BOLETIM

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ClimaInfo, 15 de janeiro de 2019

Paris or not Paris

O ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, disse que o presidente disse que o país não sai do Acordo de Paris. Um dos problemas destas idas e vindas é o pessoal lá fora não saber mais no que acreditar. Por exemplo, a Economist, na coluna sobre a América Latina, diz que o presidente quer tirar o país do Acordo. Aliás, o parágrafo que explica a organização do novo governo vale ser traduzido: “O senhor Bolsonaro está à frente de uma aliança desconjuntada de nacional-populistas (notadamente dois de seus filhos), fanáticos religiosos, lobbies de negócios e forças de segurança. O senhor Araújo deve seu emprego aos dois primeiros grupos. As Forças Armadas – representadas por sete generais da reserva no ministério – defendem um tipo diferente de nacionalismo, ancorado em uma geopolítica obstinada. Eles têm interesse em cooperar com os EUA contra o crime, mas resistirão ao alinhamento automático com o Sr. Trump. E há o senhor Guedes, que tomou do Itamaraty o controle da política comercial com o exterior. A equipe econômica não tem o menor interesse em brigar nem com a China (…) nem com os países árabes.” A revista, assim como veículos importantes da mídia internacional, situa Bolsonaro na extrema-direita da escala política, pelo que prometeu e pelo que fez até o momento.

Marcelo Leite escreveu na Folha uma crítica leve à pegada anti-ciência de gente do atual governo. Toma como exemplo, a previsão do Cemadem (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais) de que, este ano, choverá menos do que a média histórica, mas mais do que a média dos últimos anos. Leite lembra que “a má notícia é que a mudança climática se torna mais e mais irreversível, a julgar pelas tendências registradas nos campos físico e político (o grifo é nosso).”

 

Embrapa: Eduardo Assad explica quem é Evaristo Miranda

Durante o evento de lançamento da atual edição do MapBiomas no ano passado, Eduardo Assad, um dos mais respeitados pesquisadores da Embrapa, se deu ao trabalho de explicar quem é Evaristo Miranda, o funcionário da Embrapa incensado pela ministra da agricultura e pela bancada ruralista. Assad explica que Miranda chefia um dos 16 laboratórios de sensoriamento remoto da Embrapa, embora ele, Miranda, se apresente como sendo o chefe de todo o sensoriamento da organização. Em seguida, Assad explica que, ao longo dos últimos 30 anos, Miranda vem publicando números falseados, feitos para agradar quem o corteja. Assad conta como Miranda muitas vezes publica “atualizações” de seus dados, várias, até eles baterem com o que a ciência demonstra, mas, em vários casos, mantém os dados errados. Assad torce para que o governo não interfira no Cadastro Ambiental Rural que, quando completo e validado, será um dos pilares de políticas agrícolas sérias e competentes. Vale assistir o vídeo com a explicação de Assad.

 

Renovabio avança na regulamentação e espera definir metas em breve

O Renovabio é o programa que emula créditos de carbono (CBios) para promover a produção mais eficiente e sustentável de etanol veicular. No programa, as empresas de distribuição de combustíveis têm, ao final de cada ano, que entregar um volume de CBios determinado pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) comprado de produtores de etanol ou de agentes do mercado. A Agência declarou que em breve colocará em consulta pública as metas de CBios para cada distribuidora. Também credenciou a primeira das empresas que farão a certificação da produção de etanol. Este será o primeiro teste nacional de um mercado que guarda semelhanças com os mercados de emissões mundo afora. A meta é fazer com que, com os recursos obtidos pela venda de CBios, usineiros e produtores de cana invistam na melhoria da eficiência e da qualidade ambiental de sua produção.

 

Unindo ciência e religião para explicar a mudança do clima

O grupo Fé no Clima, do Rio, é formado por religiosos e fiéis de diversas crenças que trabalham para explicar para o grande público a relação entre aquecimento global e o dia-a-dia das pessoas mostrando o que cada um pode fazer para minimizar os seus efeitos. Alice Amorim, do Instituto Clima e Sociedade e uma das primeiras a se engajar no projeto, diz que “no caso do Brasil, a gente sabe que a maior parte das emissões são do desmatamento e do uso da terra. É preciso associar este problema ao modelo de consumo, que está ligado ao padrão de alimentação. Tem todo um encadeamento lógico que traz reflexões religiosas”.

A ciência e as principais religiões do ocidente fizeram as pazes há muito tempo. Vide as encíclicas do Papa Francisco sobre A Nossa Casa Comum e suas falas sobre a ciência. Aliás, o Vaticano hospeda a Pontifícia Academia das Ciências exatamente para, promovendo a ciência, promover a fé no ser humano.

 

O hidrogênio como fonte de energia

Muita gente aposta que domar e baratear o hidrogênio é o melhor caminho para aposentar os combustíveis fósseis. A parceria entre a dinamarquesa Better Energy e a sueca Nilsson Energy construiu um quarteirão com 30 casas alimentadas só com energia solar e hidrogênio. O hidrogênio vem de um eletrolisador alimentado pela energia excedente dos painéis solares. Como as casas ficam vazias e fechadas exatamente no período onde o sol é mais forte, esse excedente de sol produz hidrogênio suficiente para alimentar as casas quando as famílias se reúnem no final do dia.

O porto espanhol de Valência também embarcou no hidrogênio. Há tempos que as grandes máquinas que movimentam os contêineres são elétricas. Valência lançou um projeto-piloto para usar empilhadeiras e tratores alimentados a baterias de hidrogênio. As baterias serão recarregadas em uma estação de produção de hidrogênio no próprio porto. Para quem não conhece, este é o 5o porto mais movimentado da Europa.

