
Olhando para as águas límpidas do Lago Puruzinho, no Amazonas, o pescador Raimundo Nonato dos Santos lamenta o declínio dos estoques de peixes que afeta o sustento de sua comunidade. Ele relata que espécies como o pirarucu, o tambaqui e a pirapitinga tornaram-se “bem raras” na comunidade. “Quando a gente pega um, é uma surpresa.”
Morador do Puruzinho desde que nasceu, há 53 anos, Santos, líder da comunidade, disse que a construção da hidrelétrica de Santo Antônio, no Rio Madeira, no estado vizinho de Rondônia, em 2008, desencadeou “a ruína” de sua comunidade, relata a Mongabay Brasil em matéria reproduzida pela Agência Pública.
A usina, a quinta maior do país, gerou protestos de ambientalistas desde o início de sua construção devido aos seus impactos ambientais e sociais, como a redução dos estoques de peixes e o deslocamento de Comunidades Tradicionais. Seu reservatório abrange mais de 54.600 hectares, o que limita o fluxo natural do rio Madeira.
O Madeira também foi afetado por outra hidrelétrica, a Jirau, a quarta maior do país, localizada a 120 km de Santo Antônio, que começou a operar em 2013. Desde então, uma ampla gama de estudos tem evidenciado redução dos estoques pesqueiros após os projetos de infraestrutura ao longo do rio Madeira.
Um artigo revelou detalhes sobre as comunidades e espécies mais impactadas – questões até então sem resposta – tendo os pescadores como protagonistas. Santos foi um dos 120 pescadores que trabalharam com os pesquisadores, fornecendo-lhes “informações valiosíssimas sobre a região”, conforme afirmou o coautor do estudo Igor Hister Lourenço, ex-pesquisador da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
Publicado em novembro de 2023 por pesquisadores da UFAM, o estudo analisou dados de capturas diárias na Colônia dos Pescadores de Humaitá entre maio de 2018 e abril de 2019 – dados atualizados estão sendo compilados para publicação – e informações do período anterior à barragem de Santo Antônio, em 2009 e 2010, coletadas pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR). “Os resultados mostram que a instalação das hidrelétricas afetou negativamente a dinâmica de captura de diversas espécies de peixes devido à alteração dos períodos e locais de captura registrados anteriormente”, constatou o estudo. Descobertas que só foram possíveis graças ao trabalho colaborativo entre pescadores e pesquisadores.
O estudo apontou 25 novos pontos pesqueiros “com capturas expressivas”, ao passo que, nas comunidades de Sossego, Trapicho, Lago do Caiarí e Santa Júlia, a pesca desapareceu. Também registrou menos capturas de Characiformes e Siluriformes, ordens que abrangem várias famílias, gêneros e espécies de peixes com escamas e sem escamas. Para Siluriformes, as capturas também passaram a ocorrer em locais e períodos distintos, apontou a pesquisa.
“Consequentemente, isso levou os pescadores a buscarem novos locais de captura, mais distantes, e ocasionou o desaparecimento de comunidades que, historicamente, exploravam áreas que não são mais produtivas, refletindo os efeitos do barramento sobre os gradientes de captura espacial e temporal.”
A pesquisa ainda mostrou uma redução de até 90% nos estoques de peixes em alguns locais, entre 65 espécies capturadas nas áreas de influência das barragens de Santo Antônio e Jirau.



