
Nos primeiros dias após o sequestro de Maduro por forças dos EUA, Trump foi audacioso nas celebrações. Deixando de lado qualquer pretensão de “libertar” os venezuelanos do regime chavista, Trump reiterou que a prisão de Maduro e a possível cooperação da nova líder do país, Delcy Rodríguez, garantiriam o controle pelos EUA das maiores reservas de petróleo do planeta.
Como o NY Times assinalou, o controle do petróleo da Venezuela pelos EUA encaixa-se na busca do governo Trump por uma “dominância energética” global baseada na energia fóssil. Com o petróleo venezuelano, os EUA teriam condições de projetar poder pelo mundo sem se preocupar com as consequências econômicas e políticas das oscilações nos preços do petróleo, reduzindo a influência dos petroestados do Oriente Médio, pelo menos na cabeça do agente laranja.
No entanto, o entusiasmo autoelogioso de Trump ficou restrito à Casa Branca. Para atores importantes, como as principais empresas de combustíveis fósseis do planeta, o cenário ainda está marcado por incertezas que, em última análise, inviabilizam os investimentos massivos necessários ao proveito de Washington.
A reunião de Trump com os CEOs do Big Oil da semana passada foi um banho de água fria para suas pretensões. Para muitas dessas grandes empresas, a instabilidade política na Venezuela afasta a possibilidade da indústria fóssil investir as dezenas de bilhões de dólares necessários para reconstruir o setor no país. É muito risco e custo, especialmente se a Casa Branca não assumir a maior parte da bucha (leia-se colocar dinheiro público dos EUA como garantia para as petroleiras, pobrezinhas!).
Por ora, o ceticismo da indústria de combustíveis fósseis não mudou a retórica de Trump, pelo contrário. Guardian e Reuters repercutiram a irritação do presidente norte-americano com a direção da ExxonMobil, após seu CEO, Darren Woods, afirmar que a Venezuela ainda seria “inadequada para investimentos”. Em conversa com jornalistas, Trump afirmou não ter gostado da fala de Woods e que está estudando deixar a ExxonMobil de fora do projeto. “Não gostei da resposta deles. Estão sendo muito espertinhos”, disse.
Além da falta de entusiasmo do Big Oil, os planos de Trump para a Venezuela esbarram na realidade de Caracas. A despeito do sequestro hollywoodiano de Maduro, o governo chavista permanece com autoridade inquestionável no país. A oposição, que celebrou a prisão do herdeiro político do ex-presidente Hugo Chávez, esperava que as forças dos EUA forçassem uma mudança de regime no país. No entanto, não apenas Trump manteve o chavismo no poder, mas também desmoralizou a principal liderança opositora, María Corina Machado, menosprezada publicamente pelo presidente norte-americano.
O tabuleiro geopolítico também é um obstáculo. Como a Reuters noticiou, a Rússia reafirmou que não pretende abrir mão de seus ativos petrolíferos na Venezuela, hoje controlados pela estatal Roszarubezhneft. “[Todos os ativos] são propriedade do Estado russo”, afirmou a empresa em comunicado. A Rússia é uma das principais aliadas do governo chavista na Venezuela, com parcerias estratégicas com a estatal PDVSA.



