BOLETIM

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ClimaInfo, 14 de agosto de 2018

GRANDE PARTE DO INVESTIMENTO NO AGRONEGÓCIO VEM DE PARAÍSOS FISCAIS

Dos US$ 27 bilhões transferidos do exterior para nove das maiores empresas do agronegócio entre 2000 a 2011, US$ 18 bilhões (quase 70%) vieram de paraísos fiscais. A proporção é quase duas vezes maior que o recebido pela média das empresas brasileiras, segundo um estudo que acaba de ser publicado pela Nature Ecology & Evolution. O estudo mostrou, também, que 70% dos navios pesqueiros envolvidos com a pesca ilegal ou não regulamentada têm bandeiras de paraísos fiscais, em especial do Belize e do Panamá, embora as frotas desses locais correspondam a menos de 5% dos navios registrados no mundo para esta finalidade.

Na maioria dos casos estudados, não há indícios diretos de atividades criminosas possibilitadas pela conexão com os paraísos fiscais. Mas o uso destes países nas transações, além de aumentar o risco de evasão fiscal, afeta a transparência e o controle de atividades que trazem riscos ao ambiente. “Em princípio, seria possível usar bons métodos estatísticos para mostrar que esses investimentos impulsionaram o desmatamento”, disse o principal autor do trabalho à Folha de S. Paulo, “mas, para isso, precisaríamos de mais dados financeiros aos quais não temos acesso, em parte porque as ligações com os paraísos fiscais aumentam o grau de segredo financeiro.”   

O estudo analisou as informações sobre Bertin, JBS, Marfrig e Minerva, ligadas ao negócio da carne, e sobre Bunge, Cargill, Archer Daniels Midland, Amaggi e Louis Dreyfus, ligadas à soja. As empresas ligadas à carne tinham, no período, mais de um terço da capacidade total de abate no país, enquanto as ligadas à soja tinham cerca de metade da capacidade nacional de processamento do grão.

https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2018/08/carne-soja-e-pesca-na-amazonia-tem-ligacoes-estreitas-com-paraisos-fiscais.shtml

https://m.dw.com/pt-br/estudo-liga-para%C3%ADsos-fiscais-a-desmatamento-na-amaz%C3%B4nia/a-45061671

https://www.nature.com/articles/s41559-018-0497-3

 

EÓLICAS BRILHARÃO NO PRÓXIMO LEILÃO

As eólicas devem ser as estrelas do leilão de compra de eletricidade programado para o final deste mês. No último leilão foi possível, por exemplo, atender uma demanda de 100 MW com uma térmica de 500 MW, sendo os 400 MW restantes vendidos como “sobrecontratação involuntária”. No próximo leilão, as sobras não serão aceitas, o que exclui as grandes térmicas. Esta regra facilita a vida das eólicas, as quais podem adequar o número de aerogeradores à demanda contratada. Na visão do setor elétrico, a economia demorará a retomar o crescimento e o PIB não crescerá muito nos próximos anos, o que afasta os investidores. E o setor tem muita empresa endividada e com contratos de longo prazo já firmados.

Ainda falando de energia eólica, a Echoenergia, braço de investimento em projetos de energia eólica do fundo britânico Actis, quer alcançar a capacidade de 1 GW ainda este ano no Brasil. Passará a ser a 2a maior, atrás apenas da CPFL Renováveis, que tem uma carteira com capacidade de 1,3 GW.

https://www.valor.com.br/brasil/5729489/eolicas-terao-destaque-em-leilao-de-energia

https://www.valor.com.br/empresas/5729459/geracao-eolica-da-echoenergia-pode-atingir-1-gw-em-2018

 

