A urgência do leilão de baterias no Brasil

IRENA e Bloomberg NEF mostram que armazenamento de energia já é competitivo. É a peça que faltava para a eletricidade no Brasil ser 100% renovável.
12 de maio de 2026
  • Alexandre Gaspari, jornalista no climainfo
Crédito: divulgação/ Enel Green Power

Em novembro do ano passado, o Ministério de Minas e Energia (MME) colocou em consulta pública as regras para o primeiro leilão de sistemas de armazenamento de energia elétrica em baterias (BESS, sigla em inglês). A expectativa era realizar o certame em abril deste ano. Estamos em maio e nada aconteceu. O MME prometeu o edital “para as próximas semanas”. A data, porém, segue indefinida.

Até pouco tempo, os sistemas de armazenamento eram a “pedra no sapato” para acelerar o avanço das fontes solar e eólica na matriz energética global. As baterias são cruciais para complementar a intermitência dessas fontes renováveis, que não são capazes de gerar eletricidade quando a demanda elétrica exige. No entanto, apesar da enorme vantagem diante da urgência do enfrentamento das mudanças climáticas e seus consequentes prejuízos sobre a economia como um todo, o alto preço desses sistemas encarecia demais a energia gerada pelas renováveis, tornando seu preço maior do que o da eletricidade gerada por combustíveis fósseis.

No entanto, dados recentes da Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA) e da Bloomberg NEF mostram que essa barreira financeira está caindo por terra, e rapidamente. De acordo com a IRENA, em regiões de alto potencial solar e eólico – como o Brasil -, as soluções híbridas combinadas com armazenamento fornecem energia ininterrupta, 24 horas por dia, sete dias por semana, a custos mais baixos do que os do petróleo, gás e carvão.

A informação é corroborada pela Bloomberg NEF. Segundo a consultoria, os custos médios dos sistemas de armazenamento de energia caíram cerca de 75% entre 2018 e 2025, e devem cair mais 25% até 2035. Assim, onde as redes dependiam de carvão e gás fóssil quando a produção de energia elétrica renovável caía, o armazenamento agora está se tornando barato e rápido o suficiente para fazer diferença no funcionamento do sistema. 

Solar e eólica com custos menores e segurança energética

A IRENA destaca o Brasil neste novo cenário. A associação mostra que o custo nivelado de energia elétrica (LCOE) do país para projetos solares e eólicos onshore com armazenamento deve cair acentuadamente até 2030. Em 2025, o LCOE solar no estado da Bahia foi de US$ 65 por megawatt-hora (MWh). Segundo a IRENA, até o final da década esse custo no estado cairá para US$ 44/MWh. 

Quanto às eólicas onshore, o relatório da IRENA mostra que o LCOE com baterias ficou entre US$ 88 e US$ 94 por megawatt-hora no Brasil em 2025 – custo também verificado na Alemanha e na Austrália. Em 2030 esse valor cairá para uma faixa entre US$ 49 e US$ 75/MWh, de acordo com a entidade. 

Como comparação, o LCOE médio da energia termelétrica gerada com gás fóssil no Brasil em 2023 foi de US$ 60/MWh. Quando se trata da termeletricidade a carvão, esse custo foi de R$ 66/MWh. Ou seja, as vantagens financeiras são óbvias – além do ganho ambiental e climático.

O armazenamento de energia ganhou força e impulso com os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã, iniciados em 28 de fevereiro. O conflito no Oriente Médio restringiu a oferta de combustíveis fósseis, fazendo seus preços dispararem, já que cerca de 20% de todo o petróleo produzido no mundo passa pelo Estreito de Ormuz, fechado pelo governo iraniano. O choque bateu diretamente nas contas públicas de vários países, sobretudo na Ásia. E fez governos acelerarem investimentos em transição energética, tanto pela questão financeira como pela soberania e segurança energéticas.

Demora pode fazer Brasil perder competitividade na economia verde

Em entrevista ao Valor, o diretor-geral da IRENA, Francesco La Camera, vaticinou: “O mundo está mudando e ainda há pessoas que não acordaram para este fato. Infelizmente, isso fará com que nossas economias e competitividade sofram. Aqueles que se movem lentamente e olham para o passado perderão competitividade. Não se pode frear a energia mais barata sempre com subsídios aos outros. No fim das contas, o mais barato e conveniente invade o mercado.”

Sabe-se que a demora do MME em colocar na rua o edital do leilão de baterias tem relação com reivindicações para que as regras do certame aumentem o conteúdo local e estimulem a indústria brasileira. De fato, não é bom para o Brasil ser apenas um mero importador desses equipamentos e não deter a tecnologia, fabricando equipamentos aqui. 

Mas há também o “olhar para o passado” do titular da pasta, Alexandre Silveira, para um desenvolvimentismo do século passado. Silveira é um árduo defensor dos combustíveis fósseis e da exploração de petróleo no Brasil “até a última gota”. Sem falar em seu apreço pelo gás fóssil e até mesmo pelo carvão – vide os incentivos aos fósseis garantidos no último leilão de reserva de capacidade (LRCAP).

No entanto, se Silveira não dá valor à urgência da transição energética para conter as mudanças climáticas e os prejuízos à população causados por eventos extremos, terá de explicar por que privilegia uma energia que doerá no bolso do consumidor e que não contribui para que o Brasil ganhe musculatura na atual corrida global por uma economia mais verde. O custo das baterias escancara a realidade de que o Brasil não precisará mais de gás, muito menos de carvão, para gerar energia. E quanto mais cedo o país investir em sistemas renováveis combinados com armazenamento de eletricidade, melhor para a população – tanto no custo da eletricidade quanto em ganhos climáticos. Sem falar no fomento à indústria nacional, o que vai gerar empregos e know-how que podem ser decisivos para a competitividade do Brasil. A conta já está feita.  

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