Terras raras: urgência no Senado deixa participação social de fora

Discussão sobre marco legal avança sem ouvir atores sociais que podem ser diretamente impactados pela expansão da mineração.
26 de maio de 2026
  • Renata Albuquerque Ribeiro, líder em desenvolvimento verde no ClimaInfo
Foto do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), sentando em sua mesa, com a expressão séria.
Créditos: Andressa Anholete/Agência Senado
Resumo
  • O Brasil detém cerca de 23% das reservas mundiais de terras raras, essenciais para a tecnologia, a defesa e a energia.
  • A discussão sobre Terras Raras avança sem a participação de atores sociais diretamente impactados, como povos indígenas e comunidades tradicionais. Organizações da sociedade civil alertam para a necessidade de salvaguardas socioambientais.
  • A ausência de diálogo social compromete a legitimidade do marco legal, prejudica a construção de uma estratégia de mineração sustentável, justa e inclusiva, e pode gerar conflitos, judicialização e atrasos.
  • Nas últimas semanas, o debate sobre o marco legal dos minerais críticos ganhou espaço na imprensa, na academia e entre organizações da sociedade civil. O motivo é evidente. O Brasil detém cerca de 23% das reservas mundiais de terras raras, fundamentais para tecnologias de ponta, transição energética, defesa, eletrônicos e veículos elétricos. Trata-se de uma discussão que envolve soberania nacional, desenvolvimento industrial, política externa, proteção ambiental e direitos humanos.

    Diversos estudos, análises e manifestações públicas destacam elementos essenciais desse debate. Entre eles, a necessidade de transformar a riqueza mineral brasileira em desenvolvimento econômico de longo prazo, agregando valor à produção nacional, gerando empregos qualificados e fortalecendo a indústria brasileira, em vez de perpetuar um modelo baseado exclusivamente na exportação de commodities – um “neocolonialismo verde”. Outro ponto central é a construção coletiva dessa estratégia industrial, com ampla participação dos diferentes setores da sociedade.

    Dois atores importantíssimos da sociedade civil organizada, o Observatório do Clima e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), alertaram sobre os riscos do projeto em tramitação no Congresso Nacional. As entidades destacaram a necessidade de garantir salvaguardas socioambientais, mecanismos de participação social e respeito aos direitos dos Povos Indígenas e comunidades tradicionais potencialmente afetados pelos empreendimentos minerais. São preocupações legítimas, respaldadas pela experiência acumulada ao longo de décadas de conflitos socioambientais associados à mineração no Brasil e, no entanto, ignoradas pelo Senado.

    As preocupações com a exploração de minerais críticos – e principalmente com seus efeitos sobre as populações e o meio ambiente – não se restringem ao Brasil. Não à toa, o tema faz parte da Encíclica sobre Inteligência Artificial, lançada na segunda-feira (25/5) pelo Papa Leão XIV. No documento, o Papa afirma que “em algumas regiões do mundo, crianças e adolescentes trabalham em condições perigosas, escavando os materiais de onde os minerais raros são extraídos”.

    Sociedade sem voz nem vez

    Tamanha complexidade, ainda mais em um país emergente e com enorme disparidade social como o Brasil, não sensibilizou os parlamentares. A Comissão de Infraestrutura (CI) do Senado organizou, em caráter de urgência, a realização de duas audiências públicas, agendadas para acontecer nestas quarta e quinta-feiras, dias 27 e 28. Foram definidas as sessões e escolhidos os convidados. Mas representantes da sociedade civil, movimentos sociais, organizações ambientalistas, Povos Indígenas e comunidades potencialmente afetadas foram excluídos da discussão.

    É difícil compreender como um tema que envolve impactos territoriais, ambientais, econômicos e geopolíticos de tamanha magnitude possa ser debatido em caráter de urgência sem a presença daqueles que viverão diretamente as consequências dessas decisões. No entanto, considerando o histórico das votações deste mandato parlamentar, em sua maioria contrárias aos interesses da sociedade brasileira – como as da “Semana do Agro”, uma verdadeira “boiada” sobre o meio ambiente e o clima aprovada por deputados na semana passada -, não chega a surpreender, embora continue sendo chocante.

    Ainda mais grave é a exclusão da sociedade civil deste debate ocorrer justamente em um momento em que especialistas alertam para a necessidade de evitar a repetição de erros históricos. O Brasil precisa decidir se pretende ocupar um lugar estratégico nas cadeias globais de valor associadas aos minerais críticos ou se continuará desempenhando o papel de mero fornecedor de matéria-prima para as grandes potências econômicas. Precisa decidir como vai equilibrar desenvolvimento econômico, proteção ambiental, geração de empregos e direitos territoriais. Precisa decidir como garantir que os benefícios dessa riqueza sejam distribuídos de forma justa e sustentável.

    Nenhuma dessas decisões pode ser tomada a portas fechadas

    A exploração de minerais críticos e terras raras afetará territórios, ecossistemas e populações inteiras. Afetará comunidades indígenas, quilombolas, ribeirinhas e trabalhadores. Afetará o futuro da política industrial brasileira. Ignorar essas vozes não apenas enfraquece a qualidade do debate público, mas também compromete a própria legitimidade de qualquer marco legal que venha a ser aprovado.

    A participação social não é um detalhe burocrático nem um obstáculo ao desenvolvimento. É uma condição indispensável para que o país construa uma estratégia de mineração capaz de gerar prosperidade econômica compartilhada, justiça social e sustentabilidade. É também essencial para que sejam desenvolvidas maneiras de tratar potenciais conflitos antes que eles aconteçam, o que será benéfico tanto para comunidades afetadas como para a indústria, visto que pode eliminar a judicialização e evitar atrasos de projetos que provêm da falta de consulta prévia e de negociações justas e transparentes. 

    Se o Congresso Nacional realmente pretende discutir o futuro dos minerais críticos e estratégicos do Brasil, o primeiro passo é simples: abrir espaço para que a sociedade participe desta conversa. O que está em jogo é grande demais para ser decidido sem a voz desses atores.

    O Brasil merece um debate à altura da importância estratégica de suas riquezas minerais. E a democracia exige que esse debate inclua todos aqueles que serão afetados por suas consequências.

    Não há transição energética justa, soberania ou desenvolvimento nacional construídos sem participação social. O que existe, nesse caso, é a velha política de decidir sobre territórios e comunidades sem ouvi-los.

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