BOLETIM

Boletim

ClimaInfo, 17 de janeiro de 2019

Salles volta atrás na suspensão de contratos e convênios com ONGs

O ministro do meio ambiente Ricardo Salles enviou um ofício aos seus comandados, determinando a suspensão por 90 dias de contratos e convênios com ONGs. Também pediu um levantamento de todos os desembolsos destinados às ONGs durante o ano passado e feitos pelos fundos ligados à pasta, como o Fundo Clima e o Fundo Amazônia. As ONGs reagiram rapidamente dizendo que a eventual suspensão generalizada de contratos e convênios é ilegal, já que a lei só permite tal suspensão se houver suspeitas de irregularidade e depois de procedimentos legais, com amplo direito ao contraditório. A Folha, o Estadão e O Globo escreveram sobre o ofício e Miriam Leitão o comentou no rádio. Mas, na tarde de ontem, frente à repercussão do ofício, o ministro recuou, dizendo que não haverá suspensão das parcerias em vigor. À Folha, disse que “nenhum convênio em execução será suspenso (…) Nós iremos suspender por 90 dias aqueles que já estão assinados, mas ainda não iniciaram suas ações, para análise. Para aqueles que estão em execução, será solicitado os desembolsos e o plano de trabalho (sic).” A Veja também escreveu sobre o recuo de Salles.

 

“O consenso internacional quer? Vai ficar querendo”

O ministro Salles mostra uma disposição incomum para entrevistas. A cada uma, lança uma ideia nova ou desenvolve uma anterior. Falando a Ana Carolina Amaral, da Folha de São Paulo, insistiu que o Acordo de Paris ameaça a soberania nacional: “Não podemos deixar que os princípios (do Acordo) sejam usados para dentro do ordenamento jurídico brasileiro, para que se criem normas desconectadas da realidade ou excessivamente rigorosas, que interfiram no desenvolvimento econômico sustentável do Brasil sob o pretexto do Acordo de Paris.” O ministro sabe muito bem que os compromissos assumidos foram estabelecidos pelo Estado brasileiro, após muitas consultas a vários segmentos da sociedade. Em seguida, ele explica o que entende por pressão internacional e o que pretende fazer a respeito: “Quando a gente começa a sofrer essas pressões todas de tudo quanto é organismo, entidade, ONG, isso é uma imposição. O que eu penso, e acredito que nesse aspecto falo também pelo presidente, é que as nossas posições serão tomadas de acordo com nossos interesses. O que entendermos que for bom para o Brasil, faremos. Aquilo que não estiver alinhado com o que a gente quer, por qualquer razão que seja, nós não faremos. Ah, mas o consenso internacional quer? Ué, vai ficar querendo.” Como em outras entrevistas, o ministro enxerga o Acordo de Paris como uma fonte de renda, e não como um esforço coletivo e global para evitar o prejuízo econômico, humano e ambiental da mudança do clima.

Salles, mais uma vez, faz acusações pesadas, mas sem nomes, datas e locais: “Porque o que acontece hoje: o sujeito tem o direito de desmatar naquela área, mas o pessoal boicota o licenciamento dele até não poder mais.” É o caso de se perguntar: Quem boicota? Quando boicotou? Quanto tempo é “até não poder mais”?

O ministro tentou se eleger deputado no ano passado, não conseguiu, mas ainda não desceu do palanque.

Em tempo: a coluna do agronegócio da Folha de ontem conta dos prejuízos de produtores de arroz e feijão por conta do clima. O clima, ministro, mudou. É para proteger os produtores de arroz, feijão, soja, milho, e para proteger todos os brasileiros, que o Acordo de Paris foi adotado, não para fazer caixa.

 

“Gisele Bündchen é o máximo”, diz a ministra da agricultura

A uber-modelo estranhou uma entrevista da ministra da agricultura, Tereza Cristina, na qual chamou-a de má-brasileira e que não deveria “sair criticando o Brasil sem saber dos fatos”. Gisele estranhou ser “mencionada de forma negativa por defender e me manifestar em favor do meio ambiente”. Com muita classe, explicou que “estou sempre buscando conhecimento através de leituras e contatos com cientistas, pesquisadores, agricultores…” Ela termina sua resposta dizendo “torço para poder divulgar ações positivas (…) Precisamos lembrar que os recursos naturais são finitos e as florestas têm papel fundamental no equilíbrio do clima na terra”.

Rapidinho a ministra tuitou: “Vamos construir juntas uma agenda contra o desmatamento ilegal e a grilagem. Eu disse na rádio Jovem Pan que você era o máximo!”

