
A guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã fez disparar os preços do petróleo e do gás fóssil no mercado internacional e colocaram em xeque a suposta “segurança energética” associada aos combustíveis fósseis. A volatilidade atingiu em cheio a União Europeia, que depende de importações dessas commodities. Mas, em vez de acelerar a expansão das fontes renováveis, o bloco quer apostar na perigosa [e cara] energia nuclear.
A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, afirmou na 3ª feira (10/3) que a decisão da Europa de abandonar a energia nuclear foi um “erro estratégico” que agora ficou exposto com a guerra no Oriente Médio, informam DW e Euractiv. “Essa redução na participação da energia nuclear foi uma escolha. Acredito que foi um erro estratégico para a Europa virar as costas para uma fonte de energia confiável, acessível e com baixas emissões”, disse na abertura de uma cúpula sobre energia nuclear nos arredores de Paris.
“Sobre os combustíveis fósseis, somos completamente dependentes de importações caras e voláteis. Isso nos coloca em desvantagem estrutural em relação a outras regiões”, disse a chefe da UE. “A atual crise no Oriente Médio serve como um forte lembrete da vulnerabilidade que ela cria”, acrescentou.
A fala de von der Leyen foi música para os ouvidos do presidente da França, Emmanuel Macron. O país tem grande parte de sua eletricidade suprida por usinas nucleares e defende com unhas e dentes a expansão da fonte no continente. Um discurso reforçado com o gargalo energético provocado pelo conflito no Irã.
Presente no encontro, Macron afirmou que a energia nuclear civil ajudou a garantir a soberania energética, relata o France24 – ignorando os imensos estragos socioambientais dos acidentes nas usinas de Chernobyl, na Ucrânia, em 1984, e Fukushima, no Japão, em 2011. “A energia nuclear é fundamental para conciliar a independência, e, portanto, a soberania energética, com a descarbonização e, consequentemente, a neutralidade de carbono”, disse o presidente francês.
A defesa absurda da fonte nuclear como alternativa aos combustíveis fósseis não passou incólume. Dois ativistas do Greenpeace invadiram o palco no início da cúpula nuclear, interrompendo Macron e o diretor-geral da Agência Internacional de Energia Nuclear, Rafael Grossi, enquanto cumprimentavam chefes de Estado, informa o Straits Times.
Vestidos com ternos e gravatas pretas, os manifestantes carregavam faixas com os dizeres “Energia nuclear = Insegurança energética” e “A energia nuclear alimenta a guerra da Rússia”. Um deles gritou para Macron: “Por que ainda compramos urânio da Rússia?”.
A França tem capacidade própria de enriquecimento de urânio. Mas também importa o minério enriquecido para suas usinas nucleares, inclusive da Rússia, segundo dados alfandegários mais recentes divulgados pelo governo francês.



