O impacto da crise climática na saúde mental de indígenas e quilombolas

Especialistas apontam impactos já sentidos e formas de fortalecer a integração entre saúde mental e crise climática nas políticas públicas.
29 de junho de 2026
crise climática saúde mental indígenas e quilombolas
Anderson Menezes/Amazônia Real
Resumo
  • Crise climática adoece a mente de indígenas e quilombolas: secas, queimadas, enchentes e ondas de calor já intensificam ansiedade, depressão e sofrimento psicológico em comunidades historicamente vulneráveis. "Se a floresta queimar, não há como buscar a cura", resume o indígena Alain Kumaruara.
  • Saúde mental invisível nas políticas climáticas: apesar da OMS defender sua inclusão nas respostas nacionais ao clima desde 2022, o atendimento psicossocial especializado segue inacessível para essas comunidades, seja pelos custos de deslocamento até o CAPS, seja pela ausência de serviços permanentes nos territórios.
  • Saberes Tradicionais como resposta: o projeto Vertentes Saúde Mental e Clima propõe mapear lacunas, articular políticas públicas e reconhecer os Conhecimentos Tradicionais como parte das respostas climáticas, integrando o que a biomedicina frequentemente ignora.
  • A crise climática não representa mais uma ameaça ambiental futura: grupos historicamente vulneráveis, como indígenas e quilombolas, já sentem impactos concretos na saúde física e mental. Eventos extremos, como secas prolongadas, queimadas, ondas de calor e enchentes, têm intensificado quadros de ansiedade, sofrimento psicológico, depressão e deslocamentos forçados.

    Contudo, no The Conversation Brasil, especialistas apontam que, nas políticas globais de adaptação climática, a saúde mental permanece praticamente invisível. É por isso que, desde 2022, a Organização Mundial da Saúde (OMS) defende que a saúde mental deve ser incluída nas respostas nacionais às mudanças climáticas.

    “Se a floresta queimar, não há como buscar a cura”, afirma o indígena Alain Kumaruara. “O Pajé faz a conexão com os Encantados, que trazem cura psicológica, espiritual e física”, diz ele à Folha. Em comunidades quilombolas no Pará, lideranças relatam que o avanço do desmatamento, da monocultura, das fazendas e da poluição dos rios vem causando sofrimento psicológico, ansiedade, medo e sensação de perda coletiva. 

    O atendimento psicossocial especializado permanece distante da realidade comunitária. “As pessoas até vão para a primeira consulta, mas não dão continuidade”, relata uma liderança quilombola ao explicar os custos de deslocamento até o CAPS e a ausência de serviços permanentes dentro do território.

    Para diminuir lacunas, o projeto Vertentes Saúde Mental e Clima propõe o mapeamento nacional de políticas de clima e de saúde mental para identificar tais lacunas e as possíveis oportunidades de incidência política, para elaborar uma estratégia e articular ações concretas de advocacy, com base em evidências. O projeto foi recentemente aprovado pela United for Global Mental Health (UnitedGMH), em parceria com o Vertentes – Ecossistema de Saúde Mental.

    Com isso, o objetivo é fortalecer os sistemas públicos de saúde mental nos territórios mais vulnerabilizados, ampliar as estratégias de promoção e prevenção diante dos eventos extremos e reconhecer os Saberes Tradicionais como parte fundamental das respostas climáticas.

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