Pantanal em chamas
Última atualização19 de março de 2026
Períodos de seca sempre aconteceram, mas não com a frequência e a intensidade que estamos vendo. Isso tem nome: mudanças climáticas. E tem causa: a emissão dos gases de efeito estufa. Eles são gerados principalmente pela queima de combustíveis fósseis em todo o mundo.
Desde o começo da década de 2020 o Pantanal Norte tem tido 13% a mais de dias sem chuva do que nos anos 1960, e a massa de água é 16% menor durante a estação da seca, considerando os últimos dez anos.
Esta é uma tendência de longo prazo, que foi agravada em 2024 pelo El Niño. Segundo pesquisadores da UNEMAT, “esses resultados mostram que o Pantanal está perdendo água e passando por uma seca mais severa hoje em dia do que no passado”.
Segundo o Mapbiomas, o Pantanal foi o bioma brasileiro que mais secou em 38 anos.
Em 1985, o Pantanal registrou uma superfície de água anual (aquela que fica pelo menos seis meses do ano alagada) de 1,9 milhão de hectares, quase 13 vezes a área da cidade de São Paulo.
Trinta e oito anos depois, em 2023, esse número caiu 80,7%, para 382 mil hectares, cerca de 2,5 vezes o tamanho da capital paulista, além de representar apenas 61% da média histórica trabalhada pelo MapBiomas para o bioma.
O Pantanal está secando. Literalmente secando
Tasso Azevedo, coordenador geral do MapBiomas à Míriam Leitão n’O Globo
“E a destruição atual, com o fogo batendo recordes, é a união explosiva de três eventos predatórios. A corrente de água que vem da Amazônia, os rios voadores, está diminuindo por causa do desmatamento na região. No planalto, no entorno do Pantanal, muitas áreas estão sendo convertidas em pastagem ou campos de soja. E isso aumentou muito o assoreamento da Bacia do Paraguai. Tanto que o Pantanal está ficando mais raso. E tem um terceiro problema, que é a destruição do pasto natural para ser substituído pelo pasto plantado”, detalhou Azevedo.
O Pantanal pegou fogo em 2024
Em 2024, o Brasil teve a sua pior temporada de fogo já registrada. O Pantanal teve 2,2 milhões de hectares queimados, com 93% da vegetação nativa afetada. De acordo com o INPE, 9.014 focos foram identificados entre a segunda quinzena de junho de 2023 e a 1ª quinzena do mesmo mês de 2024. O número é sete vezes superior ao registrado nos 12 meses anteriores (1.298).
Um estudo publicado pela rede de cientistas World Weather Attribution (WWA) apontou que as condições de clima favoráveis a incêndios no Pantanal em junho de 2024 foram intensificadas pelas mudanças climáticas causadas pelo homem, tornando esses eventos cerca de quatro a cinco vezes mais prováveis e 40% mais impactantes do que seriam em um clima sem aquecimento global.
A pesquisa alerta que, com o aumento da temperatura para 2°C, situações semelhantes podem ocorrer em média a cada 17 anos e com impacto ainda maior.
Em julho de 2025, o MMA e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) anunciaram a destinação de até 150 milhões de reais em recursos do Fundo Amazônia para ações de prevenção e combate a incêndios florestais em estados do Cerrado e Pantanal.
Quais atividades humanas “riscam o fósforo” que incendeia o Pantanal?
Muito além das bitucas de cigarro e das pequenas fogueiras de turistas e trabalhadores, as queimadas são provocadas principalmente pela atividade agropecuária, seja para “limpar” áreas desmatadas para virarem lavouras e pastagens, seja para controlar pragas ou livrar o terreno de arbustos e as chamadas – erroneamente – ervas daninhas. Estas atividades precisam de autorização de autoridades ambientais.
Apesar da sanção da Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo e do reforço do contingente de brigadistas, as ações políticas contra o fogo ainda são insuficientes. O principal motor do fogo no Pantanal é a ação humana, porém aqueles que contribuem para a deterioração do bioma há anos não estão sendo punidos.
Em Mato Grosso, o Ministério Público do Mato Grosso (MPMT) e o governo do estado fizeram uma série de acordos com fazendeiros multados por desmatamento ilegal em que deixaram de cobrar indenizações pelos danos ambientais causados pela destruição não só do Pantanal, mas também da Amazônia e do Cerrado. O estado não confirmou o valor que foi anistiado, mas em apenas um caso, de um fazendeiro foi multado em 2021 por desmatar ilegal de 709 hectares no bioma Cerrado, o valor cobrado era de R$ 5,7 milhões.
Já em Mato Grosso do Sul, o governo não recebeu valor de multas que somam R$ 54 milhões por incêndios no Pantanal. Foram 94 infrações, aplicadas entre janeiro de 2020 e junho de 2024, que não chegou ao poder público pois “processos administrativos causam a demora no repasse”, afirmou em live o secretário de Meio Ambiente, Desenvolvimento Ciência, Tecnologia e Inovação (SEMADESC), Jaime Verruc.
O que é preciso fazer para evitar incêndios no Pantanal:
- Fortalecer o Prevfogo/IBAMA e incentivar, capacitar, equipar e reforçar o orçamento das brigadas pantaneiras de combate ao fogo – estas medidas devem ser tomadas pelos governos federal e dos estados de MS e MT.
- Colocar a Polícia Federal no combate às queimadas e aos incêndios criminosos – ação a ser tomada pelo governo federal.
- Elaborar a lei específica para assegurar a conservação do Pantanal como exigido pela Constituição.
- Frear todos os projetos de lei do pacote da destruição que tramitam no Congresso – estas ações devem ser feitas pelo presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre.
- Reduzir urgentemente as emissões de gases de efeito estufa produzidas pelo Brasil, zerando o desmatamento e eliminando gradualmente a produção e a queima de combustíveis fósseis – a liderança desta ação deve ser do governo federal, que precisa apresentar urgentemente seu novo Plano Clima e uma nova contribuição para o Acordo de Paris alinhada com a meta de aquecimento global máximo de 1,5ºC.
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