Controle do petróleo venezuelano pelos EUA desafia a transição energética 

Política trumpista reafirma distanciamento dos EUA das renováveis, na contramão do resto do mundo.
13 de janeiro de 2026
trump venezuela petróleo
Ilustração gerada por IA

Ao atacar a Venezuela, o negacionista Donald Trump não negou seus verdadeiros interesses no país. Democracia? Que nada, segundo Trump, a Venezuela “roubou” petróleo dos EUA. “Nós construímos a indústria petrolífera da Venezuela com talento, motivação e habilidade americanos, e o regime socialista roubou isso de nós durante esses governos anteriores”, alegou, em referência à ExxonMobil e à ConocoPhillips, petrolíferas cujos ativos foram expropriados por Hugo Chávez.

Petróleo, petróleo, petróleo, é só isso que consta na agenda de Trump. Para o cientista político norte-americano Ian Bremmer, presidente da consultoria Eurasia, ouvido pela Folha, os EUA cometeram um erro estratégico ao preterir a transição energética, o que resultou em uma política externa unilateral, pouco coordenada com aliados e uma diplomacia movida por impulsos pessoais. Ao contribuir para um ambiente global instável, os EUA figuram na 1ª posição entre as ameaças à ordem global, segundo o relatório do grupo Eurasia sobre os maiores riscos de 2026.

A Deutsche Welle explica por que o petróleo venezuelano importa para os EUA: apesar de ser um grande produtor de petróleo bruto, o país não produz o tipo mais pesado e viscoso, que muitas de suas refinarias, em especial no Golfo do México, são equipadas para refinar.

Esse é o tipo de petróleo extraído da Venezuela. Apesar da indústria venezuelana estar defasada, o país abriga as maiores reservas globais de petróleo pesado, tendo abastecido a indústria americana por muitas décadas.

“Os Estados Unidos estão cada vez mais retrocedendo na transição energética e, além disso, estão muito dispostos e aptos a mobilizar forças militares para atingir esse objetivo”, afirmou Li Shuo, diretor do centro de clima da China no Instituto de Política da Sociedade Asiática, à CNN Brasil.

Enquanto Washington trata a transição energética como ativismo “woke”, a China consolida sua liderança em energia renovável, barata e em grande escala, sem muita resistência de sua oponente no xadrez global. O governo Trump informou à presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, que o país deve cortar laços com a nação asiática e também com o Irã, a Rússia e Cuba e concordar em vender seu petróleo exclusivamente para os EUA.

Além da audácia descarada, o fanatismo de Trump o cega a uma informação óbvia: a China não precisa do petróleo da Venezuela, enquanto a economia da Venezuela precisa da China. A China é uma das maiores compradoras de petróleo venezuelano, mas os investimentos na transição energética, em especial na eletrificação do setor de transporte, estão distanciando o país da dependência de combustíveis fósseis. O país liderou com folga a venda de veículos elétricos globalmente em 2025: dos 18,5 milhões, 11 milhões foram vendidos na China.

No mesmo ano, o país também estava construindo 510 gigawatts de capacidade de geração de eletricidade solar e eólica. A promessa era chegar a 3.600 gigawatts implantados em energia solar e eólica, o que equivale a seis vezes mais do que em 2020. Especialistas projetam que o país já atingiu, ou atingirá muito em breve, seu pico de consumo de  petróleo.

O tabuleiro geopolítico ainda é incerto devido aos passos imprevisíveis de Trump. Mas já sabemos quem perde: o povo venezuelano, que tem sua economia refém da variabilidade dos preços internacionais dos combustíveis fósseis e atrelada à concentração de renda, à guerra e às mudanças climáticas. Perde também o povo estadunidense, que vê o país desmontar órgãos e políticas climáticas como nunca antes, o multilateralismo e a política climática global.

Quanto mais investimento em fósseis e guerras, menos espaço temos para avançar em agendas como o Mapa do Caminho para o fim dos combustíveis fósseis, tão necessárias para limitar o aquecimento global a 1,5°C.

IstoÉ Dinheiro, Estadão, Globo, Um Só Planeta, Nexo, g1 e Climate Change News também falaram do assunto.

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