Combate à seca ganha fundo para atrair capital privado na COP17 da Desertificação

Novo mecanismo tem como meta mobilizar US$ 400 milhões em investimentos privados para a agricultura sustentável em regiões afetadas pela seca.
26 de agosto de 2026
seca capital privado cop17 desertificação
Reprodução Portal gov.br
Resumo
  • Financiamento inovador contra a desertificação e a degradação do solo: a COP17 apresentou o Fundo de Investimento para a Resiliência à Seca (DRIF), que combina capital catalítico (filantrópico/subsidiado) com investimento privado para financiar projetos de agricultura sustentável e de gestão hídrica no Sul Global. A meta é mobilizar US$ 400 milhões, com Luxemburgo já contribuindo com cerca de 5 milhões de euros para o capital de primeiras perdas.
  • Relatório aponta regiões críticas: o Global Land Outlook, divulgado na COP17, mostra que a Ásia Central (mais de 80 milhões de hectares degradados, com aquecimento duas vezes acima da média global) e os pequenos países insulares em desenvolvimento (18 milhões de hectares degradados, 16,3 milhões de pessoas em insegurança alimentar grave) enfrentam pressões sem precedentes sobre o solo, a água e o clima.
  • Impasse político: a oposição dos Estados Unidos a um acordo internacional sobre secas - por considerá-las um problema apenas nacional - ameaça travar as negociações na conferência, em um retrocesso frente ao consenso da COP16. África, União Europeia e Brasil continuam a defender a definição de um acordo ainda na Mongólia.
  • Como em outros fóruns multilaterais ambientais, a questão do financiamento é um dos pontos mais delicados nas negociações da COP17 da Convenção da ONU contra a Desertificação (UNCCD), que acontece na Mongólia. Em meio a impasses sobre a destinação de recursos financeiros dos governos ricos aos países pobres, despontam novos instrumentos que buscam driblar a paralisia política e viabilizar fluxos de capital a partir do capital privado.

    Um exemplo disso foi apresentado na 3ª feira (25/8): o Fundo de Investimento para a Resiliência à Seca (DRIF, na sigla em Inglês). Segundo o Capital Reset, o DRIF  tem a meta de mobilizar US$ 400 milhões (R$ 2 bilhões) em investimentos privados para projetos de agricultura sustentável, gestão sustentável da água e soluções baseadas na natureza para regiões afetadas pela seca.

    A iniciativa foi criada no ano passado a partir de um acordo entre o Secretariado da UNCCD e o governo de Luxemburgo. O fundo usa uma estrutura de financiamento mista, na qual o dinheiro catalítico (filantrópico ou subsidiado) entra para reduzir custos ou mitigar riscos, com o objetivo de atrair recursos privados em maior escala.

    O primeiro objetivo do DRIF é captar US$ 40 milhões (R$ 200 milhões) junto aos governos, montante que será utilizado para cobrir as primeiras perdas (first-loss capital). Luxemburgo foi o primeiro país a destinar recursos ao fundo, no valor de cerca de 5 milhões de euros (R$ 30 milhões). O mandato do fundo prevê o apoio a projetos de US$ 5 milhões a US$ 20 milhões (R$ 25 milhões a US$ 100 milhões), com foco nos países do Sul Global vulneráveis à seca e à degradação do solo.

    “Ao reunir parceiros públicos e privados, o DRIF ajudará a direcionar investimentos para soluções que reduzam a vulnerabilidade e fortaleçam a resiliência de comunidades, economias e ecossistemas, ao mesmo tempo em que proporcionem retornos ambientais, sociais e econômicos. A iniciativa reflete nosso compromisso de construir resiliência antes que a seca se torne uma crise”, destacou Xavier Bettel, ministro de negócios estrangeiros de Luxemburgo, citado pelo portal Edie.

    Em paralelo, um relatório lançado ontem (26/8) na COP17 alerta que os pequenos países insulares em desenvolvimento (SIDS) e a Ásia Central estão sofrendo pressões sem precedentes sobre seus recursos hídricos, a saúde do solo e o clima. O Global Land Outlook (GLO), publicado pelo Secretariado da UNCCD, ressalta o impacto da crise climática e do avanço da desertificação e da degradação do solo ao redor do mundo.

    A Ásia Central é considerada um dos epicentros mundiais da degradação do solo – mais de 80 milhões de hectares (cerca de um quarto de seu território) já estão degradados. Ao mesmo tempo, a região também está aquecendo duas vezes mais do que a média global, com as geleiras encolhendo 30% em apenas 50 anos.

    Já os SIDS, ao todo, possuem mais de 18 milhões de hectares (16,5% do território total) degradados em diferentes graus. Mais de 70% dessas nações enfrentam escassez hídrica, e 16,3 milhões de pessoas sofrem com insegurança alimentar grave, detalha a Agência Brasil.

    Quanto às negociações da COP17, a oposição dos Estados Unidos a um acordo internacional sobre secas ameaça inviabilizar qualquer entendimento entre os países. A posição estadunidense representa um retrocesso em relação à COP16, realizada há dois anos, na qual os países concordaram com a necessidade de um instrumento internacional para facilitar o enfrentamento das secas.

    Segundo o Down to Earth, os negociadores dos EUA argumentam que as secas são fenômenos nacionais e, por isso, instrumentos internacionais seriam desnecessários. Por outro lado, os países africanos, que propuseram a questão na última COP, seguem defendendo a definição de um acordo ainda na Mongólia, posição compartilhada pela União Europeia e pelo Brasil.

    Apesar dos impasses, o Secretariado da UNCCD ainda enxerga espaço para entendimentos no final da conferência. “A maioria dos países reconhece que [as secas] são um desafio global e que isso deve exigir e trazer soluções globais”, afirmou Andrea Meza Murillo, secretária executiva adjunta da Convenção.

    Continue lendo

    Assine Nossa Newsletter

    Fique por dentro dos muitos assuntos relacionados às mudanças climáticas

    Em foco

    Aprenda mais sobre

    Justiça climática

    Nesta sessão, você saberá mais sobre racismo ambiental, justiça climática e as correlações entre gênero e clima. Compreenderá também como esses temas são transversais a tudo o que é relacionado às mudanças climáticas.
    2 Aulas — 1h Total
    Iniciar