
Delegados da União Europeia, da Suíça e dos países em desenvolvimento mais ameaçados pelas mudanças climáticas denunciaram os crescentes “ataques coordenados” à ciência por parte de interesses ligados aos combustíveis fósseis nas negociações da 64ª sessão dos Órgãos Subsidiários da UNFCCC (SB64). A conferência preparatória para a COP31 termina nesta 5ª feira (18/6), em Bonn.
Sob a bandeira de “Amigos da Ciência”, diplomatas de Fiji, Nepal, UE, Suíça, Serra Leoa e Panamá prometeram em uma coletiva de imprensa garantir que a tomada de decisões no processo climático da ONU continue baseada na “melhor ciência disponível”, destaca o Climate Home. Isso inclui os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), órgão científico da ONU para o clima, afirmaram.
“Existem interesses poderosos desesperados para proteger sua riqueza e influência”, disse o chefe da delegação de Fiji, Sivendra Michael, ladeado por apoiadores com camisetas estampadas com o slogan “A ciência não é negociável”, informa o France24. “Estamos vendo certos países sequestrando o processo enquanto pessoas vulneráveis sofrem com o estresse térmico, marés altas, tempestades, secas e fome”, completou.
Os negociadores evitaram apontar qualquer país específico. No entanto, afirmaram que os esforços para lançar dúvidas sobre conceitos científicos estabelecidos – como o limite de aquecimento global de 1,5°C sobre os níveis pré-industriais estabelecido no Acordo de Paris – são liderados pelos “suspeitos de sempre” e por aqueles que pensam que “a ciência ameaça suas perspectivas econômicas”.
Apesar da ausência de nomes, o boletim independente Earth Negotiations Bulletin informou que a Arábia Saudita opôs-se à linguagem que expressava preocupação com o El Niño e solicitava ao IPCC que fornecesse atualizações regulares sobre a ciência climática. E a Índia sugeriu eliminar qualquer referência a “mudanças irreversíveis”. A Arábia Saudita depende das exportações de petróleo e gás, enquanto a Índia ainda usa muito carvão na geração de eletricidade e em processos industriais.
Em nome da Associação Independente da América Latina e do Caribe (AILAC), a panamenha Ana Aguilar disse que estes países foram a Bonn para negociar posições, não os fatos apresentados pela ciência. “Observamos esforços coordenados para lançar dúvidas sobre a melhor ciência disponível, motivados por um conjunto restrito de interesses, e não pelas necessidades do nosso povo”, acrescentou. “Já vimos essa estratégia antes… fabricar dúvidas, atrasar a resposta e deixar que as pessoas vulneráveis paguem a conta.”
Uma questão controversa é se os relatórios de avaliação mais recentes do IPCC estarão disponíveis a tempo para o próximo balanço global da ONU, previsto para começar em novembro deste ano e terminar em 2028. Índia, Arábia Saudita e China pressionaram para que a publicação seja adiada para 2029, medida à qual a UE e outros países se opõem.



