
A indústria de combustíveis fósseis defende com unhas e dentes o desenvolvimento de tecnologias de captura e estocagem de carbono (CCS). Mas não se trata de preocupação com as mudanças climáticas. O que as petrolíferas querem é ter uma licença tecnológica para continuar queimando petróleo e gás. Nem que tenham que “comprar” estudos que apontem a viabilidade do CCS.
Uma investigação da ProPublica e Drilled revelou que empresas de combustíveis fósseis financiam pesquisas climáticas em universidades de prestígio dos Estados Unidos há mais de 30 anos. Esse apoio tem ajudado a amplificar o trabalho de cientistas que defendem a ideia de que podemos deter a crise climática sem romper com nossa dependência de petróleo, gás e carvão.
As pesquisas produzidas por essas escolas moldaram os modelos climáticos globais, bem como as soluções políticas e tecnológicas adotadas por governos em todo o mundo. Em última análise, isso fomentou a ideia errônea de que as mudanças climáticas poderiam ser resolvidas sem uma redução drástica no uso de combustíveis fósseis – o que atrasou [e continua atrasando] a redução das emissões.
Os financiadores corporativos patrocinavam centros inteiros, pagavam os salários dos pesquisadores, mantinham escritórios no campus e, em alguns casos, tinham poder de veto sobre os projetos.
As empresas afirmam apoiar a inovação e a ciência. As universidades dizem que, com salvaguardas, o patrocínio fortalece programas de pesquisa, preservando a independência acadêmica. Mas o impacto do financiamento constitui um padrão que Benjamin Franta, professor associado de litígios climáticos na Universidade de Oxford, chamou de “Colonização da Academia”.
A britânica BP, por exemplo, patrocinou um centro de pesquisa de elite na Universidade de Princeton para abordar o problema climático sem abandonar os combustíveis fósseis, selecionando a dedo cientistas alinhados aos seus interesses. Com isso, pesquisadores escreveram há 22 anos um artigo sobre o clima, conhecido como “Wedges”.
Esses cientistas coordenaram-se com executivos da petrolífera e mostraram-lhes várias versões do documento, segundo ProPublica e Drilled. E descreveram o CCS como comprovado e em uso em escala industrial – uma caracterização que distorceu os fatos.
O artigo tornou-se um fenômeno. O ex-vice-presidente Al Gore o destacou em seu documentário sobre mudanças climáticas, vencedor do Oscar. Presidentes dos EUA, de George W. Bush a Joe Biden, incorporaram ideias do artigo em suas políticas. O IPCC o incluiu em pelo menos três grandes relatórios. Foi apresentado em salas de aula em Harvard e no MIT e citado mais de 3.000 vezes em artigos científicos. Chegou a ser adaptado para um jogo de tabuleiro.
“Wedges” exagerou na ideia de que a captura e o armazenamento de carbono já estavam “implantados” industrialmente quando foi publicado, em agosto de 2004. Mesmo hoje a tecnologia enfrenta obstáculos financeiros e técnicos, e é improvável que algum dia funcione na escala necessária para evitar o aquecimento extremo – apesar da insistência das petrolíferas.
ProPublica e Drilled listam as razões pelas quais a captura e o armazenamento de carbono não são solução para se conter a crise climática. Uma análise da ONU sugere que os países devem injetar 6 bilhões de toneladas de CO2 no subsolo a cada ano até meados do século. Isso exigiria a instalação de equipamentos de captura de carbono em refinarias e usinas termelétricas a gás e a carvão que dobrarão a área ocupada por essas instalações.
Ainda seriam necessários quase 2 milhões de quilômetros quadrados de vegetação para absorção de CO2. É uma área do tamanho do México, e competiria por terras usadas para cultivar alimentos ou sustentar florestas.
O carbono capturado em instalações industriais precisará ser transportado para áreas de armazenamento. Somente nos EUA, isso exigiria quase 110.000 km de dutos em pouco mais de duas décadas. Globalmente, portanto, seriam centenas de milhares de quilômetros desses dutos.
Quanto aos locais de armazenamento, apenas 12 grandes reservatórios geológicos tentaram armazenar permanentemente CO2. Mas precisaríamos de mais de 2.000 reservatórios. Significa abrir um novo depósito de resíduos geológicos em algum lugar do globo a cada quatro dias, nos próximos 25 anos.
Em tempo: Por aqui, o IBAMA estuda os critérios que irá adotar para autorizar projetos de captura e armazenamento de carbono no mar. Itagyba Alvarenga Neto, coordenador-geral de licenciamento ambiental marinho e costeiro do órgão, disse à Folha que os empreendimentos de armazenamento em terra deverão ser licenciados pelas autoridades estaduais, enquanto projetos no oceano passarão pela análise federal. "A gente está trabalhando para construir um termo de referência básico do que seria esse licenciamento", afirma. O órgão ainda não recebeu nenhum pedido do tipo. Segundo o coordenador, o único caso em avaliação é o da TotalEnergies, mas o projeto envolve apenas a perfuração de um poço na Bacia de Campos para estudar a possibilidade de estocar carbono no local.



