Aquecimento do Ártico pode ser gatilho para eventos climáticos extremos em todo o mundo

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O Ártico se aqueceu nos últimos 30 anos a uma taxa 3 vezes maior do que a média global. O derretimento consequente na região libera grandes quantidades de água doce e fria no Atlântico Norte, com impactos em regiões distantes e influência sobre eventos climáticos extremos.

O rápido aquecimento do Ártico e o consequente derretimento do gelo na região é provavelmente um gatilho para eventos climáticos em cascata em todo o planeta, resultando em mudanças devastadoras em nossos sistemas meteorológicos e nos incidentes climáticos extremos observados recentemente  – como as ondas de calor e inundações em países como os EUA, Canadá, Alemanha e China, que causaram centenas de mortes. Estas são as principais conclusões de um relatório do Climate Crisis Advisory Group (CCAG) divulgado no final de julho de 2021.

“A ocorrência sistemática de super-extremos em todo o mundo em 2021 não pode ser explicada apenas pelos 1,2°C de aquecimento global que temos até agora – há algo mais em jogo. E o aquecimento acelerado e o derretimento do gelo no Ártico é a possível explicação”, diz Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático, da Alemanha, e membro do CCAG.

Nos últimos 30 anos, a região do Ártico sofreu um aquecimento de 0,81°C por década, mais de três vezes mais rápido do que a média global de aquecimento, que foi de 0,23°C por década. Isso resultou na perda rápida e irreversível do gelo marinho, bem como na perda de parte do manto de gelo da Groenlândia. De acordo com o relatório, há gelo suficiente na camada de gelo da Groenlândia para elevar o nível global do mar em 7,5 metros.

A estabilidade do Ártico é reconhecidamente um fator de controle da temperatura média da Terra. Com a interrupção desta estabilidade, os mantos de gelo estão derretendo e liberando grandes quantidades de água doce e fria no Atlântico Norte, diminuindo a circulação do oceano e provocando impactos em regiões tão distantes quanto a Antártica, além de perturbar eventos climáticos complexos, como a monção sul-americana. Isso também contribui com o aumento da frequência de secas e incêndios na floresta Amazônica, o que, por sua vez, leva ao aumento da liberação de CO2 na atmosfera.

Se as emissões de gases de efeito estufa continuarem a aumentar na taxa atual, dezenas a centenas de bilhões de toneladas de carbono, presas no permafrost (solo congelado) do planeta, poderiam ser liberadas na atmosfera. No ritmo atual, segundo o documento, as condições de calor que levam ao degelo do permafrost já estão ocorrendo, e cerca de 70 anos antes das previsões feitas pelos modelos climáticos.

“Os impactos da influência humana sobre o clima em uma região se propagam a outras regiões em função da circulação atmosférica e oceânica. Não atuar para reverter as causas da mudança climática e para reduzir seus impactos é uma escolha que implica em prejuízos substanciais para nossa economia e para a segurança da população”, alerta Mercedes Bustamante, pesquisadora da UnB e única brasileira membro do CCAG.

“É mais um lembrete de que não há margem remanescente para mais de gases de efeito estufa em nossa atmosfera. Não apenas devemos reduzir imediatamente as emissões, particularmente de combustíveis fósseis, devemos também procurar maneiras de remover gases de efeito estufa da atmosfera em escala”, afirma Sir David King, presidente do CCAG.

O relatório é o segundo de uma série publicada pelo CCGA, grupo internacional independente de especialistas sobre o clima, e antecipado à imprensa brasileira pela Bori. Veja mais informações sobre o CCGA aqui e confira o primeiro relatório aqui.

 

ClimaInfo, 1 de agosto de 2021.

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