A EXPANSÃO DA GERAÇÃO A GÁS E O AUMENTO DAS CONTAS DE LUZ

Com a perda de espaço no leilão deste mês, o pessoal das térmicas a gás gostaria que elas substituíssem as térmicas a óleo combustível, principalmente no Nordeste. Hoje, por lá, existem 12 delas somando mais de 2,1 GW de capacidade de geração. Até faria sentido para o clima, posto que gerar eletricidade com gás natural emite cerca de metade do CO2 gerado pela queima de óleo combustível, sem falar de outros poluentes. E mais, gerar com óleo é mais caro do que gerar com gás, o que eleva o custo de geração no Nordeste, custo que é pago por todos os consumidores na forma da bandeira tarifária. Só que não; o problema para o clima é que todas as termelétricas a gás começaram a operar a partir de 2009 e ainda têm muita vida útil pela frente. Em um futuro descarbonizado, nenhuma fóssil, a óleo ou a gás, faria sentido. As renováveis associadas a baterias e sistemas de gerenciamento de demanda podem perfeitamente ocupar o lugar dos fósseis.

Enquanto isso, lá do Reino Unido, o executivo-chefe da agência reguladora de energia parece ter enviado um recado ao sistema elétrico brasileiro. Segundo o que escreveu no Telegraph, “os medidores inteligentes fornecem as bases para uma revolução energética… [para] um sistema mais inteligente, mais limpo e de menor custo”. Segundo ele, os medidores inteligentes ajudam a suavizar os altos e baixos da demanda de eletricidade, reduzindo a quantidade necessária de back-up energético e, assim, “ajudarão a reduzir as contas de energia”.

https://www.valor.com.br/brasil/5729491/setor-quer-substituir-oleo-por-gas-no-nordeste

https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/08/setor-eletrico-impulsiona-expansao-do-setor-de-gas.shtml

https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,seca-e-subsidios-fazem-conta-de-luz-subir-quatro-vezes-mais-que-a-inflacao-no-ano,70002447262

https://www.telegraph.co.uk/business/2018/08/12/time-switch-smart-meter-revolution

 

TEMPOS DIFÍCEIS PARA OS FABRICANTES DE PAINÉIS SOLARES

O governo Temer não está cumprindo suas promessas, e os chineses que instalaram fábricas de painéis solares em 2016 estão pensando seriamente em fechar as portas. A S4 Solar já fechou a fábrica de Suape (PE), e a BYD deu férias coletivas ao pessoal da fábrica de Campinas (SP), podendo fechar as portas até o final do ano. A Canadian Solar deu começou dando férias coletivas, depois cortou ⅔ dos postos de trabalho da fábrica de Sorocaba e agora está operando com ⅓ de sua capacidade. O governo Temer tinha garantido a demanda de painéis por meio da participação de plantas fotovoltaicas nos leilões de eletricidade, mas, no final, abriu muito pouco espaço para tal. O governo também prometeu financiamento a taxas baixas para plantas que aqui fabricassem painéis, além de prometer isenção de PIS/Cofins e IPI para a compra de componentes usados na fabricação destes. A crise fiscal do governo e os esforços para reduzir o déficit público fizeram com que não saíssem nem o financiamento nem as tais isenções. O pessoal d’O Globo procurou o governo para obter explicações sobre a situação. A Fazenda e a Receita Federal não responderam. O Ministério das Minas e Energia respondeu que “prioriza a participação das fontes limpas e renováveis na matriz energética, entre elas, a solar”.

O entendimento governamental da palavra “priorizar” é bem diferente daquele encontrado nos dicionários, haja vista as centenas de bilhões de incentivos às petroleiras e os bilhões dados às montadoras por meio do Rota 2030.

https://oglobo.globo.com/economia/sem-incentivos-fabricantes-de-paineis-solares-agonizam-no-brasil-22971029

 

EMPRESAS SE ESFORÇAM PARA SER VERDES

O Globo publicou duas matérias sobre as fontes renováveis que vêm atraindo o interesse de petroleiras e de empresas interessadas em se proteger contra as altas das tarifas de energia elétrica. José Mauro, diretor de Petróleo da EPE (empresa responsável pelo planejamento energético do país), diz que “as petroleiras estão preocupadas com a própria sobrevivência no futuro. Há estimativa de que a demanda de petróleo comece a cair a partir de 2040”. Assim, espera-se que elas se vistam de verde e passem a investir nas renováveis. Para tanto, a Petrobras está firmando parcerias com outras petroleiras. Com a francesa Total, quer investir em solar e eólica em terra. Com a norueguesa Equinor, está mirando nas eólicas off-shore. A Raízen, uma das maiores produtoras de etanol, é uma joint-venture da Shell com a Cosan. E a BP também está interessada no etanol. José Ricardo Oliveira, sócio da consultoria EY, acha que “a aposta das petroleiras tem viés crescente. Vai ser uma das áreas que mais vão receber investimentos nos próximos anos. Além disso, as companhias querem melhorar seu portfólio, diminuindo a percepção de empresa suja”.

