O Brasil e os cinco anos do Acordo de Paris

Classificado como “documento histórico” por Ban Ki Moon, o então secretário-geral da ONU, o Acordo de Paris – que leva este nome por ter sido firmado no dia 12 de dezembro de 2015 na COP21, em Paris – tornou-se há cinco anos o primeiro acordo global sobre o clima desde 1997, quando as nações redigiram o Protocolo de Kyoto. Ao todo, os delegados de 195 países presentes na conferência climática parisiense aclamaram o texto, que foi ratificado em dezembro de 2016, quatro anos antes do prazo previsto.

O Acordo de Paris é o primeiro da história a apresentar compromissos de todos os signatários pela descarbonização do planeta. Em termos práticos, o texto aponta caminhos para que o aumento médio da temperatura na Terra fique em 1,5°C, ou bem abaixo dos 2°C.

Todos os países que fazem parte da Convenção do Clima, assinada em 1992, devem adotar metas determinadas nacionalmente para o combate ao aquecimento global e colocá-las em prática, apesar da legislação internacional não determinar como obrigatório que cada nação cumpra com suas promessas. Antes do Acordo fechado na França, apenas as nações ricas tinham alguma meta de corte de emissões de gases de efeito estufa. O Acordo de Paris tem força de lei internacional, por ser uma regulamentação da Convenção do Clima da ONU, assinada em outro evento climático histórico, a Rio 92, realizada no Brasil.

Dilma, o Brasil e suas metas

A relação dos sucessivos governos brasileiros com o Acordo de Paris passou por diferentes momentos nestes cinco anos. O Acordo também impulsionou mudanças nas esferas estaduais e municipais, na iniciativa privada e na sociedade civil organizada.

Em dezembro de 2015, na época da ratificação do texto, a então ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, era uma entusiasta de todo o processo de negociação. Na própria COP21, logo após a aprovação do texto, ela afirmou que ele era legítimo e refletia todas as posições defendidas pelo governo brasileiro. A então presidente Dilma Rousseff, que acabara de começar a responder um processo de impeachment que a retiraria da presidência em 31 de agosto de 2016, classificou o texto do Acordo como “justo e ambicioso”.

A própria Dilma, na Assembleia Geral da ONU de setembro de 2015, havia apresentado as principais metas que o país viria a assumir. As iNDCs (sigla em inglês para Contribuições Pretendidas Nacionalmente Determinadas) do Brasil, hoje o sexto maior emissor de carbono do mundo, prometeu a redução de 37% das emissões de gases de efeito estufa até 2025. E de 43% até 2030. Nos dois casos, a base de comparação é quanto foi emitido pelo Brasil em 2005.

Durante a COP de Paris, a ministra Izabella, bióloga da formação, defendeu que o Brasil precisava discutir com profundidade e entre todos os segmentos da sociedade quais os principais caminhos para descarbonizar sua economia. Para ela, a eficiência energética e a agricultura eram os setores que mais preocupavam.

Nos bastidores da reunião, a representante do governo brasileiro, assim como a ministra de Relações Exteriores de Cingapura, Vivian Balakrishnan, foi considerada como uma das personagens mais ativas nas negociações para que o Acordo de Paris fosse definido durante o prazo daquela COP (Conferência das Partes). A conferência havia começado no dia 30 de novembro. Na abertura, como forma de mostrar prestígio ao encontro, 150 Chefes de Estado estiveram na cerimônia, entre eles a presidenta Dilma.

Governo Temer e a ratificação

Depois do impeachment de Dilma, o governo Temer e o então ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, deram continuidade ao processo de ratificação do Acordo de Paris. Como sempre ocorre com os protocolos internacionais, a aprovação feita em uma conferência da ONU é apenas o primeiro passo do processo de legitimação do novo documento. Assim que voltam para os seus países, os diplomatas precisam seguir os trâmites de ratificação interna, e foi o que ocorreu com o Acordo de Paris por meio do Itamaraty, no caso brasileiro.

