Mudanças climáticas estão intensificando o El Niño

Dados coletados de corais em Galápagos mostram que o fenômeno está pelo menos 36,5% mais intenso do que durante o período pré-industrial.
30 de agosto de 2026
branqueamento de corais
Great Barrier Reef Marine Park Authority
Resumo
  • Estudo prova ligação entre mudanças climáticas e El Niños mais fortes: pesquisa publicada na Science e liderada por Julia Cole, da Universidade de Michigan, mostra que os El Niños atuais são em média 36,5% mais fortes que no período pré-industrial, com alta de 16% só nos últimos 40 anos. O estudo usou análise geoquímica de corais de Galápagos para superar a dificuldade histórica de comprovar essa relação.
  • Corais de Galápagos revelam histórico do fenômeno: o primeiro “Super El Niño” documentado (1982-83) dizimou cerca de 95% dos corais de águas rasas de Galápagos. Julia Cole afirmou que "o El Niño pode intensificar o aquecimento global, mas também o aquecimento global pode intensificar o El Niño", classificando a tendência atual como parte de uma mudança estrutural, não um acaso.
  • Temperaturas globais deixaram de cair após eventos recentes: coautor do estudo, Jonathan Overpeck destacou que, historicamente, o aumento de temperatura causado pelo El Niño sempre recuava depois, mas isso mudou após os eventos de 2015-16 e 2023-24, quando as temperaturas permaneceram elevadas, um sinal preocupante de aceleração do aquecimento global.
  • O El Niño que começou em junho deste ano rapidamente atingiu a categoria “forte” e caminha a passos largos para se tornar um “Super El Niño” a partir do próximo mês. Por trás desse fortalecimento do fenômeno cíclico está um efeito derivado das ações humanas, principalmente da queima de combustíveis fósseis: as mudanças climáticas.

    É o que mostra um estudo publicado na revista Science na 5ª feira passada (27/8). De acordo com a pesquisa, os El Niños atuais são, em média, 36,5% mais fortes do que no período pré-industrial, com uma alta de 16% apenas nos últimos 40 anos. Um indício de aceleração, destaca o UOL.

    Ainda que presumida, a relação entre o fortalecimento do El Niño e as mudanças do clima era de difícil comprovação, pela falta de registros mais remotos e pela grande variabilidade natural do fenômeno, lembra a Folha. No entanto, o estudo liderado por Julia Cole, professora da Universidade de Michigan, contorna o problema por meio da análise geoquímica de alta resolução de corais do arquipélago de Galápagos, no Pacífico Equatorial oriental, e de exemplares fossilizados.

    Nos mapas climáticos globais, o El Niño é representado por uma faixa vermelha intensa de água excepcionalmente quente que se estende para oeste a partir de uma massa de ar quente ao longo da costa da América do Sul. E as Ilhas Galápagos, na costa do Equador, geralmente estão próximas ao centro dessa área de calor.

    O primeiro “Super El Niño” documentado, em 1982-83, dizimou cerca de 95% dos corais de águas rasas ao redor de Galápagos, justamente na época em que Julia iniciou sua carreira como pesquisadora. Enquanto a maioria de seus colegas estudava as mudanças na Terra em escalas geológicas que abrangiam milhões de anos, ela focou em capturar a variabilidade climática em uma escala de tempo humana, informa o Inside Climate News.

    “Nossos resultados sugerem que o El Niño pode intensificar o aquecimento global, mas também que o aquecimento global pode intensificar o El Niño”, disse Julia, em fala destacada pelo Guardian. “Estamos vendo uma tendência de El Niño mais intenso, e o que temos agora está em consonância com essa tendência; não é um acaso. Estamos presenciando uma mudança, em que o El Niño não se parece mais com o que era antes da era industrial. Isso é uma má notícia para os riscos climáticos e para as pessoas, principalmente aquelas que são gravemente afetadas e que, no entanto, pouco contribuíram para as mudanças climáticas.”

    O peso das mudanças climáticas sobre o fenômeno é ressaltado pelo coautor do estudo, o reitor da Escola de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Universidade de Michigan, Jonathan Overpeck. “O El Niño sempre aumentou a temperatura global, mas até pouco tempo ela diminuía após a passagem do fenômeno”, disse ele. Isso, porém, mudou após o evento de 2015-16, quando as temperaturas permaneceram elevadas. O mesmo aconteceu após o El Niño de 2023-24, embora este tenha sido mais fraco que o anterior. Assim, para Overpeck, essa mudança brusca na temperatura é um sinal preocupante de que o aquecimento global está se acelerando.

    O estudo que relaciona o fortalecimento do El Niño às mudanças climáticas foi amplamente noticiado, com matérias na AP, CNN, Euronews, Forbes, NBC, NewScientist, Scientific American, Olhar Digital, ICL Notícias e Jornal GGN, entre outros veículos.

    • Em tempo: A preocupação com o "Super El Niño" de 2026 já está mobilizando agricultores e gestores urbanos no Brasil, mas eventos desse tipo são só o começo da lista de preocupações, diz Lincoln Alves, um dos maiores especialistas do país na relação entre clima e eventos locais. Alves se licenciou do INPE no ano passado para assumir a coordenadoria-geral do Departamento de Políticas para Adaptação e Resiliência à Mudança do Clima do Ministério do Meio Ambiente (MMA) e está na linha de frente da preparação do país para lidar com o fenômeno. Em entrevista n’O Globo, o especialista explica que não há tempo para grandes reformas estruturais de adaptação, mas a adoção de uma série de medidas - como reforçar equipes de Defesa Civil e saúde, organizar brigadas de incêndio e garantir comunicação rápida com a população - pode atenuar o peso do El Niño sobre o país.

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