BOLETIM

Boletim

ClimaInfo, 17 de setembro de 2018

ANA SUSPENDE NOVAS HIDRELÉTRICAS NO PANTANAL

A Agência Nacional das Águas suspendeu a construção de novas hidrelétricas na região do Pantanal. A Agência emitiu uma nota explicando que “a suspensão se estenderá pelo menos até a conclusão de estudo iniciado em novembro de 2016 pela ANA para investigar os efeitos socioeconômicos e ambientais da implantação desses empreendimentos sobre os demais usos da água e sobre os próprios recursos hídricos, como comprometimento da qualidade das águas ou alteração do regime hidrológico (chuvas)”.

No banco de dados de geração da Aneel, existem 3 PCHs outorgadas na região que ainda não começaram a ser construídas.

https://g1.globo.com/economia/noticia/2018/09/14/ana-suspende-novas-hidreletricas-na-regiao-do-pantanal-ate-2020.ghtml

http://www2.aneel.gov.br/aplicacoes/capacidadebrasil/capacidadebrasil.cfm

 

TARIFAS ELEVADAS VIRAM DESCULPA PARA MAIS TÉRMICAS FÓSSEIS

Tem empresa defendendo o desejo do governo de realizar um leilão de térmicas a gás para substituir as movidas a óleo. A intenção foi anunciada pelo ministro Moreira Franco no começo do mês e prontamente criticada por vários agentes do setor elétrico. Um dos argumentos dado por Moreira foi a busca da autossuficiência regional, coisa que não faz sentido num sistema elétrico que sempre buscou a integração de todo o território. Na semana passada, o presidente da EDP Brasil, Miguel Setas, disse que haveria uma economia de alguns bilhões de reais se essa troca acontecesse. Falando sobre a construção destas térmicas a gás, num acesso de franqueza, Xisto Vieira Filho, presidente da Associação Brasileira Geradoras Termelétricas (Abraget), disse que “o problema é viabilizar a comercialização da energia e definir quem pagará a conta”.

Por falar em empresas defendendo o seu, Benjamin Franta escreveu um artigo lembrando dos documentos da Shell e da Exxon que, ainda no século passado, mostravam que as empresas sabiam bastante sobre o aquecimento global e que esconderam as informações do público, dos governos e dos seus próprios acionistas. Franta diz que a Shell “argumenta que o ‘principal ônus’ de abordar a mudança climática não cabe ao setor energético, e sim aos governos e consumidores”.

Pelo jeito muita gente do setor elétrico adota o lema.

https://www.valor.com.br/empresas/5840539/leilao-de-termicas-reduziria-custo-do-risco-hidrologico

https://www.valor.com.br/opiniao/5840613/pistas-secretas-do-aquecimento-global

 

VERBA DE P&D DO SETOR ENERGÉTICO AGORA PODE SER DESTINADA A ENDOWMENT FUNDS

Ainda no reino elétrico, outra novidade: por lei, as empresas de energia têm que aplicar um pequeno percentual da sua receita operacional líquida em pesquisa e desenvolvimento para o aumento da eficiência do setor, sendo que a atividade é regulada e fiscalizada pela Aneel. Na semana passada, em reação ao incêndio no Museu Nacional, Temer baixou uma medida provisória permitindo que estes recursos possam ser aplicados em fundos patrimoniais que, por definição, podem destinar o dinheiro a uma gama de ações que extrapolam o setor energético. Estes fundos foram inspirados no que lá fora é chamado de “endowment fund”. A governança destes fundos é, em tese, séria, mas não está claro se projetos de eficiência energética competirão com museus, universidades e outros entes que, lá fora, recebem recursos de doações privadas e corporativas. A medida é polêmica. A ver o que acontece.

https://www.valor.com.br/brasil/5835105/novo-fundo-pode-receber-pd-do-setor-de-energia

 

NOVA FERROVIA QUER ESCOAR SOJA PELO SUDESTE

A Rumo, uma das principais empresas do setor ferroviário, anunciou um plano de extensão de uma de suas linhas no Mato Grosso, desde Rondonópolis até Sorriso, para o escoamento de soja e milho em direção ao Sudeste. A empresa também quer reforçar a linha no estado de São Paulo para levar esta produção até o porto de Santos. Na volta, os trens podem levar fertilizantes e máquinas agrícolas, dentre outras mercadorias. Se a Ferrogrão sair das apresentações em PowerPoint, haverá competição pelos grãos a serem transportados. O município de nome simpático, Sorriso, apareceu outra vez no noticiário da semana passada por ter voltado a ser o campeão no ranking de valor da produção agrícola do IBGE.

https://www.valor.com.br/empresas/5834997/rumo-vai-duplicar-malha-norte-com-mais-700-km

https://www.valor.com.br/agro/5836835/sorriso-mt-voltou-puxar-valor-da-producao-agricola-do-pais-em-2017