Após passar pelo Congresso Nacional, o texto foi sancionado pelo presidente Michel Temer no dia 12 de setembro de 2016. Com isso, a sigla das chamadas INDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas Pretendidas) anunciadas na ONU perdeu a letra I (de “intended”, palavra inglesa que significa “pretendida”). No âmbito nacional, portanto, o cumprimento das agora NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) – na prática as metas de redução das emissões de gases de efeito estufa construídas no governo Dilma que o Brasil precisa perseguir –, passaram a ser obrigatórias, por terem ganho força de lei.

O texto promulgado oficialmente não apenas crava as metas brasileiras perante ao mundo como também dá várias pistas, em vários setores, de como elas deveriam ser perseguidas. Na área florestal, um dos caminhos (que neste caso é apenas indicativo e não tem poder de lei) seria zerar o desmatamento ilegal até 2030.

Todos os países que assumiram metas internas de redução das emissões de carbono na atmosfera, para colaborar para que os termômetros não subam mais do que 2°C em média neste século, fizeram isso de forma voluntária e sem nenhum tipo de pressão internacional. Não foi a ONU quem determinou o que cada país deveria fazer. As metas brasileiras, que são válidas até 2025 e depois precisam ser renovadas e de forma ainda mais ousada como determina o Acordo de Paris, foram definidas pelo governo federal. Além disso, são passíveis de serem cumpridas, como também informa o documento do governo, sem nenhum tipo de ajuda financeira de outros países e sem a necessidade de que mecanismos econômicos internacionais para a descarbonização do planeta sejam acionados.

Outro caminho indicado na NDC do Brasil envolve a restauração de 15 milhões de hectares de pastagens degradadas e o reflorestamento de 12 milhões de hectares. Há ainda propostas nos setores de transporte, indústria e energia. Fontes renováveis e aumento da oferta de biocombustíveis também podem fazer com que o Brasil se aproxime da meta prevista para 2025, segundo um anexo da NDC.

Dias antes do Brasil acatar o Acordo, em setembro de 2016, China e Estados Unidos haviam anunciado juntos, nas vésperas do encontro do G20 em território chinês, a ratificação do texto do Acordo de Paris. A decisão veio à tona logo após um encontro bilateral entre o presidente americano Barack Obama e o mandatário chinês Xi Jinping.

A ratificação feita por vários países em um intervalo curto de tempo permitiu que o Acordo de Paris entrasse em vigor no dia 4 de novembro de 2016. Para isso ter ocorrido, 55 países, que somavam 55% das emissões globais de gases de efeito estufa, como determinava a ONU, aprovaram o documento em âmbito nacional.

Governo Bolsonaro e as ameaças ambientais

Ainda durante a fase de transição do governo Temer para o governo do presidente-eleito Jair Bolsonaro o tom de como a nova administração do país trataria a questão climática foi revelado. No dia 28 de novembro de 2018, antes, portanto, de tomar posse, o futuro presidente decidiu retirar a candidatura do Brasil para sede da COP25, a Conferência do Clima de 2019. Segundo Bolsonaro, a decisão foi tomada por dois motivos principais. O Brasil estudava a possibilidade de abandonar o Acordo de Paris e, também, a realização da reunião acabaria tendo um custo muito alto. Apesar da COP ter sido transferida para Santiago, no Chile, o encontro não ocorreu no país transandino por causa das manifestações populares registradas no fim de 2019 em solo chileno. A conferência acabou sendo realizada em Madri, na Espanha. No fim de 2018, o futuro ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo, apoiou a decisão de Bolsonaro de não sediar a COP25 e de lutar contra o que ele qualificou como “alarmismo climático”.

Ao contrário da posição histórica do Ministério de Relações Internacionais do Brasil, que desde a Eco-92, pelo menos, sempre teve um papel decisivo nas negociações dos temas ambientais no âmbito das Nações Unidas – além do clima, os especialistas e diplomatas também foram protagonistas nos acordos de biodiversidade por exemplo – a gestão Bolsonaro, desde o início, tomou a direção oposta. Logo no começo do mandato, a governança das mudanças climáticas foi retirada da estrutura do Ministério do Meio Ambiente. Na mesma época, o ministro Araújo, negacionista declarado do clima, abriu mão da subsecretaria de Meio Ambiente, Energia, Ciência e Tecnologia. A estrutura que abrigava a Divisão de Mudança Climática reunia os diplomatas responsáveis pelas negociações sobre política climática nas convenções da ONU e em outros fóruns internacionais.