Grandes consumidores corporativos também estão investindo em renováveis para se proteger do aumento continuado das tarifas de eletricidade. A Oi está investindo em plantas fotovoltaicas em Minas Gerais. A Claro quer suprir 80% da sua demanda com eólicas e solares.

https://oglobo.globo.com/economia/petroleiras-buscam-investir-em-fontes-de-energia-renovavel-22970958

https://oglobo.globo.com/economia/empresas-investem-em-projetos-eolicos-solares-para-fugir-da-alta-conta-de-luz-22971009

 

OS GRANDES IMPACTOS DAS PEQUENAS CENTRAIS HIDRELÉTRICAS

Em 2008, a Suíça aprovou uma lei criando tarifas feed-in para promover a expansão de fontes renováveis de energia. A lei incentiva as fontes eólica e solar, mas também as pequenas centrais hidrelétricas (PCHs), o que acabou resultando na construção de 116 destas pequenas hidrelétricas. E o que o país ganhou? Pouco, já que estas novas PCHs geram 498 GWh por ano, menos de 1% da geração anual do país.

Da China ao Brasil e aos países dos Bálcãs, vários países aprovaram políticas que reduzem a necessidade de planejamento e regulação para PCHs, muitas vezes dentro de programas de redução das emissões de gases de efeito estufa. Embora as PCHs não inundem vales inteiros, como costumam fazer as grandes represas hidrelétricas, elas fragmentam os cursos de água, impedem ou no mínimo dificultam a migração dos peixes rio acima e desviam a maior parte da água dos canais principais para as casas de força, deixando longos trechos com fluxo drasticamente reduzido durante a maior parte do ano. Isso sem falar da degradação estética da paisagem.

Estudos feitos na Noruega, na Espanha e na China concluíram que as PCHs têm um impacto maior por megawatt do que os grandes projetos hidrelétricos. No exemplo da bacia do rio Douro, na Espanha, projetos hidrelétricos com menos de 10 MW causam quase ⅓ dos impactos hidrelétricos na bacia, enquanto produzem apenas 7% do total de energia gerada. Além disso, as 140 PCHs ali existentes criaram sete vezes mais barreiras (para, por exemplo, a movimentação de peixes) do que as 17 grandes da bacia hidrelétricas, para gerar uma energia 15% mais cara e menos flexível para o atendimento da demanda da rede.

https://www.forbes.com/sites/jeffopperman/2018/08/10/the-unexpectedly-large-impacts-of-small-hydropower/#4d14fac97b9d

https://news.mongabay.com/2018/03/small-hydropower-a-big-global-issue-overlooked-by-science-and-policy

 

MUNDO DIVIDIDO: RICOS REFRESCADOS E POBRES MORTOS DE CALOR

O fosso que separa ricos e pobres está crescendo por causa da mudança do clima. Isto ficou mais evidente durante a mega onda de calor que passou pelo hemisfério norte. No Canadá, o calor matou 54 pessoas em Montreal, a maioria de pessoas acima de 50 anos que viviam sozinhas e eram portadoras de problemas físicos e/ou mentais. Nenhum tinha um aparelho de ar condicionado em casa. Alguns corpos foram encontrados já em decomposição, dias mais tarde. Nas casas mais ricas, que têm temperatura ambiente controlada, ninguém morreu. Nos EUA, trabalhadores imigrantes têm três vezes mais chance de morrer por exposição ao calor do que os cidadãos norte-americanos. Lá, a população branca tem mais chance de viver em áreas bem arborizadas que ajudam a manter a temperatura ambiente mais amena. Imigrantes e negros moram em áreas mais abertas e asfaltadas, que potencializam os efeitos do calor. Em 24 cidades da Índia, a temperatura média neste verão deve chegar a 35oC e os moradores de favelas e os sem-teto são os mais vulneráveis. No Egito, as construções eram baixas e separadas por estreitos corredores, sombrios, porém frescos. Com a onda de edifícios altos acessíveis por ruas asfaltadas, onde o concreto eliminou o verde, o calor está sufocante. A matéria do Guardian traz uma longa lista de lugares onde as temperaturas altas estão abrindo mais o fosso entre ricos e pobres.

