Copa do Mundo de 2026 expôs impactos da crise climática e foi a mais poluente da história

Calor extremo marcou partidas, expansão do torneio elevou emissões e patrocínio da Aramco reforçou debate sobre combustíveis fósseis no futebol.
26 de julho de 2026
  • Pâmela Gouveia, jornalista no ClimaInfo
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Resumo
  • Copa de 2026 foi marcada pelo calor extremo e se tornou a mais poluente da história: um briefing das organizações Cool Down, Fossil Free Football e New Weather Institute mostra que 27 das primeiras 94 partidas ultrapassaram 28°C WBGT — limite que a FIFPRO recomenda como teto para adiamento de jogos, mas que a FIFA só considera crítico a partir de 32°C. Nenhuma partida foi adiada por calor, apesar de jogos como Uruguai x Cabo Verde terem se aproximado de 33°C WBGT em Miami.
  • Mesmas cidades de décadas atrás, clima muito mais quente: em dez cidades que também sediaram jogos em 1986 ou 1994, dias extremamente quentes em junho e julho são hoje cerca de três vezes mais frequentes — e cerca de sete vezes mais em Miami e na Cidade do México, segundo Simon Stiell, da UNFCCC.
  • Patrocínio da Aramco e expansão do torneio ampliaram a pegada de carbono: o acordo entre a petrolífera saudita e a FIFA pode gerar 34,7 milhões de toneladas adicionais de CO₂ equivalente (42 milhões somando outros patrocinadores de alta intensidade de carbono), enquanto a ampliação para 48 seleções e a logística entre três países geraram cerca de 9 milhões de toneladas — quase o dobro da média das Copas entre 2010 e 2022. O documento recomenda que a FIFA revise seus protocolos de calor e encerre contratos com empresas fósseis.
  • A Copa do Mundo de 2026 da FIFA terminou, mas algo além da vitória da Espanha marcou o torneio. Em pouco mais de um mês, agravados pelas mudanças climáticas, o calor e a umidade interferiram nas partidas, levaram jogadores a esperar pelas pausas para hidratação e fizeram estádios fecharem seus tetos. Tempestades interromperam e atrasaram jogos, enquanto a fumaça de incêndios florestais provocou alertas sobre a qualidade do ar na região da final, em Nova York/Nova Jersey.

    Além disso, a ampliação do torneio, de 32 para 48 seleções, e as enormes distâncias entre as sedes (México, Estados Unidos e Canadá), espalhadas por um continente, fizeram desta a Copa com o maior impacto climático da História. Para piorar, enquanto o futebol tentava se adaptar aos efeitos de um planeta mais quente, o torneio era patrocinado pela Aramco, a maior empresa de petróleo do mundo, cuja parceria com a FIFA pode gerar 34,7 milhões de toneladas adicionais de CO₂ equivalente.

    Em conjunto, os episódios mostraram como o futebol já está sendo disputado em um clima diferente daquele das Copas realizadas há três ou quatro décadas É o que destaca um briefing elaborado pelas organizações Cool Down – Sport for Climate Action Network, Fossil Free Football e New Weather Institute, que analisa como a crise climática afetou o Mundial e como o próprio torneio contribuiu para agravá-la.

    O impedimento do calor extremo

    Antes mesmo da bola rolar, análises da Climate Central e da World Weather Attribution (WWA) já indicavam que o calor seria um dos protagonistas da competição. A Climate Central estimou que as mudanças climáticas aumentariam a probabilidade de temperaturas superiores a 28°C em 97 das 104 partidas e que 14 dos 16 estádios enfrentarão riscos crescentes de calor extremo até 2050.

    Esse limite é considerado crítico porque, segundo a FIFPRO, sindicato que representa jogadores profissionais, partidas disputadas acima de 28°C WBGT [índice que combina quatro fatores principais: temperatura do ar, umidade, velocidade do vento e radiação solar direta] deveriam ser adiadas ou remarcadas. A FIFA, porém, só prevê suspensão quando o WBGT ultrapassa 32°C.

    Especialistas em saúde classificaram o protocolo da entidade como “impossível de justificar” antes da competição, e jogadores, como o norueguês Morten Thorsby, pediram sua revisão. Segundo o briefing, a FIFA não respondeu aos pedidos nem divulgou os dados de WBGT utilizados para decidir sobre a realização das partidas.