Ainda na Esplanada dos Ministérios, o ministro Ricardo Salles, desde o início de sua gestão também se posicionou de forma a minimizar a importância do Acordo de Paris. Logo depois de tomar posse, em meados de janeiro de 2019, afirmou em entrevista publicada pelo jornal Folha de S.Paulo: “(…) As nossas posições serão tomadas de acordo com os nossos interesses. O que entendermos que for bom para o Brasil, faremos. Aquilo que não estiver alinhado com o que a gente quer, por qualquer razão que seja, nós não faremos. Ah, mas e o que consenso internacional quer? Ué, vai ficar querendo.” Na visão do ministro Salles, o Brasil não pode ficar sujeito a imposições feitas, mesmo via opinião pública, por convenções internacionais e acordos climáticos.

Durante os dois primeiros anos do governo Bolsonaro, a política ambiental feita tanto por meio dos discursos quanto por atos práticos afetou a preservação ambiental brasileira, mesmo com o ministro Salles e o próprio presidente Bolsonaro negando os fatos. Um dos desdobramentos mais ilustrativos desse período, tanto para a preservação da Amazônia quanto para o cumprimento das metas do Acordo de Paris, ocorreu em agosto de 2019.

Após Salles ter feito várias críticas aos mecanismos de governança do Fundo Amazônia e, no mundo real, no chão da floresta, as taxas de desmatamento só subirem segundo as medições dos satélites do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), Noruega e Alemanha paralisaram as doações ao Fundo Amazônia. O mecanismo financeiro existe desde 2008 e foi criado com a finalidade de captar doações para investimentos não reembolsáveis em ações de prevenção, monitoramento e combate ao desmatamento. Em 12 anos, o Fundo apoiou 103 projetos e desembolsou R$ 1,3 bilhão em recursos. Estes dois países europeus são os maiores financiadores da iniciativa. A Noruega é a maior doadora do Fundo Amazônia, sendo a responsável por desembolsar quase 94% do total de recursos desde 2009. De acordo com o governo alemão, a decisão de parar de aportar recursos estava sendo tomada porque “as políticas do governo brasileiro nos fazem desconfiar de que eles ainda estejam buscando uma redução consequente das taxas de desmatamento. Somente quando houver transparência, nós conseguiremos seguir cooperando em projetos da região”, disse a nota do governo da Alemanha.

O próprio presidente Bolsonaro, logo após o fim do Fundo Amazônia, respondeu aos dois governos europeus: “A Noruega não é aquela que mata baleia lá em cima, no Polo Norte, não? Que explora petróleo também lá? Não tem nada a dar de exemplo para nós. Pega a grana e ajude a Angela Merkel a reflorestar a Alemanha”, disse Bolsonaro, desconhecendo os planos de reflorestamento desenvolvidos na Europa nas últimas décadas.

A guinada da política ambiental brasileira, fruto de inúmeras outras mudanças em órgãos técnicos do governo, além do discurso sempre negativo contra o meio ambiente em si e as ONGs, trouxe como consequência real a perda de protagonismo do país em reuniões internacionais de assuntos sobre meio ambiente e uma dificuldade maior do Brasil cumprir suas metas junto ao Acordo de Paris.

De acordo com os dados publicados no SEEG 8 – Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), uma iniciativa do Observatório do Clima – as emissões líquidas brasileiras de 2019 foram de 1,570 bilhão de toneladas de dióxido de carbono equivalente. O que significa que para cumprir a meta prevista pelo Acordo de Paris até 2025, segundo a qual o limite de emissões líquidas deve ser de 1,3 bilhão de toneladas, o país precisaria reduzir suas emissões líquidas em 17% até lá. Entre 2003 e 2006, por exemplo, quando houve um grande esforço contra o desmatamento florestal, o Brasil conseguiu diminuir suas emissões líquidas em 33%. Se em termos numéricos a meta para os próximos cinco anos é factível, ações que vão contra a preservação ambiental, como a interrupção do Fundo Amazônia, deixam o Brasil mais longe de cumprir com o Acordo de Paris.

