HSBC e IFC lideram aporte em projeto de biocombustíveis criticado por quilombolas

Acelen planta macaúba na Bahia para produzir biocombustível de aviação e diesel “renovável”, mas comunidades se queixam dos impactos.
22 de junho de 2026
biorrefinaria biocombustíveis
Divulgação Acelen
Resumo
  • HSBC e IFC lideram aporte de R$ 7 bi em biorrefinaria da Acelen: consórcio de 12 instituições — incluindo BNDES e Bradesco — financia a Acelen para produzir, já em 2028, 1 bilhão de litros anuais de SAF a partir do óleo de macaúba, com 80% da produção já vendida para os EUA e a Europa.
  • Quilombolas denunciam restrição a terras e danos nas estradas: ao menos 18 comunidades convivem com cercas, placas proibitivas e vias destruídas pelo tráfego de caminhões e tratores da Acelen em áreas historicamente usadas para extrativismo, práticas religiosas e coleta de alimentos e que agora estão recebendo plantações de macaúba.
  • MPF investiga consulta prévia às comunidades: dois inquéritos foram abertos para apurar o cumprimento da Convenção 169 da OIT, que protege os Direitos de Comunidades Tradicionais.
  • Com a promessa de reduzir as emissões de gases de efeito estufa do setor de transportes por meio da produção de combustível de aviação sustentável (SAF) e de diesel “renovável” no Recôncavo Baiano, a Acelen atraiu R$ 7 bilhões em crédito público e privado para a construção de uma biorrefinaria em área de dezenas de comunidades quilombolas. O cultivo de macaúba na região vem danificando as estradas próximas e limitando o acesso a áreas de extrativismo, denunciam os quilombolas.

    Os R$ 7 bilhões foram levantados por um consórcio liderado pelo banco HSBC e pela International Finance Corporation (IFC), braço de investimentos do Banco Mundial, do qual participam outras dez instituições financeiras nacionais e internacionais, incluindo o BNDES e o Bradesco, informa a Repórter Brasil. A expectativa da Acelen é fabricar 1 bilhão de litros de SAF por ano. O CEO da empresa, Luiz de Mendonça, afirma que 80% da produção já foi vendida para os mercados dos Estados Unidos e da Europa.

    O Ministério Público Federal (MPF) abriu dois inquéritos para apurar se o processo de consulta prévia às comunidades potencialmente afetadas pelo projeto está sendo realizado de acordo com o  estabelecido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). O tratado, ratificado pelo Brasil, protege os Direitos de Comunidades Indígenas e Tradicionais.

    Ao Repórter Brasil, que esteve na região, os quilombolas reclamaram das restrições de acesso impostas pela Acelen a locais historicamente utilizados para práticas religiosas e para a coleta de alimentos. Além disso, queixaram-se dos buracos nas vias locais causados pelo intenso tráfego de caminhões e tratores.

    “Não queremos pedir licença para entrar naquilo que é nosso”, afirma Ananias Viana, da comunidade quilombola Kaonge, em Cachoeira, município do Recôncavo Baiano. Na zona rural da cidade, onde a Acelen planta a macaúba, convivem com a chegada do empreendimento ao menos 18 comunidades quilombolas, cujo modo de vida se organiza em torno da agricultura, do extrativismo e da pescaria. Os moradores costumavam coletar frutas para subsistência e cipó para artesanato em áreas hoje inacessíveis.

    Segundo os quilombolas, as estradas antes usadas principalmente pelos moradores passaram a receber tráfego intenso de caminhões e máquinas pesadas após o início do plantio. Segundo eles, o resultado são vias danificadas, com muitos buracos e trechos de difícil acesso.

    No entorno das plantações, pode-se observar cercas e placas com avisos de restrição de entrada em áreas onde antes os moradores circulavam livremente. “De repente, surge uma placa proibindo a entrada em um espaço que sempre foi coletivo”, comenta a educadora quilombola Cristina da Mata, da Universidade Federal da Bahia (UFBA).

    A Acelen é controlada pelo Fundo Mubadala, dos Emirados Árabes Unidos. No final de 2021, a Acelen comprou da Petrobras a refinaria Landulpho Alves (RLAM), instalada em São Francisco do Conde, às margens da Baía de Todos os Santos. É na área da ex-RLAM (rebatizada como Refinaria de Mataripe) que a empresa instalará a biorrefinaria para processar a macaúba que atualmente planta em Cachoeira.

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