O que Bonn não conseguiu explicar, Londres tenta construir

Proposta da futura presidência da COP31 de elevar a participação da eletricidade no consumo final de energia para 35% até 2035 ajuda a ilustrar como a diplomacia climática está entrando na era da implementação.
23 de junho de 2026
  • Cínthia Leone, Coordenadora Internacional do Climainfo.
Créditos: divulgação/COP31
Resumo
  • A futura presidência da COP31 propôs a meta de elevar a eletricidade para 35% do consumo global de energia até 2035, mudando o foco do debate de "como abandonar os fósseis" para "como construir a economia do futuro" com base em segurança energética e crescimento econômico.
  • Enquanto a reunião em Bonn ficou paralisada por impasses, a Semana de Ação Climática de Londres assumiu o papel de debater a viabilidade e atração de investimentos para meta de eletrificação.
  • O ecossistema climático reflete a transição da COP30 para a COP31, evidenciando que a diplomacia climática está entrando na era da implementação prática e econômica.
  • Enquanto negociadores da ONU encerravam mais uma rodada difícil de conversas climáticas em Bonn, na Alemanha, governos, investidores e empresas se preparavam para discutir a eletrificação da economia global em Londres. A coincidência não é trivial. A proposta — única ideia política realmente nova apresentada pela futura presidência da COP31 no encontro preparatório para a conferência — encontrou imediatamente um palco mais amplo para ser desenvolvida.

    Bonn é a reunião de meio de ano da Convenção do Clima da ONU. Funciona como uma espécie de bastidor das COPs: é ali que negociadores testam propostas, medem resistências e tentam preparar o terreno para a conferência de novembro. Neste ano, porém, as conversas travaram em temas como financiamento, adaptação e mitigação, como mostra a boa análise do Climate Home News. Mas o sinal mais interessante estava em outro lugar. Em meio a uma reunião marcada por impasses, Austrália e Turquia apresentaram uma meta para elevar a participação da eletricidade no consumo final de energia para 35% até 2035.

    À primeira vista, o anúncio parece técnico. Não é. A eletrificação está se tornando uma nova forma de contar a história da transição energética. 

    Durante anos, o debate climático foi organizado em torno de uma pergunta difícil: como abandonar os combustíveis fósseis? Já a eletrificação parte de outra pergunta: como construir a economia que virá depois deles?

    Eletrificação, a melhor proteção contra crises energéticas 

    A Semana de Ação Climática de Londres está tentando fazer o trabalho que Bonn não fez, que é transformar uma meta técnica em uma narrativa política: a melhor proteção contra a próxima crise energética é eletrificar. 

    O argumento ganha força com a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, que voltou a expor a vulnerabilidade de economias dependentes de petróleo e gás. Em vez de tratar apenas de emissões, defensores do clima passaram a falar sobre segurança energética, competitividade industrial, contas públicas, independência econômica e redução de custos.

    Não é difícil entender por que essa linguagem atrai governos. Durante anos, ministros do Meio Ambiente e do Clima tentaram convencer seus colegas de que agir contra a mudança do clima era necessário, mas sem ter a economia como foco central. A eletrificação muda os termos da conversa. Ela permite que ministros da Fazenda, da Indústria e da Energia falem sobre crescimento econômico, modernização produtiva, competitividade e proteção contra choques externos. A transição energética continua sendo a mesma, a narrativa é que mudou.

    Velhos impasses continuam

    Embora seja um avanço, nada disso, contudo, resolve os problemas que apareceram em Bonn. A reunião expôs uma Convenção do Clima cada vez mais dividida em torno de financiamento, adaptação e mitigação. Também deixou evidente uma dificuldade da futura presidência da COP31 em apresentar uma visão própria para o processo.

    Em Bonn, boa parte da agenda propositiva continuou vindo de iniciativas lançadas em Belém: os mapas do caminhos sobre florestas e combustíveis fósseis; a Mission 1.5; o Global Implementation Accelerator; o programa de trabalho sobre financiamento climático; e outras iniciativas associadas à COP30. O único elemento novo diretamente associado à presidência turco-australiana foi justamente a eletrificação.

    Ou seja, a presidência brasileira que está saindo continuou ocupando espaço político. E a presidência turco-australiana que está entrando ainda não conseguiu construir uma identidade própria.

    Quando as negociações formais ficam presas a impasses conhecidos, outros espaços passam a funcionar como laboratórios políticos. Foi o que aconteceu em Santa Marta, na Colômbia, em abril deste ano, onde governos começaram a discutir caminhos concretos para a transição para longe dos combustíveis fósseis, tema que ficou ausente nas decisões em Belém, em 2025. E é o que acontece nesta semana em Londres, onde governos, empresas e investidores tentam traduzir a eletrificação proposta em Bonn em projetos, investimentos e alianças.

    Ainda é cedo para saber se a eletrificação se tornará a grande bandeira política da COP31. A própria narrativa permanece incompleta e precisará ser conectada de forma mais explícita aos esforços para acelerar a transição para longe dos combustíveis fósseis. Mas o fato da discussão mais promissora surgida em Bonn estar sendo desenvolvida fora de Bonn talvez seja o sinal mais importante deste momento. 

    Se a era das grandes negociações climáticas está dando lugar à era da implementação, a pergunta para os próximos meses talvez não seja apenas o que sairá da COP31, mas quais narrativas serão capazes de atrair investimentos, formar coalizões e transformar compromissos diplomáticos em transformação econômica. 

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