Em tempo: Tereza Cristina anunciou Valdir Colatto como o novo chefe do Serviço Florestal Brasileiro. Colatto, membro destacado da bancada ruralista, não se reelegeu, mas é célebre pelos discursos críticos ao percentual de terra que deve ser preservado por fazendeiros, algo francamente contrário aos objetivos do SFB, que foi criado para “promover o conhecimento, o uso sustentável e a ampliação da cobertura florestal, tornando a agenda florestal estratégica para a economia do país”. Pois é ministra, assim será difícil construir uma agenda com la Bündchen.

 

A indiferença do presidente para com o meio ambiente

No Congresso em Foco, André Lima diz que “em menos de 15 dias, o presidente Bolsonaro já conseguiu fazer “reformas” que nem mesmo FHC, Lula I e II, Dilma e meia, e meio Temer nos momentos mais ruralistas de seus governos ousaram tentar.” André lista funções transferidas para o ministério da agricultura, como a demarcação de terras indígenas, a extinção das áreas de desmatamento e clima do ministério do meio ambiente e da área de clima no Itamaraty. André lembra que os avanços na legislação ambiental aconteceram “com um Congresso Nacional e mesmo governos nacionais com forte (e crescente) presença e pressão ruralista. Houve muita negociação, não houve um parágrafo de lei que não tivesse sido negociado até o último minuto no Plenário dos parlamentos (Senado e Câmara) e na sanção presidencial. Portanto, não foi uma tomada de assalto da política brasileira por ambientalistas insanos no propósito de arruinar a balança comercial brasileira.”

Em tempo 1: é esta legislação que faz a ministra da agricultura estufar o peito para dizer ser a mais avançada do mundo.

Em tempo 2: a “supercoluna” da jornalista Giovana Girardi para o Estadão conta em detalhe porque a permanência de Bolsonaro no Acordo de Paris não afasta o temor com o aumento do desmatamento, principalmente por conta das mudanças nos ministérios do meio ambiente e das relações exteriores que tiram do foco o combate às mudanças climáticas.

 

O rebaixamento da diplomacia brasileira

Sob o título “O Brasil rebaixa sua diplomacia climática com a reforma de Bolsonaro”, Megan Darby escreve no Climate Home News sobre as mudanças na política externa brasileira, agora capitaneada pelo ministro Ernesto Araújo, as quais refletem seu “ceticismo em relação à mudança do clima e às relações internacionais”.

Daniel Rittner, descreve no Valor as principais mudanças no Itamaraty, tanto na estrutura organizacional quanto na “mudança geracional nos postos de comando da casa. Embaixadores mais experientes, na casa dos 60 a 70 anos e com passagem por algumas das missões mais relevantes do país no exterior, perderam funções para as quais haviam sido designados.” Elas serão ocupadas por “diplomatas mais jovens, na faixa dos 50 anos, como o próprio Araújo (51)”. Rittner também fala do desaparecimento da agenda climática do Itamaraty e traz a preocupação do climatólogo Carlos Nobre e de Carlos Rittl, do Observatório do Clima.

 

Por uma “bioindustrialização sustentável”, ou pop mesmo é o agronegócio holandês

Carlos Nobre, professor da USP, Suzana Kahn e Fabio Scarano, professores da UFRJ, explicam em um artigo n’O Globo porque o Brasil corre o risco de, mais uma vez, perder o bonde da história ao alavancar ainda mais o processo de “reprimarização da economia nacional, cada vez mais pautada na exportação de commodities agrícolas e minerais, [e] associada à gradual desindustrialização do Brasil.” O contraponto seria “buscar tornar-se uma potência ambiental por conta de suas características tropicais de abundância de água, sol e clima favorável. Somando a isso, a rica biodiversidade nacional, temos o substrato para o que chamamos de ‘bioindustrialização sustentável’.” Para exemplificar o potencial que conhecimento e tecnologia significam, eles citam o exemplo da Holanda, que “com 5% a 10% de área agrícola total em comparação à área destinada à agropecuária de exportação no Brasil, fatura mais em exportações com o seu agronegócio altamente tecnológico do que o Brasil. Isto é, a Holanda possui uma agricultura, no mínimo, 10 vezes mais eficiente do que a nossa.” O título da matéria é Agro Holandês é Pop.

 

Os riscos globais segundo o Fórum Econômico Mundial

Todo ano, às vésperas de seu encontro em Davos, o Fórum Econômico Mundial publica um relatório sobre os grandes riscos globais. Trata-se de uma pesquisa com mais de mil especialistas e tomadores de decisão. No relatório deste ano, no topo da lista dos riscos que causam o maior impacto e que têm a maior probabilidade de ocorrer estão, nesta ordem: i) eventos climáticos extremos; ii) não conseguir mitigar e adaptar às mudanças do clima; iii) desastres naturais; iv) crises hídricas; e v) a perda de biodiversidade e colapso de ecossistemas. Só depois aparecem ameaças como os ataques cibernéticos e os colapsos de infraestrutura críticas. Para Alison Martin, do Grupo Zurich de seguros, “o ano passado foi marcado por incêndios históricos, inundações contínuas e aumento das emissões de gases de efeito estufa. Não é surpresa que, em 2019, os riscos ambientais dominem mais uma vez a lista das principais preocupações. Para responder efetivamente às mudanças climáticas, é necessário um aumento significativo da infraestrutura para se adaptar a esse novo ambiente e passar para uma economia de baixo carbono”. O Neo Mundo/Estadão comentou o relatório.