Os números do SEEG 8 mostram, por exemplo, que em 2015, ano de adoção da meta, o país aumentou suas emissões líquidas em 12%. Além disso, no atual governo Bolsonaro, vários outros empecilhos à preservação ambiental podem ser listados, além do imbróglio criado pelo ministro Salles com o Fundo Amazônia. Uma das vontades do ministro naquele momento, que alimentou de forma decisiva as decisões da Alemanha e da Noruega, era mudar as regras do jogo do Fundo à revelia dos países participantes da iniciativa, sob alegação de que havia repasses irregulares sendo feitos a ONGs, algo nunca provado. A lista com as outras ações do governo que impactaram negativamente o cumprimento dos compromissos climáticos do Brasil também constam do relatório SEEG 8.

Segundo os autores do estudo, “o país tem sofrido desde o início de 2019 a erosão das políticas, das regulações e dos instrumentos que conduziriam ao cumprimento da NDC, sigla que faz referência as metas obrigatórias, porém definidas de forma voluntária pelo Brasil, sem nenhuma participação externa, no âmbito do Acordo de Paris. Outros exemplos nocivos ao meio ambiente são as extinções dos planos de prevenção e controle do desmatamento na Amazônia (PPCDAm) e no Cerrado (PPCerrado). No lugar dessas estratégias, o governo publicou um documento sem metas, prazos ou indicações de como o controle ambiental será financiado”. A análise dos especialistas do SEEG continua: “A ação punitiva e dissuasória dos órgãos fiscalizadores, peças fundamentais do controle do desmatamento, foi enfraquecida por meio de dois dispositivos infralegais: a Operação Verde Brasil 2, que subordinou o Ibama e o ICMBio ao Exército na Amazônia, e a criação, por decreto, da chamada ‘conciliação’ de multas, que interrompeu toda a cobrança de infrações ambientais federais no país desde outubro de 2019.” São estratégias que podem ser atreladas ao termo “ir passando a boiada” dita por Salles na reunião ministerial do dia 22 de abril de 2020. A avaliação final do SEEG, por tudo o que foi descrito, é que o Brasil chega a 2020 com emissões na contramão da NDC. Portanto, mais distante do cumprimento das metas de Paris.

Um mundo real, e quase paralelo

Independentemente dos esforços recentes do governo federal para afastar o Brasil das metas do histórico Acordo de Paris, vários estados e municípios, nos últimos anos, criaram estruturas e legislações voltadas para a questão climática. Um estudo publicado este ano pela Agência Alemã de Cooperação Internacional apresentou um panorama atual de como estados brasileiros estão tratando a questão das mudanças climáticas globais.

O questionário encaminhado pelos autores do relatório “Competências Estaduais e Municipais para Criação e Execução de Políticas Públicas sobre Mudança do Clima” mereceu a resposta de 13 entes federativos, todos integrantes da Câmara Técnica do Clima da Associação Brasileira das Entidades Estaduais de Meio Ambiente (ABEMA). A lista de quem respondeu: Pará, Acre, Sergipe, Maranhão, Paraíba, Minas Gerais, Amazonas, Pernambuco, Ceará, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Distrito Federal e São Paulo. De acordo com a tabulação das respostas, se conclui que a maioria dos estados que participaram da pesquisa tem algum plano relativo a ações de governança em Unidades de Conservação (86%), desenvolvem ações de reflorestamento ou recuperação de áreas degradadas (80%) e possuem previsões orçamentárias para a governança do clima voltadas tanto para a mitigação como para a adaptação (73%).

Uma minoria dos respondentes (46%) estruturam fundos ou outros mecanismos para captação de recursos para a NDC estabelecida no âmbito do Acordo de Paris. E 43% dos 13 estados que responderam ao questionário têm regulamentação sobre Pagamento por Serviços Ambientais ou REDD+ (Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal). A pesquisa revelou ainda estados com metas de redução de gases de efeito estufa alinhadas com o Acordo de Paris (40%) e com alguma política de precificação de carbono (13%).