    Uma análise das primeiras 94 partidas mostrou que 35 ocorreram acima de 26°C WBGT, e 27 ultrapassaram 28°C. Mesmo desconsiderando os estádios climatizados, nove jogos ao ar livre superaram esse limite. Em Miami, os confrontos Uruguai x Cabo Verde e Uruguai x Arábia Saudita podem ter registrado cerca de 33°C e 32,9°C WBGT, respectivamente.

    O calor alterou o desempenho em campo. “Foi muito difícil. O calor acabou conosco, nos drenou e nos fez jogar um tipo de jogo diferente do que queríamos”, afirmou o jogador inglês Nico O’Reilly, depois da vitória de sua seleção sobre a Noruega.

    Apesar disso, nenhuma partida foi adiada por calor. Houve, porém, paralisações por tempestades e raios, eventos que também tendem a se tornar mais frequentes em um planeta mais quente.

    Mesmas cidades, outro clima

    Dez cidades que receberam jogos em 2026 também sediaram partidas nas Copas de 1986 ou de 1994. Hoje, dias extremamente quentes durante junho e julho são cerca de três vezes mais frequentes nesses locais do que eram nas edições anteriores. Em Miami e na Cidade do México, ocorrem aproximadamente sete vezes mais.

    “Essa Copa do Mundo voltou a muitas das mesmas cidades de 1986 e 1994, mas não voltou ao mesmo clima”, resumiu Simon Stiell, secretário-executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC).

    “O calor extremo é muito mais frequente, e os incêndios florestais e as tempestades são mais severos, porque a humanidade ainda queima quantidades colossais de carvão, petróleo e gás, aquecendo o planeta”, sentenciou Stiell.

    Aramco: os combustíveis fósseis no campo


    Enquanto o calor extremo se tornava parte da competição, a Aramco ocupava alguns dos espaços mais visíveis do torneio. Principal parceira global da FIFA, a petrolífera saudita teve sua marca exibida em placas, telões e transmissões acompanhadas por bilhões de pessoas.

    O briefing destaca um episódio simbólico: logo após um minuto de silêncio pelas vítimas dos incêndios florestais na Espanha, o logotipo da Aramco voltou a aparecer no estádio.

    Um estudo do New Weather Institute estima que o contrato de patrocínio entre a Aramco e a FIFA poderá estimular 34,7 milhões de toneladas adicionais de CO₂ equivalente.

    Quando também são considerados os acordos com Qatar Airways, American Airlines e Hyundai-Kia, o impacto potencial dos patrocinadores de alta intensidade de carbono chega a 42 milhões de toneladas de CO₂ equivalente.

    Copa também ajudou a agravar o clima

    Pela primeira vez, a Copa reuniu 48 seleções e 104 partidas, distribuídas entre 16 cidades dos EUA, Canadá e México. A expansão exigiu mais voos, mais deslocamentos e uma logística continental. O briefing estima que apenas a realização do torneio tenha gerado aproximadamente 9 milhões de toneladas de CO₂ equivalente — quase o dobro da média das Copas disputadas entre 2010 e 2022.

    O documento também menciona críticas ao uso frequente de jato particular pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino – que, surpreendentemente, o presidente dos EUA, Donald Trump, quer indicar para ser secretário-geral da ONU. E alerta que novas expansões do torneio poderão aumentar ainda mais esse impacto.

    Segundo os autores, o Mundial antecipou desafios que deverão acompanhar as próximas edições. Em 2027, o Brasil receberá a Copa do Mundo Feminina, que também terá a Aramco entre os patrocinadores. Em 2030, o torneio masculino será disputado em três continentes, ampliando ainda mais as emissões associadas aos deslocamentos – as três partidas inaugurais na América do Sul e o restante da competição em Portugal, Espanha e Marrocos.

    Além do impacto dos deslocamentos, o torneio deverá ocorrer durante o verão europeu, quando cidades como Sevilha e Marrakech frequentemente registram temperaturas superiores a 35°C. Já em 2034, a Copa acontecerá na Arábia Saudita, onde o calor deverá novamente exigir mudanças no calendário tradicional.

    O documento recomenda que a FIFA atualize seus protocolos de segurança térmica, reveja a expansão do torneio para reduzir deslocamentos e encerre contratos de patrocínio com empresas de combustíveis fósseis e outros setores altamente poluentes.

    A Copa de 2026 mostrou que já não é possível separar o futebol do clima em que ele é disputado. O calor alterou partidas, exigiu adaptações e colocou em evidência os limites da infraestrutura diante de um planeta em aquecimento. Mas também revelou outra contradição: adaptar o esporte será insuficiente enquanto a competição continuar ampliando suas emissões e promovendo empresas que ajudam a acelerar a própria crise climática.

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