
Em evento com a presença do presidente Lula, a Petrobras anunciou ontem (27/5), em Manaus, um investimento bilionário para aumentar a produção de petróleo e gás na Província Petrolífera de Urucu, em Coari (AM). A extração de combustíveis fósseis na área completa 40 anos em 2026. Mas até hoje a população coariense não viu a cor da riqueza e do desenvolvimento prometidos, mostram a série de matérias e o documentário “Insustentável: a realidade do petróleo na Amazônia”, de André Borges, Ruy Baron e Fernanda Ligabue.
Urucu é a maior província petrolífera em terra (onshore) do Brasil, lembra o UOL. Instalada no coração da Floresta Amazônica, a província tem hoje uma produção média de 105 mil barris de óleo equivalente (BOE) por dia. Com a aplicação de R$ 2,5 bilhões na perfuração de novos poços e na instalação de cerca de 40 km de novas linhas para transporte dos combustíveis fósseis, a Petrobras espera incrementar a extração em 4.400 BOE diários – menos de 5% do volume atual.
O gás fóssil de Urucu viabiliza a geração de 65% da energia elétrica consumida em Manaus e em outros cinco municípios, segundo a Agência Petrobras de Notícias. Já o gás de cozinha (GLP) produzido – em média, 80 mil botijões/dia – abastece todos os estados da Região Norte e parte do Nordeste.
No entanto, moradores de Coari convivem com a instabilidade no abastecimento de eletricidade, verificou André Borges quando esteve na cidade, em 2023. “Em período de estiagem, a gente sofre bastante com a falta de energia”, contou Gleides Medins de Menezes, coordenadora da Universidade Estadual do Amazonas (UEA) na cidade.
Durante o anúncio dos investimentos da Petrobras, Lula disse que o governo federal tem na petrolífera uma forma de ampliar investimentos no país, para gerar emprego e renda. De fato, essa era a expectativa da população de Coari quando a produção de combustíveis fósseis em Urucu começou, em 1986. Mas a realidade na cidade é mais uma prova de que a aclamada riqueza do petróleo não só não gera desenvolvimento, como também vai para o bolso de poucos.
Em 2022, Coari recebeu R$ 136,3 milhões em royalties, para uma população de cerca de 70 mil pessoas. No entanto, na farmácia popular do município, que distribui medicamentos gratuitos, faltavam remédios básicos. Na zona rural coariense, em locais como a Vila Lira, ao lado do terminal de embarque de petróleo da Petrobras, a merenda escolar só dava para metade do mês. “Para um município que recebe esses recursos, o que a gente percebe é essa precariedade, sobretudo nas questões essenciais do serviço público”, diz Gleides. Além disso, sem uma indústria além da petroleira, os moradores não têm emprego, muito menos renda. “Infelizmente, é um município com um índice de desemprego muito alto, além da carência de serviços básicos de saúde e educação. Poderia estar numa situação melhor, mas, infelizmente, nós não temos.”
Canal Rural, Amazonas Atual, AM Post e BNC Amazonas também noticiaram o anúncio dos investimentos da Petrobras em Urucu.
Em tempo: Os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, que provocaram o fechamento do Estreito do Ormuz e fizeram os preços dos combustíveis fósseis dispararem, proporcionaram às companhias nacionais de petróleo (NOCs, na sigla em Inglês) grandes e inesperados lucros. Os governos estão registrando receitas que não viam há anos. Mas os eventos recentes não justificam dobrar a aposta no petróleo: são o alerta mais contundente até agora de que a dependência dos combustíveis fósseis deixa os países expostos a choques que não podem controlar, destaca Jean Paul Prates, ex-presidente da Petrobras, no Financial Times e na Folha. Análises sugerem que as NOCs estão investindo cerca de US$ 425 bilhões em projetos que provavelmente não serão lucrativos em cenários de demanda (de petróleo) mais baixos. Enquanto isso, os estados produtores podem perder trilhões de receitas esperadas até 2040 em uma transição de ritmo moderado. É um planejamento empresarial ruim”, reforça Prates.



