O fim da “Idade do Petróleo”

Fim da Era do Petróleo
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Enquanto aumenta pressão para explorar petróleo na foz do Amazonas, um estudo mostra que reservas já descobertas dão e sobram para suprir demanda energética global.

Nos últimos meses, os defensores brasileiros da produção de petróleo “até a última gota” – grupo que ganhou reforço com Magda Chambriard na presidência da Petrobras – vêm usando uma narrativa duvidosa para justificar a exploração de mais combustíveis fósseis no país. Sem dados precisos, argumentam que voltaremos a importar petróleo a partir de 2030 se não encontrarmos novas reservas. E não em qualquer lugar, mas na foz do Amazonas, no litoral do Amapá. Uma região de altíssima sensibilidade ambiental onde a Petrobras já teve que interromper a perfuração de um poço por causa das fortes correntes oceânicas.

Essa turma pró-energia suja sofreu um grande baque com a tragédia climática no Rio Grande do Sul. Mesmo com as falas negacionistas de Magda Chambriard e também da ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, isentando o petróleo brasileiro da responsabilidade pelas chuvas extremas no território gaúcho, a ciência, mais uma vez, comprovou o que já se sabia: a relação direta entre a catástrofe e as mudanças climáticas, majoritariamente causadas pela queima de combustíveis fósseis. Como mostrou um estudo da World Weather Attribution (WWA) divulgado na 2ª feira (3/6), a crise climática aumentou em mais de duas vezes a probabilidade de ocorrência de chuvas extremas no estado, além de torná-los de 6% a 9% mais intensos.

Mas uma outra pesquisa poderia ser a “pá de cal” para enterrar de vez a defesa da busca por mais petróleo e gás fóssil, no Brasil e em outros países. Elaborado por pesquisadores do University College London e do Instituto Internacional para o Desenvolvimento Sustentável (IISD, sigla em Inglês) e publicado na Science, o estudo deixa claro que não precisamos de novas reservas de combustíveis fósseis. Os volumes já descobertos são suficientes para atender a demanda global até 2050, conforme projeções sobre o consumo da Agência Internacional de Energia e diante do compromisso assumido pelas nações de limitar o aumento da temperatura a 1,5ºC sobre os níveis pré-industriais, como combinado no Acordo de Paris, em 2015.

Para todos os cenários do 6º Relatório do IPCC, a pesquisa comprova que as reservas existentes de combustíveis fósseis são suficientes para atender à demanda energética do mundo. “A pesquisa se baseou em uma ampla gama de evidências científicas, mas sua mensagem para os governos e as empresas é muito simples: não há espaço para novos projetos de combustíveis fósseis em um mundo alinhado com 1,5°C. Alcançar este objetivo do Acordo de Paris significa que os governos precisam parar de emitir permissões para novos projetos de exploração, produção ou geração de energia a partir de combustíveis fósseis”, explicou Greg Muttitt, associado sênior do IISD.

Lamentavelmente, o negacionismo da ciência costuma ser acionado pelos defensores do petróleo “até a última gota” conforme suas conveniências. Foi o caso do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que na Cúpula da Amazônia, em agosto do ano passado, questionou a relação entre a queima dos combustíveis fósseis e as mudanças climáticas apontada – e exaustivamente comprovada – pelo IPCC. 

Mas, se ignorar o saber acadêmico não envergonha, a turma pró-energia suja deveria pelo menos se constranger ao se posicionar contra grandes consultorias globais da área de energia, que tanto respeitam e admiram. Afinal, até mesmo a Rystad Energy e a Wood Mackenzie, consultorias incensadas como verdadeiros oráculos do futuro energético, indicaram que as reservas atuais dos combustíveis fósseis são mais do que suficientes para atender a demanda global.

“Se o aquecimento global for limitado com sucesso a 1,6°C [teto de temperatura baseado no cenário de transição energética acelerada estabelecido pela consultoria], apenas metade das reservas recuperáveis ​​do mundo seriam necessárias. Não é irracional concluir que políticas e avanços tecnológicos podem reduzir o consumo de petróleo e impulsionar a transição energética, aproximando-nos de um cenário de 1,6°C”, disse, em junho de 2023, Jarand Rystad, CEO da Rystad Energy, uma das maiores consultorias de energia do mundo. A partir de novos números de reservas recuperáveis [ou seja, aquelas que podem ser extraídas], a Rystad concluiu que sobrará petróleo se seguirmos com a tarefa de evitar que a crise climática se torne uma catástrofe sem volta e reduzirmos o consumo de combustíveis fósseis. 

E não para aí. Quase um mês depois, a Wood Mackenzie, uma das mais respeitadas consultorias em petróleo e gás fóssil do mundo, desmentiu a ideia generalizada na indústria petrolífera de que há um subinvestimento no setor. E projetou que o crescimento da demanda por combustíveis fósseis deve desacelerar progressivamente após 2024 em relação à atual taxa, de mais de 2 milhões de barris por dia anuais, à medida que a recuperação pós-pandêmica desaparece. Assim, a demanda de petróleo deve atingir o pico de 108 milhões de barris por dia no início da década de 2030, antes de iniciar seu declínio de longo prazo, a partir da eficiência energética e do avanço dos veículos elétricos.

Uma máxima do setor petrolífero dizia que “se a Idade da Pedra não acabou por falta de pedra, a Idade do Petróleo não vai acabar por falta de petróleo”. A anedota costumava ser lembrada quando se questionava se haveria combustível fóssil para suprir a demanda energética global. O que justificava a exploração desenfreada desses recursos. 

Mas os números comprovam que não faltará petróleo, pelo contrário, já temos de sobra. Logo, a “Idade do Petróleo” tem que acabar o quanto antes, pela sobrevivência humana e de várias outras espécies. A maior prova disso é a crise climática que está fazendo com que catástrofes como as chuvas extremas no RS e a seca histórica na Amazônia em 2023 se tornem cada vez mais frequentes e intensas em todo o planeta. Não há royalties do petróleo em quantidade suficiente para bancar o alto preço que todos pagaremos pela negação do óbvio, um preço que será ainda maior – e mais fatal – para a população preta e pobre.

 

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Por Alexandre Gaspari, jornalista no ClimaInfo.

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ClimaInfo, 7 de junho de 2024.

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