mesmo tempo, tem uma indústria carvoeira extremamente forte. E isso se reflete na crise atual.

https://www.smh.com.au/politics/federal/malcolm-turnbull-removes-all-climate-change-targets-from-energy-policy-in-fresh-bid-to-save-leadership-20180820-p4zyht.html

https://edition-m.cnn.com/2018/08/20/australia/turnbull-drops-energy-policy-intl/index.html?r=https%3A%2F%2Fwww.google.ca%2F

 

MAIORIA DOS MODELOS ECONÔMICOS NÃO INCLUEM A MUDANÇA DO CLIMA

A maioria dos estudos sobre os impactos da mudança do clima estão baseados em modelo macroeconômicos. No entanto, há uma lacuna chamada clima nos principais modelos de previsão da economia. Um bom artigo na CNN Money tenta explicar porque a “grande” economia ainda não percebeu que o clima mudou. A principal explicação é o tempo: enquanto o mundo climático mira 2030, 2050 e o final do século, o mundo da economia tende a olhar para períodos bem menores. O Gabinete de Orçamento do Congresso norte-americano trabalha com previsões de até 10 anos. Recentemente, o diretor do Gabinete, Keith Hall, disse numa audiência do Senado que eles acham que os impactos climáticos não são significativos neste horizonte de tempo e que a única agência a levar o clima em consideração é o Programa Nacional de Seguros contra Enchentes. No entanto, isso pode estar começando a mudar. Houve um súbito interesse em 2014, quando  Janet Yellen, a então presidente do Fed, o banco central dos EUA, atribuiu uma sequência de trimestres ruins a um inverno particularmente rigoroso. E isso o pessoal do clima vinha alertando que ficaria mais frequente. O artigo termina com uma frase interessante: “Se o (mau) tempo pode levar o Fed a rever as estimativas de crescimento econômico no passado, ele pode passar a olhar de mais perto o que um clima em mudança pode implicar no futuro”.

https://money.cnn.com/2018/08/17/news/economy/climate-change-economic-forecasts/index.html

 

ESPECIALISTA EM AMAZÔNIA ADVERTE SOBRE O IMPACTO DA MUDANÇA DO CLIMA NA BIODIVERSIDADE

O Estadão entrevistou Ghillean Prance, um dos maiores ecologistas do mundo, com experiência de mais de 50 anos de Amazônia. Segundo a jornalista Roberta Jansen, Prance “viveu em 16 diferentes tribos indígenas, teve malária, estudou a biodiversidade amazônica, sofreu um desastre de avião na selva e testemunhou a destruição da mata. Ele conta que “já em 1970, começou a construção da Transamazônica e de represas, e então comecei a notar problemas ambientais… Vendo a destruição sem nenhum plano sustentável, acabei me tornando muito mais ecologista”. Na opinião de Prance, a mudança do clima traz o risco de desertificação e um perda grande da biodiversidade. E diz ainda que “se você olhar o mapa da floresta, verá que as áreas onde ainda vivem os índios são as mais conservadas. Muitas das tribos não destroem grandes áreas e usam a floresta de forma sustentável. Essa é uma coisa
que deveríamos aprender com eles, os métodos sustentáveis de manejo da floresta”.

https://ciencia.estadao.com.br/noticias/geral,mudanca-climatica-e-ameaca-a-biodiversidade-diz-botanico,70002462005

 

Siga o ClimaInfo nas redes sociais: www.facebook.com/climainfo e www.twitter.com/climainfonews