Bayer escolhe Brasil para estrear complemento a agrotóxico mais polêmico do mundo

Empresa revela pouco sobre o químico complementar ao glifosato, o que preocupa especialistas e ambientalistas.
11 de maio de 2026
bayer agrotóxico
Ibadah Mimpi/Unsplash

Líder mundial do mercado de agrotóxicos, a Bayer se prepara para lançar um novo herbicida em 2028. O icafolin-metil deve agir em complemento ao Roundup, o mais popular pesticida do mundo, que tem como princípio ativo o glifosato – que tem severas restrições de uso em vários países.

Mas, como O Repórter Brasil destaca, o lançamento também é uma resposta às acusações de que o Roundup estaria associado ao desenvolvimento de câncer em seres humanos. Apenas nos EUA, a Bayer acumula 192 mil processos, que já consumiram pelo menos US$ 11 bilhões (R$ 54 bilhões) em acordos judiciais.

Por aqui, uma tese de doutorado da Faculdade de Saúde Pública da USP investigou a relação do aumento de casos de câncer e má formação congênita após a instalação de uma usina sucroalcooleira na região do Pontal do Paranapanema, região oeste do estado de São Paulo. Casos foram relatados por agricultores da região que convivem com a pulverização aérea do Roundup nas plantações de cana-de-açúcar, informa o Jornal da USP.

Outro estudo, publicado na revista Environmental Science & Health, mostrou que o impacto do glifosato pode atingir também organismos aquáticos, como anfíbios. Testes apresentaram deformidades e maior taxa de mortalidade em fases iniciais. Formulações comerciais contendo glifosato podem apresentar toxicidade ampliada devido a componentes adicionais além do princípio ativo, destaca o R7.

Voltando ao icafolin-metil, até agora a Bayer revelou pouco sobre o herbicida, segundo Dina Akhmetshina, especialista em políticas públicas da ONG estadunidense U.S. PIRG. “Antes de utilizar novos produtos químicos, precisamos ter certeza absoluta de que são seguros”, reforça.

Em 6 de abril, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) aprovou o princípio ativo do químico, estabelecendo limites de ingestão diária de resíduos da substância semelhantes aos limites do glifosato, informa o Instituto Humanitas Unisinos. Já o valor aceitável para a exposição de trabalhadores no campo será três vezes maior. Contudo, a agência ainda deve avaliar os produtos formulados com a substância.

O icafolin agora aguarda a aprovação do Ministério da Agricultura (MAPA) e do IBAMA. Os processos tramitam com prioridade no governo federal. Desde o final de abril, executivos da Bayer se reuniram 62 vezes com o setor de avaliação e controle do órgão ambiental.

“É muito problemático a ANVISA ter aprovado antes de outras agências regulatórias, porque mostra que o princípio ativo ainda não foi devidamente analisado”, afirma Luiz Claudio Meirelles, ex-gerente da agência e pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz.

  • Em tempo: Um projeto que torna obrigatórias informações sobre agrotóxicos nos rótulos de alimentos está em análise na Câmara dos Deputados. O Projeto de Lei nº 6427/25 determina que as embalagens de alimentos industrializados e in natura contenham informações ostensivas, claras e de fácil visualização sobre a presença de resíduos de agrotóxicos ou pesticidas. Segundo o autor da proposta, deputado Amom Mandel (Cidadania-AM), a transparência pode estimular práticas produtivas mais seguras e sustentáveis por parte dos fornecedores.

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