“Conselhão” cobra avaliação de investimentos do Fundo Clima

Em carta, 39 integrantes do grupo pedem restrições ao financiamento de projetos de captura de carbono e mineração com recursos do fundo.
13 de agosto de 2026
fundo clima conselhão
Agência Brasil
Resumo
  • Críticas ao Fundo Clima: 39 membros do "Conselhão" enviaram carta ao Planalto e ao BNDES criticando a falta de critérios formais de custo-efetividade nas decisões de financiamento e alegando que o fundo não mede seus resultados em redução de emissões por recurso investido, ficando vulnerável a desvios de sua função original.
  • Restrições: os signatários pedem limites a investimentos em tecnologias caras e ainda inviáveis em escala, como captura e armazenamento de carbono (CCS e BECCS), e defendem que recursos para mineração sejam destinados apenas ao beneficiamento de minerais estratégicos, excluindo a extração.
  • Contexto de críticas anteriores: a manifestação se soma a questionamentos prévios sobre o financiamento de projetos pouco inovadores que poderiam ser bancados por capital privado, como a liberação de R$ 500 milhões para uma usina de etanol de milho em Mato Grosso, tecnologia já consolidada e sem caráter estruturante para a transição de baixo carbono.
  • A destinação de recursos do Fundo Clima para financiar projetos sem inovação tecnológica nem estruturantes para a ação climática incomodou integrantes do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social Sustentável da Presidência da República. Segundo a Folha, um grupo de 39 membros do chamado “Conselhão” encaminhou uma carta ao Palácio do Planalto e ao BNDES com reclamações sobre decisões recentes de financiamento do fundo.

    “Não há critérios formais de custo-efetividade que orientem a composição da carteira pela relação entre recursos aplicados e resultados em redução de emissões ou ganhos de adaptação”, diz o documento. “Quando o Fundo Clima não mede o que entrega por tonelada [de carbono emitida] evitada, fica vulnerável a pleitos que o desviam de sua função”, completa.

    Entre os signatários estão a ativista Ângela Mendes, filha do ambientalista Chico Mendes; o indigenista André Villas Boas, do Instituto Socioambiental (ISA); a chef e apresentadora Bela Gil; a presidente do Instituto Talanoa, Natalie Unterstell; a vice-presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos, Mônica Veloso; e o coordenador nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens, Robson Formica.

    Os conselheiros ainda pedem restrições a investimentos em tecnologias cujo custo e escala ainda não são viáveis, como captura e armazenamento de carbono (CCS e BECCS). Essa tecnologia, que também não tem sua viabilidade técnica comprovada, passou a figurar entre as atividades passíveis de financiamento do Fundo Clima neste ano. Anteontem (12/8), foi regulamentada por um decreto assinado pelo presidente Lula.

    “Em um fundo cujo crédito subsidiado é, por definição, escasso, alocar recursos públicos em tecnologias caras e incertas afasta capital que poderia apoiar soluções com retorno climático comprovado e mais barato”, destaca a carta.

    O documento também levanta a preocupação sobre o uso dos investimentos do Fundo Clima em mineração. Os signatários defendem que esses recursos sejam destinados apenas ao beneficiamento e à transformação mineral no setor de minerais estratégicos, excluindo a extração desses materiais.

    A manifestação de integrantes do “Conselhão” sobre as decisões de financiamento do Fundo Clima se soma a críticas recentes sobre a destinação de seus recursos para projetos que poderiam ser facilmente financiados pelo capital privado. Um exemplo recente é a aprovação de R$ 500 milhões para financiar a construção de uma nova planta de etanol de milho em Campo Novo do Parecis (MT).

    Diretor-executivo do ClimaInfo, Délcio Rodrigues argumenta que o Fundo Clima deve fomentar projetos estruturantes, capazes de criar novos caminhos de baixo carbono para a economia brasileira – o que não é o caso de usinas de etanol de milho, que integram uma rota tecnológica conhecida e consolidada e não trazem grande inovação.

    • Em tempo: Bancos de desenvolvimento nacionais e internacionais estão ampliando seus investimentos em adaptação climática no Brasil. O Um Só Planeta destaca o Banco Mundial, que está financiando um projeto de quase US$ 120 milhões para reduzir o risco de inundações em Santa Catarina, beneficiando cerca de 420 mil pessoas em 54 municípios. No Rio Grande do Sul, afetado pelas chuvas históricas de 2024, a instituição firmou acordos de financiamento que somam quase US$ 500 milhões, também com foco em aumentar a resiliência climática. Ao mesmo tempo, os recursos do Fundo Clima para projetos de adaptação climática saltaram de R$ 547 milhões em 2024 para R$ 2,4 bilhões em 2025, alta de 438%, segundo dados do BNDES.

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