Crime climático

A emergência climática tem nome e sobrenome: as petroleiras mundiais.

Os termômetros falam por si: os meses de verão no Hemisfério Norte, junho, julho e agosto, foram os mais quentes da História. E altas temperaturas foram registradas até mesmo no inverno do Hemisfério Sul – o Brasil, por exemplo, foi um dos lugares mais quentes do planeta no final da estação considerada “fria”. Em todo o mundo, as ondas de calor mataram milhares de pessoas, seja por causa dos termômetros nas alturas, seja por incêndios ou tempestades extremas. Os quase 50 mortos no Rio Grande do Sul no início de setembro são um exemplo dessa tragédia humana provocada pelas mudanças climáticas.

Enquanto isso, as petroleiras de todo o mundo, mas sobretudo as chamadas “big oil”, multinacionais que atuam em diversos países, mantêm planos de produzir mais e mais, no que são acompanhadas por carvoeiras e demais produtoras de combustíveis fósseis. E fazem isso sabendo, há quase 50 anos, que o petróleo e o gás fóssil são os principais responsáveis pelo aquecimento do planeta – um relatório da “big oil” Exxon-Mobil de 1977 já previa a crise climática.

Não é preciso ser especialista para verificar que a temperatura média do planeta subiu à medida que a produção e o consumo dos combustíveis fósseis – e também os lucros das empresas do ramo – cresceram de forma exorbitante. É uma relação direta e evidente.

Algumas dessas grandes petroleiras, como a Shell e a BP, chegaram a anunciar há alguns anos que reduziriam investimentos em combustíveis fósseis e que passariam a investir mais em fontes renováveis de energia, numa aparente preocupação em acelerar a transição energética para um mundo de baixas emissões de carbono à atmosfera. Mas os planos mudaram, e ambas não apenas diminuíram os recursos investidos em fontes renováveis de energia, como refizeram suas projeções e querem produzir mais petróleo e gás fóssil. Não à toa, a Shell foi “mandada para o inferno” durante a assembleia geral de acionistas deste ano, após anunciar seus “novos velhos planos”.

Enquanto os países pobres e em desenvolvimento cobram justificadamente os US$ 100 bilhões anuais prometidos pelas nações ricas para que enfrentem as mudanças climáticas, as petroleiras passam desapercebidas e sem doar um tostão para ajudar quem já sofre com o clima extremo causado por elas. Pelo contrário: continuam sugando recursos de bancos e outras instituições financeiras, e também de governos via subsídios, desviando assim recursos que poderiam financiar a transição energética para fontes renováveis de energia. Para dar um exemplo do tamanho do desvio, a Agência Internacional de Energia (IEA) mostrou que, em 2022, os subsídios globais à energia fóssil somaram US$ 1,1 trilhão – o dobro do ano anterior.

Estes subsídios, somados à elevação do preço internacional do petróleo e do gás natural fóssil decorrente da guerra na Ucrânia, fizeram explodir os lucros das petroleiras. Exxon, Shell, Chevron, TotalEnergies e Petrobras, entre várias outras, registraram lucros líquidos recordes em 2022.

Então, por mais que finjam que “não é com elas”, a culpa dos transtornos climáticos que estamos vivendo é, sim, das petroleiras e de suas colegas fósseis. A crise climática tem nomes e sobrenome, como ExxonMobil, Shell, BP, Chevron, TotalEnergies, Saudi Aramco, PetroChina, Sinopec… e segue a lista, incluída aí a Petrobras. Estas têm o estímulo velado ou explícito dos governos de seus países de origem para continuarem produzindo mais e mais energia suja, à revelia da necessidade urgente de frear a tragédia que já é uma realidade.

Chamar as ondas de calor pelos nomes das petroleiras pode parecer um exercício bem humorado, mas transmitirá um recado sério: ou damos “nomes aos bois” e responsabilizamos – e cobramos – os verdadeiros responsáveis pelas mudanças climáticas – os combustíveis fósseis e quem os produz –, ou vamos ficar enxugando gelo com medidas paliativas, que tentam jogar sobre as pessoas, e não sobre as corporações, a culpa verdadeira do que está acontecendo.

Dar nome e cobrar dos culpados é Justiça Climática. E mais do que nunca precisamos dela.

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Por Alexandre Gaspari, ClimaInfo

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