
A “perfuração segura” da Petrobras no bloco FZA-M-59, na Foz do Amazonas, ainda não chegou ao suposto reservatório de petróleo existente na área e já apresentou falhas graves. Além de permitir o vazamento de quase 20 mil litros de fluido lubrificante, o que paralisou as operações, a petrolífera ignora a apreensão de Povos Indígenas, quilombolas e comunidades ribeirinhas após o acidente.
“Até agora a gente não teve nenhuma informação oficial sobre esse acidente. Ninguém chamou os Povos Indígenas para sentar, conversar e explicar o que aconteceu e quais são as medidas que serão tomadas diante desta situação. Nossa preocupação triplicou”, disse à Folha o cacique Edmilson Karipuna, da Terra Indígena (TI) Uaçá, em Oiapoque, no litoral do Amapá. A cidade está a menos de 200 km do Bloco 59.
Para as lideranças locais, o vazamento de fluido de perfuração reforça medos antigos de acidentes mais graves, com impactos ambientais e ameaças diretas às fontes de alimento e ao modo de vida tradicional, relatam Notícia Preta, Projeto Colabora e Amazônia Real. E a falta de informação e de orientação sobre o que aconteceu aumenta ainda mais esta angústia.
Para a coordenadora executiva da Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Amapá e Norte do Pará (APOIANP), Luene Karipuna, o vazamento já é um alerta sobre os riscos que as comunidades da costa do Amapá e do Pará vêm apresentando em vários espaços de discussão há tempos. Ela ainda lembrou que a Petrobras nunca fez consulta prévia às populações.
“Por mais que digam que eles [os fluidos de perfuração] vão se destruir na Natureza, a gente sente uma preocupação, principalmente em como a gente acessa as informações: uma informação mais direta, mais clara, principalmente sobre o que são esses fluidos. Eles são contaminantes? Eles passam por processo de decomposição? Tudo isso nos preocupa”, questiona.
A incerteza aumenta quando se observa que a própria Petrobras se contradiz quanto ao impacto do material. A empresa correu para informar que o fluido vazado não causaria danos ambientais nem à população. No entanto, a petrolífera informou o incidente como de risco à saúde humana e ao meio ambiente à Agência Nacional do Petróleo (ANP).
Fontes ouvidas pela DW, em matéria reproduzida pelo UOL, afirmam que a empresa poderá ser autuada. Mesmo que o fluido vazado seja biodegradável, como a Petrobras alega, suas moléculas podem causar poluição a depender da quantidade, afirmam especialistas.
Enquanto isso, a exploração de combustíveis fósseis no Bloco 59 está suspensa, informa o Meteored. A Petrobras tem até 90 dias, contados a partir da data do vazamento, para encaminhar à ANP um relatório detalhado do acidente. Até que o relatório seja enviado e a agência reguladora acolha ou não as justificativas apresentadas, a empresa não poderá retomar a operação.
Em tempo: Políticos do Amapá já projetam arrecadações bilionárias com o petróleo e o gás fóssil da Foz do Amazonas, informam AM1 e BNC Amazonas. A expectativa se concentra principalmente nas cidades do norte do estado, como Oiapoque, que já sente os impactos da atividade na região - só que de forma negativa, com ocupação desordenada e aumento de preços. Mas essa turma deveria deixar as barbas de molho. Primeiro, a Petrobras e outras empresas precisam encontrar combustíveis fósseis em quantidade comercialmente viável no Bloco 59. A melhor das hipóteses coloca o início da operação para 2032 ou além. Se a exploração for bem-sucedida e a produção andar, os royalties com os quais os municípios e o estado do Amapá contam ainda dependerão da quantidade extraída e do preço do petróleo. Como há uma tendência de redução da demanda e de excesso de oferta, os bilhões esperados poderão virar um prejuízo salgado para cobrir os impactos sociais e ambientais que já estão comendo soltos, mesmo sem uma gota de óleo produzida.



