Centro climático nos EUA leva governo Trump à Justiça

Universidades querem impedir o desmonte do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica, como acontece com outros órgãos de clima.
11 de maio de 2026
centro climático eua trump
Bruno Sanchez-Andrade Nuño

Em uma das batalhas de maior repercussão até o momento entre a comunidade científica dos Estados Unidos e o governo Trump, advogados se enfrentaram em um tribunal do Colorado na 5ª feira passada (7/5) sobre o futuro de um centro de pesquisa que tem sido chamado de “nave-mãe” global da ciência climática, destaca a Nature.

O governo Trump afirmou que tomará medidas para desmantelar o Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica (NCAR, sigla em Inglês), em Boulder, Colorado, alegando que o centro promove o alarmismo climático. A organização que administra o NCAR – uma coalizão de cerca de 130 universidades chamada University Corporation for Atmospheric Research (UCAR) – processou o governo em março para impedir o desmantelamento.

Pesquisadores afirmam que o NCAR é crucial. Seus modelos sustentam grande parte da ciência atmosférica moderna, incluindo estudos de IA para decodificar e prever eventos climáticos extremos. “Perder o NCAR significaria perder décadas de conhecimento institucional, algo que não pode ser recuperado daqui a dois, quatro ou mesmo dez anos”, diz Angeline Pendergrass, cientista atmosférica da Universidade Cornell em Ithaca, Nova York.

Os ataques do “agente laranja” a órgãos e instituições que tratam de clima e meio ambiente são amplos. Segundo o Guardian, podem ocorrer mudanças drásticas na Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA, sigla em Inglês), a principal coordenadora de resposta a emergências do país. Segundo especialistas, o movimento pode corroer ainda mais a capacidade dos EUA de lidar com desastres, à medida que os riscos de eventos extremos impulsionados pela crise climática continuam a aumentar.

Uma proposta sobre a agência, divulgada por um conselho nomeado por Trump, reforçou os apelos do presidente para reduzir os gastos federais com desastres e transferir a responsabilidade para estados e governos locais. “É hora de encerrar o capítulo da FEMA”, escreveu o “Conselho de Revisão da FEMA”, composto por 12 membros, em seu relatório final, que foi rapidamente encaminhado ao presidente após uma apresentação pública na 5ª feira (7/5). As recomendações, acrescentaram, foram guiadas por uma doutrina fundamental: “A resposta a desastres deve ser executada localmente, gerenciada pelos estados ou tribos indígenas e apoiada pelo governo federal”.

Enquanto isso, o país sofre com os efeitos das mudanças climáticas. De acordo com o Financial Times, houve mais incêndios florestais nos EUA em 2026 do que em qualquer outro ano da última década, impulsionados por condições persistentes de seca, antes do que os cientistas alertam que pode ser um verão excepcionalmente quente. Uma área de cerca de 770 mil hectares – cinco vezes a cidade de São Paulo – foi devastada pelo fogo, mostram os dados do Centro Nacional Interagências de Incêndios. Isso representa cerca de 80% acima da média dos últimos dez anos e é o maior número registrado neste período do ano desde 2017.

Não para aí. Em abril, os EUA vivenciaram a pior seca de primavera já registrada no mês, com mais de 60% das terras nos 48 estados contíguos sofrendo com seca moderada ou pior, informa a Time. A seca assustou agricultores e ambientalistas em todo o país, que alertam para o possível impacto no abastecimento de alimentos e para o risco de incêndios florestais em áreas onde normalmente não ocorrem.

As condições de seca estão concentradas no sudeste estadunidense, onde a seca de moderada a excepcional atingiu quase 100% da região no pico em abril, segundo o Monitor de Seca dos EUA. A seca severa a excepcional cobriu mais de 80% da região – o nível mais alto em abril desde que o monitor começou a coletar dados, em 2000.

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