Um artigo na Medium, por outro lado, aponta “o lado escuro da força” da célula de combustível a hidrogênio. De cara, estas células contêm mais metais raros e, por isso, são bem mais caras do que as baterias de Li-íon. O limite de eficiência prática encontrado até agora, é a conversão de 30% da energia contida em movimento útil de um veículo. A eficiência de um veículo elétrico puro é bem mais que o dobro disso. Finalmente, enquanto não for possível obter hidrogênio por eletrólise solar da água, a maneira mais barata de obtê-lo é pegar um combustível fóssil e separar o hidrogênio do carbono, o que acaba gerando CO2. Estas diferenças são as colocadas pela tecnologia atual. Amanhã, elas podem se dissolver.

 

Abandonando o consumo de carne para reduzir as emissões inglesas

Um relatório encomendado pelo Ministério de Meio Ambiente do Reino Unido chegou à conclusão de que, se todos os bretões e bretãs virassem veganos, as emissões de gases de efeito estufa cairiam mais de 30%. Se virassem vegetarianos, as emissões cairiam 26% e, se apenas adotassem hábitos alimentares mais saudáveis, as emissões cairiam 12%. O relatório diz que o Reino Unido precisará cortar o consumo de carne e promover alimentos veganos se quiser cumprir com suas metas climáticas.

 

O futuro elétrico está em duas rodas – bicicletas mais do que motocicletas

Rajendra Jadhav e Aditi Shah escreveram na Reuters que o futuro dos veículos elétricos na Índia está mais para duas do que para quatro rodas. Eles abrem contando de um fazendeiro que, espremido pelos preços altos dos combustíveis fósseis, trocou sua motocicleta fóssil por uma elétrica. Com uma autonomia de mais de 100 km, o dono passou a gastar apenas 10% do que gastava com a outra moto, e o suficiente para pagar a nova em menos de 3 anos. A motocicleta elétrica dispensa as estações de recarga dos carros e pode ser recarregada diretamente numa tomada normal. A Índia é o maior mercado para scooters e motocicletas do mundo. O faturamento do segmento é seis vezes maior do que o faturamento dos fabricantes de carros.

Um artigo publicado no ano passado, por outro lado, defende que as bicicletas elétricas tomarão o lugar das motocicletas e scooters. O autor separa as motos da categoria grandes e luxuosas da categoria simples e baratas. Sua tese é a de que as bicicletas elétricas estão chegando ao desempenho das simples e baratas e vêm com várias vantagens. Primeiro, são mais baratas do que as motos. São mais eficientes, mesmo comparadas às motos elétricas. São mais flexíveis por serem bicicletas, o que dispensa a exigência de habilitação, seguro, impostos, multas e uma série de custos que recaem sobre as motos. E, claro, são mais saudáveis.

 

O aumento desigual do nível do mar e seus efeitos nos tanques sépticos de Miami

Sabe-se de há muito que o nível do mar varia de lugar para lugar e que este padrão vale para onde o mar subirá mais ou menos. A Nature acaba de publicar um trabalho explicando o que está por trás do fato, já que, em qualquer copo, piscina ou lago, o nível da água é o mesmo. Os autores chamam isso de “reflexo pós-glacial” (post glacial rebound). Milhares de anos atrás, durante a última glaciação, o peso do gelo na América do Norte afundou a crosta que, como qualquer gelatina, fez com que as partes da crosta nas beiradas e nos limites do gelo, se erguessem. A glaciação terminou, o gelo derreteu, o peso sumiu e a crosta afundada, subiu outra vez. E as beiradas desceram. Como a crosta responde mais devagar do que a gelatina – bem mais devagar – ela ainda não parou de oscilar e ainda tem pedaços subindo e outros descendo. E é isso que faz o oceano ficar mais alto em alguns lugares e mais baixo em outros. Esta teoria só se aplica à costa leste da América do Norte. Falta à ciência explicar o que acontece no resto do planeta. O pessoal da Nexus comentou o artigo.

Um desses lugares desiguais é a costa da Flórida, onde fica Miami. A cidade tem dezenas de milhares de tanques sépticos e um relatório recente apontou que a maioria está funcionando mal, fazendo com que o mau-cheiro invada casas. A situação está sendo agravada pela elevação do nível do mar e o relatório estima que, até 2040, ⅔ dos tanques apresentarão problemas de funcionamento todo santo ano. Aí, para além do cheiro, a maior ameaça será a contaminação do sistema de abastecimento de água.

 

China importa cada vez mais carvão

Apesar da economia chinesa ter crescido menos no ano passado, a importação de carvão continuou aumentando e atingiu o maior valor desde 2014. Subiu 3,4% se comparada com a quantidade importada em 2017. Um pequeno sinal de alívio veio da importação no mês de dezembro, que caiu quase à metade do mês anterior.

 

A maior empresa de energia da Califórnia pede falência após os incêndios gigantes

A centenária Pacific Gas and Electric, empresa de energia da Califórnia, entrou com um pedido de falência. Ela está sendo responsabilizada pelo Camp Fire, o incêndio florestal que, no ano passado, arrasou a cidade de Paradise, matando 86 pessoas e causando um prejuízo da ordem de US$ 7 bilhões. Aparentemente, uma linha de transmissão da empresa encostou em árvores, dando início ao incêndio. Além deste incêndio, a empresa está sendo processada por 11 outros casos, menores no tamanho da tragédia, mas com uma conta de outros tantos bilhões de dólares. O pedido de falência, se aceito pela justiça, permitirá que a empresa alongue os pagamentos.

 

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