Outra matéria, esta da NBC, aponta que o calor pode tornar inabitáveis países do norte da África e do Oriente Médio. No delta do Nilo, no Egito, a elevação do nível do mar salinizou a terra ao longo de uma faixa de entre 10 km e 20 km, terra que costumava ser das melhores para a agricultura há milhares de anos.

O título de um terceiro artigo diz tudo: “O fato é que ninguém vai fazer nada a respeito da mudança do clima até que ela mate um monte de gente branca”. O artigo fala especificamente de brancos norte-americanos. O autor, Charles Mudede, compara o apoio dado à Flórida e ao Texas após os furacões do ano passado, com aquele dado a Porto Rico. Mudede escreve que “as vidas (perdidas) naquela ilha são negras e marrons. Elas não importam.”.

https://www.theguardian.com/cities/2018/aug/13/heat-next-big-inequality-issue-heatwaves-world

https://www.nbcnews.com/news/world/searing-heat-made-could-make-countries-north-africa-along-persian-n899921

https://www.thestranger.com/slog/2018/08/08/30459308/the-fact-is-nothing-is-going-to-done-about-climate-change-until-it-kills-lots-of-white-people

 

ONDA DE CALOR COLOCA MEIO AMBIENTE NAS PESQUISAS ELEITORAIS NA SUÉCIA

Provavelmente por conta da onda de calor e dos incêndios florestais que atingiram a Suécia, as pesquisas prévias às eleições gerais de setembro mostram que as questões ambientais são a segunda maior preocupação dos eleitores. A temperatura média ficou entre 3oC e 5oC mais alta do que o usual, os incêndios atingiram uma área de 25 mil hectares e a safra de grãos será 30% menor do que o normal. Uma pesquisa eleitoral recente mostrou que 16% dos eleitores acham que o meio ambiente é o problema mais importante.

Aqui, a mudança do clima e o meio ambiente continuam sendo pouco mencionados por candidatos e eleitores.

https://uk.reuters.com/article/uk-europe-weather-sweden/heat-wave-pushes-environment-up-the-political-agenda-in-sweden-poll-idUKKBN1KU18T

 

FUNDOS DE PENSÃO INGLESES PRESSIONADOS PARA LEVAR A SÉRIO OS RISCOS CLIMÁTICOS

O movimento para levar a mudança do clima aos tribunais ganhou mais uma arena de batalha. A ONG inglesa ClientEarth, especializada em litígios ambientais, avisou quatorze dos maiores fundos de pensão que os levaria aos tribunais caso não comecem a considerar os efeitos da mudança do clima no seu portfólio de investimentos. Dentre os fundos, estão o da Tesco (uma das maiores redes de varejo do Reino Unido), o da British Airways e o da petroleira BP. A carta, dentre outras, diz que “estamos preocupados que você, enquanto administrador de portfólio, possa não estar tomando os passos necessários para enfrentar os riscos climáticos e, portanto, não estar gerindo os investimentos do Fundo de maneira consistente com os melhores interesses de seus membros. Assim, você está pondo em risco os benefícios de aposentadoria de seus membros e se expondo pessoalmente a processos judiciais por violação de seus deveres fiduciários”.

Um  número cada vez maior de fundos de pensão europeus estão dando passos para avaliar as ameaças que a mudança do clima traz a seus portfólios. Eles eram um grupo de 5% no ano passado e já são 17% agora.

https://www.ft.com/content/48dfa43e-4219-3001-a71a-aae47185fd03

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