Recursos do Fundo Clima financiarão usina de etanol de milho no MT

Liberação para planta da FS reforça questionamento sobre uso de recursos da iniciativa em projetos facilmente financiáveis pelo mercado.
17 de junho de 2026
fundo clima usina de etanol mt
Unem/ Divulgação
Resumo
  • O BNDES aprovou R$ 500 milhões para usina de etanol de milho no MT: os recursos financiarão 25% do custo de uma nova planta da FS em Campo Novo do Parecis. A operação combina recursos do Fundo Clima com a linha Finem do banco.
  • Uso do Fundo Clima em tecnologia consolidada levanta dúvidas: o etanol de milho integra uma rota tecnológica conhecida há décadas e não representa inovação estrutural, o que coloca em xeque se projetos do tipo deveriam receber recursos de um fundo voltado a abrir novos caminhos de baixo carbono para a economia.
  • Em jogo, o papel do Estado na transição energética: para Délcio Rodrigues, do ClimaInfo, o Fundo Clima deveria financiar transformações que o mercado sozinho não viabiliza - como a eletrificação do transporte de cargas em longas distâncias.
  • O BNDES anunciou, na 2ª feira (15/6), a aprovação de R$ 500 milhões para financiar a construção de uma nova planta de etanol de milho da FS em Campo Novo do Parecis, no Mato Grosso. A unidade terá capacidade de processamento de até 1,2 milhão de toneladas de milho e produção anual de até 540 milhões de litros de etanol.

    O custo total do projeto é de R$ 2,07 bilhões – portanto, os recursos aprovados pelo banco representam quase 25% desse valor. A operação envolve recursos do Fundo Clima e da linha BNDES Finem voltada à produção de alimentos e biocombustíveis, informam Capital Reset, eixos e Cenário Energia.

    É fato que o etanol de milho pode contribuir para a descarbonização de veículos leves. Contudo, o grande questionamento é se um projeto convencional como este é prioritário para o Fundo Clima.

    O Fundo Clima deve fomentar projetos estruturantes, capazes de criar novos caminhos de baixo carbono para a economia brasileira, alerta Délcio Rodrigues, diretor-executivo do ClimaInfo. Não é o caso de usinas de etanol de milho, que integram uma rota tecnológica conhecida (e consolidada) há décadas – a dos biocombustíveis – e não trazem grande inovação, reforça.

    Rodrigues dá um exemplo do que seria um projeto estruturante: a eletrificação do transporte de cargas em longas distâncias. Afinal, o setor de transportes responde por cerca de 11% das emissões totais do país, e parte significativa desse volume é gerada por caminhões movidos a diesel fóssil.

    No entanto, não se trata de optar por “isto ou aquilo”. O que está em jogo é o papel que o governo brasileiro deve assumir na descarbonização da economia nacional. Nesse sentido, o direcionamento dos recursos do Fundo Clima indicaria se o Estado investirá em inovação ou repetirá o “mais do mesmo” com processos já consolidados.

    “O ponto vai além de escolher entre etanol de milho e eletrificação, mas decidir qual papel o Estado quer desempenhar na transição energética. O Fundo Clima não deveria apenas reduzir emissões na margem, financiando projetos de tecnologia já consolidada, mas sim abrir caminho para transformações estruturais que o mercado, sozinho, não consegue viabilizar. Em um contexto de restrição fiscal e de urgência climática, cada real investido implica uma escolha sobre o futuro da economia brasileira. Usá-lo para repetir o passado é desperdiçar uma oportunidade rara de construir o próximo ciclo de desenvolvimento”, reforça Rodrigues.

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