 

DESMATAMENTO PARA PRODUÇÃO DE COMMODITIES PERSISTE NO BRASIL E NO MUNDO

Os autores de um estudo sobre as causas do desmatamento no mundo estimam que a culpa por 27% da perda florestal pode ser atribuída ao mundo das commodities que inclui a agricultura, a produção de carne e, também, a mineração e a geração de energia. O trabalho analisou imagens de satélite captadas entre 2001 e 2015 com a ajuda de um software calibrado para a identificação do uso das terras desmatadas. A perda de florestas para a produção de commodities, caracteristicamente, faz as áreas permanecerem abertas ao longo de todo o período analisado. A indústria consumidora de árvores – papel e celulose, mobiliário, etc. – foi responsável por 26% da destruição florestal no período, a agricultura por 24% e os incêndios florestais pelos 23% restantes. Como esperado, o estudo aponta a produção de commodities como o óleo de palma e a dupla gado e soja como os principais drivers do desmatamento no Sudeste Asiático – Indonésia e Malásia – e na América Latina – principalmente Brasil, Paraguai e Argentina. No hemisfério norte, as principais causas da perda florestal foram a indústria consumidora de árvores e os incêndios, tanto na América do Norte quanto na Eurásia. A indústria consumidora de árvores também aparece no sudeste Asiático, no sudeste do Brasil e no Chile. O trabalho, que acaba de ser publicado na Science, lembra, logo no abstract, que “apesar dos compromissos corporativos, a taxa do desmatamento causado pelas commodities não diminuiu. Para acabar com o desmatamento, as companhias devem eliminar das suas cadeias de suprimentos a conversão de 5 milhões de hectares todo ano”.

https://www.bbc.com/portuguese/geral-45512654

http://www.sciencemag.org/news/2018/09/scientists-reveal-how-much-world-s-forests-being-destroyed-industrial-agriculture

http://science.sciencemag.org/content/361/6407/1108

 

NÚMEROS E RESULTADOS DA CÚPULA DO CLIMA DE SÃO FRANCISCO

A reunião do GCAS (cúpula de ação climática global) terminou na 6a feira com um discurso da secretária-geral da Convenção do Clima, Patricia Espinosa, que incluiu um recado direto para os EUA de Trump. Espinosa disse que o Acordo de Paris “baseou-se em uma regra da ordem internacional, da liderança multilateral e deixou claro que o avanço não se daria através do conflito, mas por meio da colaboração”. Ela lembrou que “a janela de oportunidade está ficando cada vez menor”.

O evento contou com a participação mais de 4.000 delegados de entidades subnacionais e empresariais que fizeram mais de 500 anúncios, muitos deles assumindo compromissos de mitigação de emissões, que mobilizarão bilhões de dólares para sua consecução.

Um grupo de 100 poderosas corporações anunciou o apoio a iniciativas voltadas para a agricultura “climate smart”, envolvendo o melhoramento da produtividade, o fortalecimento da resiliência a eventos climáticos e, claro, a redução das emissões de gases de efeito estufa.

Uma matéria da DW diz que as emissões das grandes cidades do mundo desenvolvido já devem ter atingido seu pico e começam a cair. E a The Hill reportou o compromisso do prefeito de Nova York com um investimento de US$ 4 bilhões de fundos de pensão para a mitigação das emissões e a preparação da cidade para a mudança do clima.

https://medium.com/@ClimateNexusOrg/global-climate-action-summit-live-blog-76151b80fd9c

https://www.valor.com.br/internacional/5844867/multilateralismo-e-fundamental-diz-secretaria-da-onu-para-o-clima

https://www.valor.com.br/agro/5843745/grupo-de-100-empresas-fomentara-agricultura-inteligente

https://www.dw.com/en/climate-change-greenhouse-gas-emissions-decline-in-cities-from-berlin-to-new-york/a-45482304

http://thehill.com/policy/energy-environment/406461-new-york-city-to-invest-4-billion-of-pension-fund-to-combat-climate

 

DE OLHO NO FUTURO DAS EMISSÕES DE CARBONO DO TRANSPORTE

Michael Liebreich fez um apanhado na Bloomberg New Energy Finance (BNEF) sobre o futuro dos transportes de baixa emissão. Liebreich fala dos veículos elétricos e de como as projeções de aumento da frota vêm aumentando, mesmo as feitas por organizações mais conservadoras: em 2016, a IEA (agência internacional de energia) previa 23 milhões de carros elétricos nas ruas para o ano de 2030; agora a Agência aumentou sua projeção para 127 milhões, e ainda previu que em 2040  serão 280 milhões; a BP aumentou sua projeção de 72 milhões para 210 milhões em 2035; e até a OPEP aumentou sua projeção de 46 milhões para 253 milhões em 2040. No mundo dos ônibus, a BNEF prevê que, em 2040, 84% das vendas destes serão de modelos elétricos, e que, até lá, 80% da frota mundial também o será. Para os que duvidam que as estradas terão caminhões elétricos percorrendo grandes distâncias, Liebreich diz que, além da Tesla e da Daimler, “Scania, Paccar, Cummins e todos os demais grandes fabricantes estão correndo para colocar seus projetos em produção em todas as categorias de peso (referindo-se à capacidade de carga dos caminhões)”. E Liebreich também lança um olhar sobre o futuro da navegação e dos aviões, comentando sobre o potencial da eletricidade, dos biocombustíveis e do hidrogênio.

