Projetos de “baixo carbono” da indústria petrolífera reforçam dependência fóssil

Iniciativas de descarbonização não estão substituindo os combustíveis fósseis, mas justificando o uso contínuo de petróleo, gás ou carvão.
25 de maio de 2026
projetos baixo carbono restauração florestal
Maksim Shutov / Unsplash
Resumo
  • Greenwashing estrutural — Projetos "verdes" de petrolíferas não substituem combustíveis fósseis: na prática, justificam e prolongam seu uso.
  • Falsas soluções, danos reais — Projetos "descarbonizantes" da indústria de combustíveis fósseis frequentemente encobrem extração contínua de petróleo, gás e carvão, além de gerar conflitos fundiários com Povos Indígenas e comunidades tradicionais.
  • O efeito mais perigoso — Ao ampliar credenciais ecológicas sem mudar o modelo de negócios, a indústria de combustíveis fósseis adia ativamente o fim da sua própria era e assim continua agravando as mudanças climáticas.
  • As principais empresas de petróleo e gás do mundo gastam bilhões de dólares em propaganda para se apresentarem ao público como líderes da transição energética (não é, Petrobras?) e como parte da solução para descarbonizar a economia global. No entanto, um estudo publicado na ScienceDirect mostra uma história bem diferente. As empresas de combustíveis fósseis não têm quase nada a ver com os casos nos quais está ocorrendo uma rápida transição para as energias renováveis.

    Com base no Atlas Global de Justiça Ambiental – o maior banco de dados de conflitos ambientais do mundo, da Universidade Autônoma de Barcelona -, os pesquisadores mapearam e analisaram 48 projetos administrados por empresas de combustíveis fósseis. Esses projetos variaram de biocombustíveis a captura e estocagem de carbono (CCS) e esquemas de restauração florestal, bem como alguns projetos de energia renovável que são de propriedade e usados por essas empresas. E descobriram que esses projetos raramente substituíam os combustíveis fósseis. Em vez disso, as iniciativas justificam o uso contínuo de petróleo, gás ou carvão.

    “Durante décadas, Povos Indígenas e ativistas ambientais acusaram a indústria de combustíveis fósseis de oferecer ‘soluções falsas’. São projetos que amplificam as credenciais ecológicas da indústria, sem alterar seu modelo de negócios principal. Nossa pesquisa corrobora a tese”, afirmam Freddie Daley, da Universidade de Sussex, e Marcel Llavero-Pasquina, da Universidade Autônoma de Barcelona, dois dos autores do estudo, em artigo no The Conversation, reproduzido pelo Terra.

    Instalações de CCS, por exemplo, estão frequentemente associadas à recuperação avançada de petróleo. Isso envolve a injeção de CO₂ em poços para extrair mais combustíveis fósseis de reservatórios subterrâneos – o que, na verdade, prolonga a vida útil dos campos de petróleo. Os próprios documentos do setor confirmam isso: o relatório de 2025 do Global CCS Institute lista 77 instalações comerciais em operação no mundo. Destas, 33 foram desenvolvidas para aumentar a recuperação de petróleo.

    Da mesma forma, o “hidrogênio limpo” é usado para conferir uma aparência ecológica a projetos que, na verdade, se baseiam na produção contínua de gás fóssil. Mesmo projetos de energias renováveis podem se tornar falsas soluções: a pesquisa encontrou parques solares e eólicos construídos para abastecer refinarias e instalações de exploração de petróleo e gás – como a Petrobras está fazendo no polo gasífero de Urucu, no coração da Floresta Amazônica. Tais projetos, portanto, não descarbonizam a rede elétrica: simplesmente tornam mais fácil e barato extrair combustíveis fósseis. Além de darem um ar de “limpeza” às das mais sujas fontes de energia do planeta.

    As falsas soluções fazem mais do que perpetuar a dependência dos combustíveis fósseis. Em todos os casos analisados havia exemplos de conflitos fundiários. Os esquemas de compensação de carbono frequentemente envolvem grandes emissores pagando para proteger ou restaurar uma floresta ou outro ecossistema, a fim de “compensar” suas emissões. Mas, na prática, podem levar ao cercamento de terras anteriormente de uso comunitário e à perda de direitos destas comunidades ou de Povos Indígenas. As plantações de biocombustíveis podem deslocar pequenos agricultores, substituindo os sistemas alimentares locais por fazendas de escala industrial.

    As comunidades indígenas e tradicionais são afetadas de forma desproporcional pelas falsas soluções. Muitos projetos são instalados em Terras Ancestrais ou Sagradas sem consulta ou consentimento significativos.

    “Após examinar esses 48 projetos, uma lição se torna inconfundível: as falsas soluções não são erros experimentais. Elas estão, na prática, ajudando a adiar o fim da era dos combustíveis fósseis”, reforçam Daley e Llavero-Pasquina.

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