Em tempo: é com essa visão que Bolsonaro terá que se haver em Davos, na próxima semana.

 

Grandes petroleiras começam a pensar na vida após o petróleo

A luta contra o aquecimento global passa, necessariamente, pelo abandono dos combustíveis fósseis, e quanto mais rapidamente melhor. Há décadas que as petroleiras são um obstáculo poderoso e rico para o avanço desta agenda, ora financiando negacionistas, políticos e campanhas, ora agindo em fóruns internacionais para procrastinar leis, resoluções e tudo que pode ameaçar seus balanços. Para estas empresas, a ameaça concreta que se aproxima é ver suas preciosas reservas perderem o valor e se tornarem “ativos encalhados”. Há nestas, no entanto, sinais de vida inteligente. Uma matéria da Scientific American conta que, desde 2016, a Shell vem colocando US$ 2 bilhões ao ano em joint-ventures ligadas aos biocombustíveis. Uma das grandes operações realizadas criou a Raízen, em parceria com a Cosan, líder de mercado de etanol. A Shell também entrou em um projeto de demonstração de uma planta de produção de biocombustíveis a partir de resíduos agrícolas na Índia. Na Alemanha, a Shell está investindo em postos de hidrogênio e, em toda a Europa, em estações de recarga de baterias. Bob Perciasepe, do Center for Climate and Energy Solutions, um think tank norte-americano, arrisca pensar que o que “elas (as petroleiras) estão fazendo não é relações públicas. Elas estão começando a realmente colocar recursos e cérebros para pensar sobre como evoluir nos próximos 20 anos. Uma das coisas interessantes sobre as empresas de petróleo e gás é que elas têm alguns dos melhores químicos do mundo. Quando se senta e conversa com eles, percebe-se que eles sabem o que precisa ser feito em relação à mudança do clima.”

Se esta é a metade cheia do copo, a outra metade está cheia de óleo. Um relatório da Oil Change International coloca uma lupa no aumento enorme e rápido da produção de óleo e gás de fracking nos EUA, o que levou o país ser o maior produtor mundial destes fósseis. As recomendações do relatório vão no sentido contrário a tudo que o governo Trump vem fazendo (e contando vantagem): i) não autorizar novos poços e explorações; ii) retirar gradualmente de operação as instalações existentes; iii) eliminar os subsídios aos combustíveis fósseis; e iv) rejeitar a influência do dinheiro fóssil na política energética norte-americana.

 

Ainda temos chances de estabilizar o aquecimento global sob 1,5oC

A infraestrutura atual da indústria de combustíveis fósseis ainda não nos leva necessariamente a um aquecimento de 1,5oC. Se começássemos desde já a eliminar gradualmente usinas de energia, serviços e transporte intensivos em carbono teríamos 64% de chance de manter o aquecimento global abaixo de 1,5oC, segundo mostra um interessante estudo publicado na Nature Communications. Esta eliminação gradual exige que os equipamentos e infraestruturas baseados em fósseis sejam desativados ao final de sua vida útil e, então, substituídos por “alternativas carbono zero”. Os resultados do estudo dependem, também, de um conjunto “radical” de premissas que inclui o fim do desmatamento e da produção de carne e derivados de leite em todo o mundo e, também, que desde já não mais construamos novas usinas de energia intensivas em carbono e equipamentos e sistemas de transporte dependentes de combustíveis fósseis. O líder do estudo, Christopher Smith, da Universidade de Leeds, disse ao The Guardian que “basicamente, estamos dizendo que não podemos construir mais nada que consuma combustíveis fósseis.”

 

Um exemplo vietnamita de indústria limpa

A Saitex investiu US$ 2 milhões no sistema de abastecimento de água de uma planta produtora de jeans no Vietnã para provar que é possível fazer jeans azuis de maneira sustentável e ter lucro com isso. A empresa também investiu num sistema híbrido solar-biomassa para produzir a energia que utiliza, e investiu em máquinas de lavar e branquear tecidos com um uso mínimo de água. Como resultado, a empresa gasta menos de um litro de água para cada par de jeans produzido, 80 vezes menos que o utilizado na produção convencional de jeans. A planta recebeu a certificação LEED do US Green Building Council.

 

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