
O governo federal comemora a continuidade da queda do desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Após os quatro anos do (des)governo de Jair Bolsonaro, quando a destruição era a palavra de ordem, a redução precisa mesmo ser celebrada. Mas a expansão do crime organizado para além do tráfico de drogas tornou-se mais um desafio para a conservação dos biomas brasileiros.
Em busca de lucros que abastecem outras atividades, facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) aliam-se a diferentes agentes de degradação ambiental, como garimpeiros, madeireiros e grileiros, e pressionam Unidades de Conservação e Terras Indígenas (TI), destaca O Globo. Para resolver isso, especialistas defendem a necessidade de novas abordagens de enfrentamento desses grupos, além do reforço prático da conexão entre as agendas de segurança pública e meio ambiente.
O combate às facções se torna ainda mais difícil com a valorização do ouro e da madeira no mercado internacional, o que estimula a atividade criminosa. Na semana passada, o ouro atingiu a marca de US$ 4.700 a onça-troy pela primeira vez na história. O aumento da tensão entre os EUA e a União Europeia sobre a Groenlândia levou à busca por ativos seguros e impulsionou a desvalorização do dólar, tornando os metais preciosos mais baratos para detentores de outras divisas, explica a CNN Brasil.
Por sua vez, os preços da madeira no Brasil atingiram recordes históricos nos últimos anos, impulsionados pela forte demanda de exportação, principalmente para os Estados Unidos, e pelo aumento dos custos operacionais, relata o IBF. A partir de 2024, o setor apresentou alta valorização, com a produção florestal atingindo o recorde histórico de R$ 44 bilhões.
O principal alerta vem da Amazônia, por sua proximidade a regiões produtoras de drogas. Os rios que atravessam a floresta também são rotas de exportação nacional e internacional. Para Aiala Couto, pesquisador sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o narcotráfico vem se conectando com outras frentes do crime ambiental desde o governo Bolsonaro, quando a Polícia Federal e o IBAMA tiveram a sua atuação limitada.
Um levantamento do FBSP mostra que, em 2025, 344 dos 772 municípios da Amazônia Legal tinham pelo menos uma facção em atuação – em 2022, eram 260 cidades mapeadas. A presença maciça do CV na TI Sararé, em Mato Grosso, mesmo após uma operação de desintrusão no 2º semestre, é um exemplo da dificuldade de combater organizações criminosas no bioma.
O combate ao crime organizado entrou pela primeira vez na Agenda de Ação de uma conferência do clima na COP30, em novembro, em Belém. Especialistas destacam a importância de incluir esse debate nas conferências climáticas, mas lamentam a falta de centralidade do tema nas discussões.
Para o secretário executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, a articulação das facções com o crime ambiental decorre do alto lucro que se deriva da impunidade e da falta de governança local. Ele aponta que as organizações criminosas, fortalecidas pela grande capacidade de investimento e pelo apoio de agentes públicos, miram novos territórios e colocam Áreas Protegidas em disputa.
Outro desafio é o fortalecimento dos órgãos ambientais, que sofrem com a desvalorização orçamentária. Exemplo disso está no orçamento federal para fiscalização do meio ambiente e prevenção de incêndios florestais, que em 2026 sofreu corte de 17% em relação a 2025, informa a Folha. São R$ 495,8 milhões previstos para este ano – R$ 101 milhões a menos do que os R$ 596,9 milhões destinados no ciclo anterior.
Em tempo: Importadores de madeira brasileira na Europa e nos Estados Unidos compram produtos com “alto risco de ilegalidade”, aponta um estudo da Environmental Investigation Agency (EIA), especializada na investigação de crimes ambientais. O relatório “Contrabandistas, Corretores e Compradores” revela como toras extraídas ilegalmente de Áreas Protegidas no Pará, como territórios indígenas e reservas ambientais, podem ter virado decks em hotéis de luxo nos EUA e calçadões em praias da Riviera Francesa, destaca a Repórter Brasil, em matéria reproduzida pelo UOL. Uma das citadas pela EIA é a Global Forest Lumber Company, dos EUA. Segundo registros de redes sociais listados no relatório, uma das empresas do grupo forneceu madeira de Ipê a empreiteiros estadunidenses que realizaram reformas em unidades das redes de hotéis Marriott e Hyatt, ambos na Flórida, e na área VIP do Grand Prix da Fórmula 1 em Miami em 2023 e 2025.



