
Organizações da sociedade civil alertaram que a emissão da licença ambiental para a exploração de combustíveis fósseis no bloco FZA-M-59, na Foz do Amazonas, abriria a “porteira” para o licenciamento de outras áreas na bacia. Apesar das falhas existentes no processo, como a falta de consulta a Povos Indígenas e Quilombolas e o desconhecimento sobre os impactos da atividade petrolífera sobre o sistema recifal amazônico, o IBAMA concedeu a autorização. Agora, o órgão ambiental admite que a liberação “tende a facilitar” o caminho para outros blocos na região, segundo o Valor. Ou seja, a “boiada fóssil” deverá passar em breve.
No momento, há 25 áreas na Foz já concedidas a petrolíferas. Assim como o Bloco 59, a Petrobras detém outras cinco áreas leiloadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (ANP) em 2013. Em parceria com a estadunidense ExxonMobil, a estatal brasileira ainda arrematou outros dez blocos na região no “Leilão do Fim do Mundo” de junho de 2025. No mesmo certame, a também estadunidense Chevron e a chinesa CNPC adquiriram outras nove áreas.
Para o coordenador-geral de licenciamento ambiental de empreendimentos marinhos e costeiros do IBAMA, Itagyba Alvarenga Neto, o processo do primeiro bloco trouxe aprendizados que apoiam os demais pedidos de licença na Foz. “O processo de licenciamento se retroalimenta. Com o Bloco 59, vimos onde podemos melhorar e também que podemos seguir o exemplo da estrutura de resposta a emergência. Construções como o centro de apoio à fauna [instalado em Oiapoque, no extremo norte do Amapá] se tornaram legados que não existiam naquela região, por conta das solicitações do IBAMA.”
A pedido do órgão ambiental, a Petrobras revisou os estudos ambientais para a perfuração de outros poços exploratórios nos cinco blocos arrematados em 2013. Os blocos FZA-M-57, FZA-M-86, FZA-M-88, FZA-M-125 e FZA-M-127 estão sendo licenciados pelo IBAMA em conjunto, o que deverá acelerar a liberação das licenças. Pelos planos da petrolífera, serão perfurados sete poços: três no Bloco 57, três no 88 e um no 127.
Além dos 25 blocos concedidos, a ANP aprovou no fim de junho a indicação de 86 blocos de exploração no rol de áreas em estudo para possível inclusão em leilões da Oferta Permanente de Concessão (OPC). A lista inclui 36 áreas na Foz do Amazonas, confirmando a disposição do governo de expandir a atividade exploratória na região. A crise climática que espere.
Em tempo: Tecnologias de captura e armazenamento de carbono (CCS) não têm viabilidade comprovada e são absurdamente caras. Mas para o Prêmio Nobel de Química em 2025, Omar Yaghi, elas são a maneira mais realista de combater as mudanças climáticas, no lugar da substituição de petróleo, gás e carvão por fontes renováveis, combinadas com armazenamento de energia. "Vamos continuar queimando combustíveis fósseis", disse à Folha. "Não existe nenhuma outra tecnologia capaz de substituí-los com a velocidade e escala necessárias para conter a crise. A economia mundial depende de combustíveis fósseis, é preciso encarar esse fato de maneira realista." Yaghi venceu o Nobel por desenvolver uma estrutura capaz de absorver carbono da atmosfera, o que explica sua defesa. Mas uma busca por financiadores de suas pesquisas encontra a BASF, uma das maiores empresas químicas do mundo e que possui atuação relevante nas cadeias de petróleo, gás e petroquímica. Vale lembrar que uma investigação da ProPublica e da Drilled revelou que empresas de combustíveis fósseis financiam pesquisas climáticas em universidades de prestígio dos Estados Unidos há mais de 30 anos justamente para promover a viabilidade do CCS.



