
As empresas estatais de petróleo e gás (National Oil Companies, ou NOCs) deveriam ter um papel fundamental na transição energética ordenada e justa — uma transição de verdade, não o greenwashing que as petrolíferas costumam promover (leia aqui). Juntas, controlam 55% da produção global e cerca de dois terços das reservas conhecidas no mundo. Mas essas companhias não têm planos de transição viáveis, e mesmo as que estão na vanguarda do processo dão passos muito lentos.
É o que mostra um estudo encomendado pela Global Gas and Oil Network (GGON), rede de mais de 300 ONGs de 60 países que trabalha na transição para longe dos combustíveis fósseis. A pesquisa agrupou 33 empresas de petróleo e gás que são 100% estatais ou têm o Estado como principal acionista em cinco grupos – considerando reservas, política e situação fiscal de seus países de origem, segurança energética e eficiência operacional. O foco da análise, coordenada por Adriàn Correa-Florez, professor da Universidad Distrital Francisco José de Caldas, da Colômbia, era olhar para a capacidade, os desafios e o potencial dessas empresas em se transformar em produtoras de energia e descarbonizarem a economia, explica Daniela Chiaretti no Valor.
A Petrobras está entre as sete NOCs em melhores condições para liderar a transição energética global. A condicionante que se aplica a este grupo de pioneiras, diz o estudo, é que implementem uma forte política de afastamento da dependência aos combustíveis fósseis e, ao mesmo tempo, de investimento em energias renováveis e eletrificação, destaca o relatório “Roadmaps for Equitable Transitions of National Oil Companies”. Algo que, infelizmente, não está no Plano de Negócios 2026-2030 da estatal brasileira, que reduziu os recursos para transição energética.
A pesquisa levou em conta que as NOCs não são um grupo uniforme. Têm resiliência fiscal diferentes, assim como perfil de produção, exposição a mercados globais, compromissos sociais e ambientais. “Há diferenças estruturais entre elas. O que quer dizer que não existe um caminho de transição único que sirva para todas”, diz Correa-Florez. No entanto, ele ressalta que “a transição acontecerá pela via do planejamento ou pela via do desastre”. Países como Brasil, com a Petrobras, Noruega, Itália, Colômbia e Arábia Saudita “têm economias complexas e podem transitar para indústrias diversas, produtivas e sustentáveis”, diz.
O estudo ainda reforça que “alegações de que a expansão da produção [de combustíveis fósseis] reduz a pobreza ou garante a segurança energética não são mais válidas em um mercado em rápida transformação”. Recomenda que, para garantir transições com legitimidade e estáveis, os governos precisam envolver os trabalhadores do setor e comunidades no processo de planejamento. Estruturas abrangentes de transição justa incluem requalificação profissional, proteção de renda e programas de benefícios – “essenciais para prevenir conflitos sociais”, destaca a pesquisa.
Brasil 247 e Fato Amazônico também repercutiram o estudo sobre as petrolíferas estatais.
Em tempo: Organizações do GT Clima e Energia da rede Observatório do Clima lançaram, no ano passado, uma contribuição para que a Petrobras venha a contribuir para a transição energética. Confira no relatório A Petrobras de que Precisamos.



