
Enquanto negociadores da ONU encerravam mais uma rodada difícil de conversas climáticas em Bonn, na Alemanha, governos, investidores e empresas se preparavam para discutir a eletrificação da economia global em Londres. A coincidência não é trivial. A proposta — única ideia política realmente nova apresentada pela futura presidência da COP31 no encontro preparatório para a conferência — encontrou imediatamente um palco mais amplo para ser desenvolvida.
Bonn é a reunião de meio de ano da Convenção do Clima da ONU. Funciona como uma espécie de bastidor das COPs: é ali que negociadores testam propostas, medem resistências e tentam preparar o terreno para a conferência de novembro. Neste ano, porém, as conversas travaram em temas como financiamento, adaptação e mitigação, como mostra a boa análise do Climate Home News. Mas o sinal mais interessante estava em outro lugar. Em meio a uma reunião marcada por impasses, Austrália e Turquia apresentaram uma meta para elevar a participação da eletricidade no consumo final de energia para 35% até 2035.
À primeira vista, o anúncio parece técnico. Não é. A eletrificação está se tornando uma nova forma de contar a história da transição energética.
Durante anos, o debate climático foi organizado em torno de uma pergunta difícil: como abandonar os combustíveis fósseis? Já a eletrificação parte de outra pergunta: como construir a economia que virá depois deles?
Eletrificação, a melhor proteção contra crises energéticas
A Semana de Ação Climática de Londres está tentando fazer o trabalho que Bonn não fez, que é transformar uma meta técnica em uma narrativa política: a melhor proteção contra a próxima crise energética é eletrificar.
O argumento ganha força com a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, que voltou a expor a vulnerabilidade de economias dependentes de petróleo e gás. Em vez de tratar apenas de emissões, defensores do clima passaram a falar sobre segurança energética, competitividade industrial, contas públicas, independência econômica e redução de custos.
Não é difícil entender por que essa linguagem atrai governos. Durante anos, ministros do Meio Ambiente e do Clima tentaram convencer seus colegas de que agir contra a mudança do clima era necessário, mas sem ter a economia como foco central. A eletrificação muda os termos da conversa. Ela permite que ministros da Fazenda, da Indústria e da Energia falem sobre crescimento econômico, modernização produtiva, competitividade e proteção contra choques externos. A transição energética continua sendo a mesma, a narrativa é que mudou.
Velhos impasses continuam
Embora seja um avanço, nada disso, contudo, resolve os problemas que apareceram em Bonn. A reunião expôs uma Convenção do Clima cada vez mais dividida em torno de financiamento, adaptação e mitigação. Também deixou evidente uma dificuldade da futura presidência da COP31 em apresentar uma visão própria para o processo.
Em Bonn, boa parte da agenda propositiva continuou vindo de iniciativas lançadas em Belém: os mapas do caminhos sobre florestas e combustíveis fósseis; a Mission 1.5; o Global Implementation Accelerator; o programa de trabalho sobre financiamento climático; e outras iniciativas associadas à COP30. O único elemento novo diretamente associado à presidência turco-australiana foi justamente a eletrificação.
Ou seja, a presidência brasileira que está saindo continuou ocupando espaço político. E a presidência turco-australiana que está entrando ainda não conseguiu construir uma identidade própria.
Quando as negociações formais ficam presas a impasses conhecidos, outros espaços passam a funcionar como laboratórios políticos. Foi o que aconteceu em Santa Marta, na Colômbia, em abril deste ano, onde governos começaram a discutir caminhos concretos para a transição para longe dos combustíveis fósseis, tema que ficou ausente nas decisões em Belém, em 2025. E é o que acontece nesta semana em Londres, onde governos, empresas e investidores tentam traduzir a eletrificação proposta em Bonn em projetos, investimentos e alianças.
Ainda é cedo para saber se a eletrificação se tornará a grande bandeira política da COP31. A própria narrativa permanece incompleta e precisará ser conectada de forma mais explícita aos esforços para acelerar a transição para longe dos combustíveis fósseis. Mas o fato da discussão mais promissora surgida em Bonn estar sendo desenvolvida fora de Bonn talvez seja o sinal mais importante deste momento.
Se a era das grandes negociações climáticas está dando lugar à era da implementação, a pergunta para os próximos meses talvez não seja apenas o que sairá da COP31, mas quais narrativas serão capazes de atrair investimentos, formar coalizões e transformar compromissos diplomáticos em transformação econômica.