Na semana passada, a United, a terceira maior companhia aérea do mundo, se comprometeu a, em 2050, emitir metade dos gases de efeito estufa que emitiu em 2005 e disse que atingirá esta meta melhorando a eficiência e usando biocombustíveis e eletricidade.

https://about.bnef.com/blog/planes-trains-automobiles-electric-remake/

https://www.reuters.com/article/us-ual-emissions/united-airlines-targets-50-percent-cut-in-greenhouse-gas-emissions-idUSKCN1LT32A

 

MUDANÇA DO CLIMA FAZ MAL À SAÚDE

No seminário sobre Clima e Saúde promovido pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS) e a Embaixada Alemã na semana passada discutiu-se a superposição das agendas climáticas e da saúde humana. Este ano a forte onda de calor do verão no hemisfério norte trouxe à pauta os efeitos do calor e o reconhecimento das lições aprendidas com a onda similar de 2003, que deixou dezenas de milhares de mortos nos países mais desenvolvidos. As duas principais lições foram informar a população dos riscos e providências e a rede de assistência que mapeou a população de risco – idosos que moram sós – e que ativamente buscou-os durante a onda. Organizações como a Médicos Sem Fronteiras (MSF) estão se equipando com aplicativos e bancos de dado na nuvem para poderem agir com mais presteza e efetividade. Carol Devine, assessora para assuntos humanitários da MSF, disse para o Valor que “mais desastres vão acontecer e estamos tentando ser mais práticos, saber onde estão os nossos kits de emergência, aliar a tecnologia para nos ajudar com a logística”. Juntando ondas de calor, difusão de doenças tropicais e impactos na qualidade dos alimentos, a Organização Mundial da Saúde estima que, por ano, 250 mil pessoas morrerão prematuramente por conta da mudança do clima. Um artigo que saiu no Lancet no final do ano passado estimava um aumento de até 13% na mortalidade no Sudeste Asiático no pior cenário climático do IPCC. Os autores escrevem que “este estudo mostra os impactos negativos da mudança do clima sobre a saúde que, em cenários de emissões altas, afetam desproporcionalmente regiões mais quentes e pobres do planeta. Comparando com cenários com menos emissões, ressalta a importância de políticas de mitigação para limitar o aquecimento global e reduzir os riscos à saúde associados”.

https://www.valor.com.br/brasil/5835099/impacto-do-clima-na-saude-publica-preocupa-organizacoes-internacionais

https://www.dw.com/pt-br/mudan%C3%A7a-clim%C3%A1tica-tamb%C3%A9m-prejudica-a-sa%C3%BAde/a-45454437

https://www.carbonbrief.org/limiting-warming-to-2c-would-prevent-worldwide-increases-in-heat-related-deaths

 

PERMAFROST ESTÁ DERRETENDO MAIS RÁPIDO E LIBERANDO MUITO METANO

Com o derretimento do permafrost, o solo congelado do Alasca e da Sibéria, estão surgindo milhares de lagos na região que borbulham metano e lançam à atmosfera este gás de efeito estufa que é dezenas de vezes mais potente que o CO2 para segurar calor na atmosfera terrestre. O metano é fruto da decomposição da matéria orgânica presa no solo congelado que agora está se esquentando. Ninguém sabe ao certo quanta matéria orgânica está presa no permafrost, mas as medidas e modelos recentes sugerem algo por volta de 1,5 trilhões de toneladas de carbono.

Um artigo que acaba de sair na Nature explica o que está por trás do rápido derretimento: quando o permafrost derrete rapidamente e mais profundamente no solo, formam-se buracos que, preenchidos com água das chuvas, formam lagos “termocársticos”. A água ajuda a derreter mais gelo nas bordas do lago e, em pouco tempo, os buracos podem chegar a dezenas de metros de profundidade. Sem oxigênio, a decomposição da matéria orgânica antes congelada, é feita por bactérias que liberam o carbono na forma de metano.

https://www.nature.com/articles/s41467-018-05738-9

https://www.newsweek.com/arctic-permafrost-lakes-bubbling-methane-nasa-1119624

 

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