Os próprios autores do texto discutem a diferença importante que existe entre ter leis e iniciativas que apontam para o caminho certo e, ao mesmo tempo, conseguir recursos suficientes para fazer com que as políticas públicas sejam implementadas e funcionem. “Os dados levam à conclusão de que um dos maiores “gargalos” atuais diz respeito à distância existente entre o grau de regulamentação já estabelecido no nível estadual para o cumprimento da NDC brasileira (relativamente alta) e a “insuficiência” de recursos que, de fato, já foram captados na esfera nacional e/ou internacional para alicerçar a execução de tais políticas. Além disso, a percentagem de estados com políticas de precificação de carbono também se mostrou relativamente baixa, considerando-se as metas já estabelecidas e algumas iniciativas já instaladas, notadamente no setor florestal”, escrevem os autores do relatório.

Em termos temáticos, as iniciativas tanto estaduais quanto municipais são descritas pela pesquisa em relação ao uso do solo e de florestas; energia e transportes; indústria, além de resíduos e saneamento. Apesar do trabalho listar iniciativas no âmbito das cidades, seja entre grandes capitais seja em cidades do interior como Extrema (MG) e Feira de Santana (BA), a capital paulista, até pelas suas dimensões gigantescas, serve de ilustração tanto de desdobramentos positivos quanto negativos de políticas públicas relacionadas ao clima. E para revelar, também, como o assunto quase nunca é tratado de forma prioritária.

De forma pioneira, São Paulo criou sua política municipal de Mudanças Climáticas em 2009, durante a gestão do prefeito Gilberto Kassab (na época no PSD). A principal meta imposta pela legislação dizia que a cidade deveria reduzir, até 2012, 30% das emissões de gases de efeito estufa, em relação ao que foi jogado na atmosfera paulistana em 2005. Na prática, o que ocorreu foi um aumento de 9% no período. O fato do prefeito Fernando Haddad (PT) ter acabado com a inspeção veicular para toda a frota da cidade também é considerado um grande retrocesso pelos especialistas em poluição do ar. Várias outras metas previstas também não foram cumpridas pelos vários prefeitos que ocuparam o cargo até hoje.

Em compensação, na área de resíduos sólidos, a cidade de São Paulo conseguiu avançar por meio do Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL), regulados pelo Protocolo de Kyoto. Como aterros sanitários da cidade passaram a gerar energia a partir do metano, gás de efeito estufa que iria para os céus paulistanos, a cidade pode fazer leilões desses créditos de carbono gerados. Os cofres da cidade chegaram a arrecadar R$ 34 milhões durante o primeiro leilão, realizado em 2007, onde foram comercializados 800 mil créditos de carbono aproximadamente. Os recursos foram reinvestidos no próprio município, nos bairros vizinhos ao Aterro Bandeirantes, responsável por diminuir a poluição atmosférica da cidade.

Apesar de algum pioneirismo e do assunto climático ser discutido nas esferas estaduais e municipais brasileiras de forma constante nos últimos tempos, os resultados práticos, que poderão por exemplo ajudar o Brasil a cumprir com o Acordo de Paris, ainda são incipientes. O que não significa também que esforços não devam continuar a ser feitos.

O Estado de São Paulo, por exemplo, articulou em 2019 o Acordo Ambiental São Paulo, assinado em novembro de 2019 com 55 aderentes, entre empresas, associações e setores que atuam em solo paulista. Mesmo durante a pandemia, o acordo passou a ser corroborado e, em setembro de 2020, havia 130 instituições dentro do projeto. O objetivo do acordo é estabelecer, em sintonia com o setor privado, critérios para as empresas apresentarem dados de emissões, metas e avanços. A Cetesb, a agência ambiental paulista, criou para isso a Câmara Ambiental de Mudanças Climáticas, que tem dois grupos de trabalho: Ferramentas e Boas Práticas. Segundo o governo paulista, o acordo é um plano coletivo, que integra além dos setores público e privado à academia.

Mercado de carbono

O setor privado há tempos vem se voltando para a questão climática, principalmente porque esse é um caminho sem volta. Quem não estiver preparado para as novas demandas dos consumidores tende a desaparecer ou, pelo menos, perder muito dinheiro. Por essa razão, instituições como o CEBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável) vem tendo uma posição histórica de defesa dos protocolos climáticos internacionais, como é o caso do Acordo de Paris.

Quando o presidente norte-americano Donald Trump anunciou a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, em novembro de 2019, o CEBDS classificou a notícia como sendo péssima para o mundo. “A redução das emissões de gases de efeito estufa é um bom negócio. A implementação do Acordo de Paris pode desbloquear ao menos US$ 13,5 trilhões em investimentos nos próximos 15 anos. Apenas as soluções do projeto Low Carbon Technologies Partnership Initiative (LCTPi) podem gerar de 25 a 45 milhões de empregos por ano, respondendo por 65% das reduções de emissões necessárias em todo o mundo”, dizia a carta emitida pelo órgão empresarial, assinada por Marina Grossi, presidenta do CEBDS.

O Acordo de Paris, atualmente, tem um peso geopolítico importante. Com a saída do presidente Trump da Casa Branca, e a entrada do democrata Joe Biden, a tendência é o Brasil ficar ainda mais isolado na sua posição internacional. O que vai aumentar em demasia a pressão de países e blocos regionais sobre o país, queira Brasília ou não. Com isso, no próximo ano, o desafio que se impõe no âmbito interno é grande. Qual será a posição brasileira que chegará à Conferência do Clima em Glasgow – a COP26 – no final de 2021? O primeiro ponto é saber até lá quem vai estar respondendo pela pasta de Meio Ambiente, se Salles ou outra pessoa, e também pelo Itamaraty. Será o chanceler Araújo ou outro ministro de relações exteriores?

Enquanto o mundo corporativo começa a se organizar em relação ao cenário ESG, sigla em inglês que indica empresas que desenvolveram responsabilidades na área ambiental (Environment), social (Social) e de governança (Governance), o governo federal está preso ao Protocolo de Kyoto e ao MDL, o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo do Protocolo de Kyoto. Um dos pontos centrais em Glasgow serão as discussões sobre o Artigo 6 do Acordo de Paris, que ainda está longe de ser aprovado de forma unânime como mandam os protocolos da ONU. Em última análise, o debate será sobre como os países vão regulamentar e organizar mercados de carbono internacionais, para que as ações relacionadas à redução das emissões de gases de efeito estufa possam ser adequadamente precificadas.

De forma resumida, o trecho do Acordo de Paris discute três tipos de mecanismos. O primeiro deles permite a uma nação que excedeu suas metas de redução de emissão vender esse excedente para países que ainda precisam chegar às suas metas. O segundo tipo de sistema é criação de um mercado internacional de carbono, gerido pela ONU. Neste caso, haveria um livre comércio de redução de emissões, a partir dos créditos de carbono gerados em qualquer parte do mundo, seja do setor público ou privado. Esse mecanismo seria um substituto ao MDL, que deixaria de existir. Há ainda um terceiro mecanismo no Artigo 6 que prevê uma cooperação climática entre os países sem nenhum tipo de comercialização entre as duas partes.

Com todos esses sistemas bem azeitados, na prática, será mais fácil vender e comprar créditos de carbono. Um país qualquer, por exemplo, que tenha pouco espaço dentro de suas fronteiras, poderá se interessar em reduzir suas emissões no exterior, por exemplo, comprando créditos de carbono do Brasil ou de um projeto de reflorestamento ou de outra iniciativa.

Apesar do governo brasileiro ter até agora travado o debate sobre o Artigo 6 nas últimas COPs, principalmente para que os créditos do MDL continuem vigorando, se Brasília colocar como prioridade o cumprimento das metas do Acordo de Paris, o desfecho das discussões diplomáticas em relação a um mercado de carbono internacional são irrelevantes para esse primeiro estágio de cumprimento da legislação internacional. Com uma fiscalização efetiva sobre o desmatamento ilegal, por exemplo, o Brasil daria um passo imenso para atingir suas metas.

Além disso, setores relevantes da economia nacional, como as partes modernas do agronegócio e do setor energético, estão engajadas no desenvolvimento de práticas de baixo carbono. Ao incentivar sistemas como o da lavoura-pecuária-floresta ou matrizes energéticas mais sustentáveis, para que o país gere uma energia mais barata e sem a dependência das usinas termoelétricas, o governo terá como acumular dividendos econômicos e políticos, e voltar a ser respeitado, seja em reuniões como a de Davos, na Suíça – onde o ministro Paulo Guedes teve uma participação negativa em 2020 – ou nas futuras COPs do clima.

 

ClimaInfo, 9 de dezembro 2020.

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